Rafael Minussi – Unifesp

Fonte: BUENO, Renata; CARVALHO, Beatriz. Misturichos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
Resumo: A criatividade linguística manifesta-se na capacidade dos falantes de combinar elementos já disponíveis em seu léxico para produzir novas palavras. Entre os processos que revelam essa capacidade, destaca-se o blending, no qual duas ou mais palavras se combinam por justaposição ou sobreposição de segmentos, ou partes de palavra, como em namorido e almojanta. Este texto apresenta pesquisas sobre a formação, o processamento e o acesso lexical de blends no português brasileiro e europeu, desenvolvidas no âmbito do projeto B&C-Proalex. A análise de um corpus com mais de 500 blends revelou tendências estruturais, semânticas e prosódicas, indicando que a sua formação não é aleatória. Experimentos de associação de palavras e decisão lexical mostraram, ainda, que os falantes recuperam bases não necessariamente visíveis nas formações e que características prosódicas podem favorecer essa recuperação. Por fim, discute-se o estatuto dos blends e sua pouca exploração em materiais didáticos, defendendo sua inclusão no ensino de morfologia e no desenvolvimento da consciência morfológica na Educação Básica.
A criatividade linguística é uma das características mais importantes da linguagem humana e ela nos acompanha desde o nascimento. Podemos perceber isso em crianças que estão adquirindo uma língua, quando, por exemplo, elas começam a pronunciar frases e palavras que nunca ouviram antes e criar palavras novas, a partir das combinações de raízes, outras palavras e morfemas que estão presentes no seu léxico já adquirido. Alguns exemplos desse tipo de criatividade são: planteiro, borrachar, atrapalhante, amigosa etc. O perfil do Instagram “Frases de criança” é um prato cheio para morfólogos, com exemplos curiosos da criatividade linguística e do que podemos chamar de consciência linguística de modo geral, ou, nos casos específicos, consciência morfológica, uma vez que a criança utilizou o sistema linguístico do português, raízes e morfemas, para criar palavras.
No entanto, algo parece acontecer com as crianças quando entram na idade escolar. Algumas começam a deixar de lado essa “capacidade” criativa, e temo que a própria escola (que na realidade brasileira, por meio de um ensino “engessado”, privilegia as classificações, cobra nomenclatura e não abre espaço para reflexões linguísticas) vai, aos poucos, limitando a criatividade das crianças e jovens. Além disso, as aulas de português, infelizmente, não têm se ocupado do ensino do sistema linguístico, utilizando o conhecimento que os próprios alunos já têm sobre a língua, uma vez que os alunos já chegam na escola falando uma língua — na maioria dos casos, o português.
A observação da língua nos ajuda a entender que, ainda que a escola se esforce muito para padronizar o ensino de português, a criatividade é uma capacidade inata e, portanto, sobrevive aos anos escolares, e a morfologia parece ser um exemplo de lugar onde tal criatividade pode ser encontrada e é bastante produtiva. Há um processo de formação de palavras que tem ganhado cada vez mais espaço entre os processos produtivos de formação de palavras. Trata-se do blending, que origina o que chamamos de blend e que também recebe os nomes de cruzamento vocabular, portmanteau, amálgama, entre outros.
Podemos entender que o blend é formado a partir de duas ou mais palavras disponíveis na língua, em que há justaposição ou sobreposição de segmentos de palavras, ou uma palavra e um segmento de palavra, como ocorre em: namorido, roubartilhar, abreijo, delegato, almojanta e tantos outros (cf. Villalva e Minussi, 2022). Em português, encontramos alguns padrões de formação de blends que nos ajudam a entender essas formações e que apontam que não se trata de um processo marginal e aleatório de formação de palavras. Neste texto, vou mostrar algumas pesquisas que já foram realizadas por mim e por alguns colegas pesquisadores sobre esse processo de formação de palavras e que são reveladores do conhecimento que temos sobre as palavras e sobre como esse processo auxilia na ampliação no léxico de nossa língua.
Uma atividade interessante, que fiz diversas vezes em palestras, com os alunos da graduação e da pós-graduação, é mostrar a seguinte imagem e pedir que a nomeiem:

Fonte: Web, sem autoria.
