João Paulo da Silva Nascimento – UERJ
Roberto de Freitas Junior – UFRJ

RESUMO: As línguas de sinais são frequentemente associadas apenas aos movimentos das mãos, mas pesquisas linguísticas demonstram que a comunicação sinalizada envolve a participação integrada de diferentes articuladores corporais. Entre eles, a boca desempenha um papel fundamental, embora ainda pouco conhecido pelo público geral. Este texto apresenta, em perspectiva de divulgação científica, como movimentos labiais contribuem para a construção de significado nas línguas de sinais. Discute-se que a boca não atua apenas como elemento expressivo ou como reprodução silenciosa de palavras da língua oral, mas integra a própria estrutura linguística, podendo diferenciar sinais, marcar aspectos gramaticais e organizar nuances discursivas. O artigo também aborda a noção de simultaneidade, característica central das línguas sinalizadas, e busca contribuir para desfazer mitos sobre essas línguas e ampliar a compreensão pública acerca de sua complexidade estrutural e multimodal. Além disso, aponta implicações para o ensino de Libras, a formação de intérpretes e o desenvolvimento de tecnologias acessíveis, na medida em que reforça a importância de reconhecer o corpo como sistema articulatório.
Durante muito tempo, as línguas de sinais foram descritas, no imaginário popular, como sistemas comunicativos baseados exclusivamente nas mãos. Fotografias, ilustrações didáticas e até reportagens televisivas reforçaram a ideia de que sinalizar consiste essencialmente em produzir gestos manuais organizados no espaço. Essa imagem, embora não completamente equivocada, é profundamente incompleta.
A linguística das línguas de sinais — campo que vem se consolidando internacionalmente nas últimas décadas — demonstra que a comunicação sinalizada envolve uma complexa coordenação de múltiplos articuladores corporais. Entre eles, um elemento frequentemente negligenciado chama atenção: a boca. Para muitos observadores iniciantes, a presença de movimentos labiais durante a sinalização parece um detalhe expressivo, talvez um hábito individual ou uma influência da língua oral majoritária. No entanto, pesquisas linguísticas mostram que a boca desempenha funções estruturais, sistemáticas e linguisticamente relevantes. Em outras palavras, ela não apenas acompanha os sinais: ela participa da língua.
Compreender esse fenômeno exige ampliar nossa própria definição de linguagem
Até meados do século XX, predominava entre estudiosos a crença de que as línguas de sinais seriam formas gestuais derivadas das línguas orais, carentes de gramática própria. Esse cenário começou a mudar com pesquisas que demonstraram que comunidades surdas utilizam sistemas linguísticos completos, transmitidos socialmente e adquiridos naturalmente por crianças. A partir desse momento, tornou-se evidente que a diferença entre línguas orais e línguas de sinais não é de complexidade, mas de modalidade.
Como os próprios nomes sugerem, as línguas orais-auditivas organizam-se no canal sonoro-temporal, enquanto as línguas de sinais operam na modalidade visual-espacial. Essa mudança aparentemente simples transforma consideravelmente a arquitetura linguística possível, pois enquanto a fala depende majoritariamente da sequência linear de sons, a sinalização permite a distribuição simultânea de informações em diferentes partes do corpo. Assim, o que nas línguas orais ocorre em sequência pode, nas línguas sinalizadas, ocorrer ao mesmo tempo.
Essa simultaneidade abre espaço para que elementos como sobrancelhas, olhar, postura corporal e boca assumam funções linguísticas específicas. Ou seja: nas línguas de sinais, o corpo não é apenas suporte da linguagem; ele é o próprio mecanismo articulatório. Pesquisadores costumam dividir os parâmetros morfofonológicos dos sinais em componentes manuais e não manuais. Os componentes manuais incluem configurações de mão, movimentos, localização e orientação. Já os componentes não manuais abrangem:
- expressões faciais;
- movimentos da cabeça;
- direção do olhar;
- inclinação do tronco;
- tensões musculares faciais;
- e movimentos da boca.
Esses elementos não aparecem de forma aleatória. Na verdade, eles seguem padrões convencionais compartilhados por uma comunidade linguística e são adquiridos por usuários nativos desde cedo, de maneira intuitiva, assim como crianças ouvintes aprendem padrões de entonação. Por isso, ignorar tais componentes equivale a observar apenas parte do sistema linguístico.
A boca entra em cena
Entre os articuladores não manuais, a boca ocupa uma posição singular. Diferentemente das sobrancelhas ou da postura corporal, cuja função linguística é mais facilmente percebida por observadores externos, os movimentos da boca frequentemente geram interpretações equivocadas. Muitos acreditam que sinalizantes apenas “pronunciam silenciosamente” palavras da língua oral enquanto sinalizam, mas essa interpretação, embora compreensível, simplifica excessivamente o fenômeno.
Os estudos linguísticos indicam que os movimentos da boca podem desempenhar diferentes funções estruturais, tais como:
Contraste lexical
Em certos casos, sinais que apresentam as mesmas configurações de mãos e os mesmos movimentos podem distinguir-se pela articulação de componentes não manuais, especialmente pelas configurações labiais e pelos movimentos ou posicionamentos da cabeça e do queixo. Esses elementos podem atuar conjuntamente na composição do sinal e na construção de contrastes lexicais, como observamos nos dados a seguir.