Raramente, os interlocutores dão como resposta um nome composto como jacaré-vampiro. Blends como dracaré <drácula + jacaré>, vampiré <vampiro + jacaré>, jacapiro <jacaré + vampiro>, jacacula <jacaré + drácula>, crocopiro <crocodilo + vampiro>, vampigarto <vampiro + lagarto>, batgarto <batman + lagarto>, entre outros, costumam aparecer como maioria esmagadora das respostas, sugerindo que o blending, pelo menos entre os adultos, é bastante produtivo e que talvez seja mais produtivo do que a composição. Esses dados nos sugerem que há diferentes padrões para a formação dessas palavras, de modo que as mesmas bases podem formar diferentes combinações como, por exemplo, vampiro e jacaré, que resultam em “vampiré” ou “jacapiro”. A pergunta que podemos fazer é: será que há alguma preferência ou algum padrão para formar blends em português?
Em uma pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto B&C Proalex, envolvendo pesquisadores e laboratórios da Unifesp (LabLinC), da UFPB (LAPROL) e da Universidade de Lisboa (The Word Lab), os pesquisadores, a partir de um corpus de mais de 500 blends, coletados em redes sociais, literatura, propagandas, músicas etc., observaram a existência e certas tendências. A estrutura do blends foi descrita usando dois elementos: o clip, entendido como um segmento, ou parte de uma palavra, sem estatuto morfológico; e a palavra, quando essa está totalmente visível no blend. Desse modo, encontramos quatro tipos de estrutura: CP (clip-palavra) delegato, PP (palavra-palavra) bolovo, PC (palavra-clip) cãominhada ou CC (clip-clip): seguimor. Entre essas estruturas, a mais frequente no corpus foi a estrutura CP (30,7%), seguida da PP (com 29,7%). A pesquisa também revelou que a relação de coordenação (por exemplo, namorido <namorado + marido>), que é quando ambas as bases do blend podem funcionar como núcleo semântico, é a mais encontrada com cerca de 42,8%, seguida pela relação modificador-núcleo (e.g., sofressor <sofredor + professor>) com 40,4%.
O projeto também observou o número de sílabas das palavras formadas. Foram encontrados quatro tipos de padrões: (i) blends com o mesmo número de sílabas da primeira base (e.g., advogato <advogado + gato>; (ii) blends com o mesmo número de sílabas da segunda base (e.g., pãodemia < pão + pandemia>; (iii) blends que têm as bases e o blend com o mesmo número de sílabas (e.g., franglês <francês + inglês> e, por fim, (iv) blends com o número de sílabas diferente das bases (e.g., livemício (live + comício). A análise do corpus mostrou que 41,2% dos blends têm número de sílabas diferente do número de sílabas das bases dos blends e um equilíbrio entre blends com o mesmo número de sílabas da primeira base (28,4%) e blends com o mesmo número de sílabas da segunda base (28,2%).
A partir dos resultados do corpus, podemos dizer que fatores semânticos (relação núcleo-modificador), estruturais (tipo de estrutura) e padrões prosódicos (acento e número de sílabas) estão envolvidos na formação de um blend em português. Entender como se dá a combinação desses fatores foi fundamental para entendermos como essas palavras são processadas, em uma etapa que envolveu alguns testes psicolinguísticos, que começaram a ser realizados tomando falantes do português brasileiro (PB) e do português europeu (PE). Nesta pesquisa, realizada na Universidade de Lisboa, em parceria com a Profa. Dra. Alina Villalva, realizamos um teste off-line de Associação de Palavras (TAP), em que perguntávamos aos falantes das duas línguas a primeira palavra que lhes vinha à mente quando liam um blend.
Os resultados desse primeiro TAP foram bastante reveladores. Nossa hipótese era a de que, quando havia uma estrutura do tipo CP (e.g., impastor <impostor e pastor>) ou PC (e.g., tristemunho <triste + testemunho>), em que há palavras visíveis, os participantes responderiam com a palavra visível, contudo, isso não aconteceu. Houve uma preferência por parte dos participantes, em ambas as línguas, por respostas que envolviam a palavra clipada, isto é, a palavra-base que não estava totalmente visível no blend. Em estruturas do tipo PC foram cerca de 63% de respostas para a Base 2, e em estruturas do tipo CP foram 70% de respostas para a Base 1. Novos testes apontaram para o fato de que havia a atuação de um componente prosódico: a palavra clipada podia ser recuperada, principalmente quando o número de sílabas do blend, ou o acento, era o mesmo do blend, como em delegata, ou seja, uma das bases era parcialmente apagada, mas seu padrão silábico ou acentual era mantido no blend, possibilitando sua recuperação pelos participantes.