Figura 1. Sinal de COMO em Libras. Fonte: Extraído de DICIONÁRIO LIBRAS, 2018. Disponível em: https://youtu.be/AqZpws2Ddoc?si=G_2Q-aC696NM4BZf.

Figura 2. Sinal de PARA QUÊ em Libras. Fonte: Extraído de DICIONÁRIO LIBRAS, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/YqdDD8aVrwI.
Isso significa que o sinal completo não está apenas nas mãos. O significado emerge da combinação simultânea entre articulação manual e não manual. Inclusive, para aprendizes de línguas de sinais iniciantes, essa dimensão costuma passar despercebida, o que explica por que sinais aparentemente “iguais” podem soar estranhos ou ambíguos quando produzidos sem o acompanhamento facial adequado.
Marcação gramatical
Outro papel fundamental da boca está na marcação gramatical, especialmente da categoria de aspecto. Nesse contexto, configurações labiais específicas, como o arredondamento dos lábios, podem atuar na expressão da intensidade, contribuindo para a modulação aspectual do sinal, como observamos a seguir.

Figura 3. Sinal de TRABALHAR em Libras com lábios arredondados. Fonte: Extraído de YTAGirardi, 2023. Disponível em: https://youtu.be/LzaFjkXVoAU?si=lowB3I2UVQ4emXNd.

Figura 4. Sinal de MUITO FLUENTE em Libras. Fonte: YTAGirardi, 2024. Disponível em: https://youtu.be/TZeUwfZ37tg?si=DITgil1E9ArB5o1_.

Figura 5. Sinal de FALA MUITO em American Sign Language. Fonte: Extraído de Spread the Sign. Disponível em: https://media.spreadthesign.com/video/mp4/13/93414.mp4.
Nas línguas orais, tais informações frequentemente exigem palavras adicionais ou modificações entoacionais. Por outro lado, nas línguas de sinais, elas podem ser incorporadas simultaneamente ao sinal principal, como verificado nos casos acima. Com efeito, o resultado disso é uma comunicação altamente eficiente do ponto de vista informacional.
Expressão pragmático-discursiva
Além da gramática estrita, a boca atua na organização discursiva. Certos padrões labiais contribuem para expressar avaliações subjetivas, ironia, surpresa ou posicionamento do falante diante do conteúdo:

Figura 6. Sinal de “escrever desleixadamente” (língua em “th” + sinal de ESCREVER). Fonte: Quadros et al., 2023, p. 251.
Essas funções aproximam-se do papel da prosódia nas línguas orais — aquilo que permite distinguir, por exemplo, uma afirmação neutra de uma fala irônica sem alterar as palavras utilizadas. Assim, a boca também pode participar da dimensão pragmática da língua, ajudando a estruturar a interação social.
Nem mímica, nem leitura labial: a simultaneidade como revolução linguística
Um dos desafios centrais da divulgação científica sobre línguas de sinais é combater equívocos persistentes. Entre eles, dois são particularmente comuns: o primeiro é considerar os movimentos da boca como mera expressividade emocional; o segundo é reduzi-los à leitura labial.
Embora existam fenômenos de influência da língua oral, conhecidos como empréstimos ou mouthing, grande parte dos movimentos labiais não corresponde diretamente a palavras faladas. Eles pertencem à gramática da própria língua de sinais. Essa autonomia linguística evidencia que sinalizar não é “falar sem voz”, mas comunicar-se por outro arranjo modal da linguagem humana.
Talvez a contribuição mais interessante das línguas de sinais para a linguística geral esteja na noção de simultaneidade. Modelos mais clássicos de descrição da linguagem humana foram desenvolvidos a partir da observação de línguas orais, privilegiando a linearidade temporal. Em contrapartida, as línguas sinalizadas mostram que a linguagem pode distribuir significado em múltiplos canais paralelos. Enquanto as mãos expressam a ação principal, …
…o rosto pode indicar tipo de sentença;
…o corpo pode organizar relações espaciais;
…a boca pode adicionar nuances aspectuais e avaliativas.
Tudo ocorre simultaneamente, formando uma arquitetura comunicativa multidimensional e, por essência, multimodal — tal como toda e qualquer expressão da linguagem humana. Aliás, esse é um fato que nos convida a repensar concepções sobre processamento linguístico, cognição e multimodalidade, bem como a entender os desdobramentos no ensino de línguas de sinais e nas práticas de tradução e interpretação.
Ou seja: reconhecer o papel da boca não é apenas uma questão teórica, uma vez que implicações práticas diretas podem ser elencadas. No ensino de línguas de sinais, por exemplo, abordagens centradas exclusivamente no vocabulário manual tendem a produzir aprendizes com fluência limitada, posto que aprender sinais sem componentes não manuais pode equivaler a falar uma língua oral sem entonação adequada.
Além disso, na formação de tradutores e intérpretes, a atenção aos movimentos da boca revela-se fundamental para assegurar não apenas a precisão semântica, mas também a adequação pragmática das produções. E, de modo complementar, podemos pensar que, no desenvolvimento de tecnologias — como avatares digitais e sistemas de reconhecimento automático de sinais —, a compreensão desses elementos torna-se igualmente indispensável, na medida em que contribui decisivamente para a naturalidade e a fluidez da comunicação.
O que as línguas de sinais ensinam sobre a linguagem humana
Observar atentamente a participação da boca nas línguas de sinais produz um efeito curioso: passamos a questionar pressupostos aparentemente óbvios sobre o que significa “falar”. Durante séculos, “voz” e “linguagem” foram tratadas quase como sinônimos. Inclusive, a própria denominação “língua” parece decorrer de um processo metonímico, no qual o nome do principal órgão responsável pela articulação da fala passou a designar também o sistema linguístico. As línguas sinalizadas revelam, contudo, que a linguagem humana não pertence a um único canal sensorial, uma vez que ela é uma capacidade simbólica adaptável, capaz de explorar diferentes recursos perceptivos disponíveis ao corpo humano.
A boca, nesse contexto, deixa de ser apenas órgão da fala sonora e passa a integrar um sistema visual de significação — um tanto quanto semelhante ao aparato gestual humano recrutado durante a produção linguística de ouvintes, se pensarmos de modo mais abrangente. É preciso, então, refletirmos que talvez o maior desafio não esteja em aprender novos conceitos linguísticos, mas em aprender a olhar. Para quem não está habituado, a atenção concentra-se naturalmente nas mãos. No entanto, ao ampliar o foco para o rosto e para a boca, revela-se uma camada adicional de significado imprescindível.
As línguas de sinais nos lembram que linguagem é coordenação, corpo e interação social; mostram que comunicar não é apenas emitir sons, mas organizar sentidos compartilhados. E, nesse processo, a boca continua falando, ainda que em completo silêncio.
Saiba mais
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