Também um teste online de Decisão Lexical, em que se contabiliza o tempo que o participante leva para ler uma palavra e responder se a palavra pode ser uma palavra do português ou não, foi realizado com falantes do PB e do PE. O tempo contabilizado desde o momento em que o participante lê a palavra até o momento em que dá a sua resposta é chamado de tempo de reação, e os resultados desse teste podem ser observados no Gráfico 1:

O Gráfico 1 mostra os resultados dos tempos de reação (TR) em milissegundos para cada uma das estruturas PC, CP e CC. Primeiramente, notamos que os blends com a estrutura CC tiveram um TR menor nas duas línguas, o que, para nós, naquele momento, foi curioso, pois a estrutura CC é a estrutura em que nenhuma das bases do blend é visível. Nossa hipótese era a de que não tendo bases visíveis, o TR seria maior. Também é possível perceber, pelas linhas do gráfico, que há uma certa homogeneidade no processamento dos blends, por meio dos TR, nas duas línguas. Embora os participantes brasileiros tenham médias de TR mais rápidas, as categorias tiveram um comportamento bastante semelhante.
Recentemente, com a ascensão das questões ligadas à Inteligência Artificial, realizei uma pesquisa, juntamente com Thuany Teixeira de Figueiredo (Unicamp) e Rafael Beraldo (Impa Tech) sobre o comportamento dos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) em relação à interpretação dos blends. Alguns resultados preliminares mostraram que, embora os LLMs tenham menor taxa de acerto na interpretação dos blends do que os humanos, há uma semelhança com os humanos no padrão de respostas, isto é, para uma estrutura como PC, os LLMs deram como resposta, na maioria das vezes, a base clipada. Também notamos um avanço na taxa de acertos de 15% para o GPT-3.5 e 47,5% para o GPT-4. Em breve, traremos novas notícias sobre os resultados dessa pesquisa.
Por fim, há um problema importante sobre o estudo dos blends que esbarra na questão de se blends podem ser considerados um tipo de nome composto. Essa é uma questão aberta, uma vez que há autores, como Sandmann (1991) e Marangoni Junior (2021), que aproximam os blends dos compostos, ao considerarem que blends podem ser um subtipo de composição, e outros autores, como Gonçalves (2003), Andrade e Rondinini (2016) e Braga e Pacheco (2024), que defendem que os blends não são compostos. Nesse ponto, vale a pena mencionar que o blending e os blends são ignorados pelos livros didáticos e documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O próprio processo de composição é relegado a classificações que exploram apenas aspectos fonológicos como, por exemplo, a justaposição e a aglutinação, enquanto aspectos da estrutura e da modificação nessas formações são deixados de lado, sem contar a utilização de exemplos que não fazem parte do cotidiano dos alunos como, por exemplo, “fidalgo” e “pernalta”. Como já mencionei anteriormente, os blends são frequentes no cotidiano dos falantes do português e, por todas as propriedades elencadas, deveriam ser explorados nas aulas da educação básica no ensino de morfologia e para a conscientização morfológica dos alunos.
Saiba mais
MINUSSI, Rafael Dias; NÓBREGA, Vitor Augusto. A interface sintaxe-pragmática na formação de palavras: avaliando os pontos de acesso da Enciclopédia na arquitetura da gramática. Veredas, Juiz de Fora, v. 18, n. 1, pp. 161–184, 2014.
MINUSSI, Rafael Dias; VILLALVA, Alina Maria Santos Mártires. Reconhecimento e acesso lexical dos blends em português europeu e português brasileiro. Todas as Letras – Revista de Língua e Literatura, São Paulo, v. 22, n. 1, pp. 1–14, 2020.
Referências bibliográficas
ANDRADE, Katia Emmerick; RONDININI, Roberto Botelho. Cruzamento vocabular: um subtipo da composição? DELTA: Documentação e Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 32, n. 4, pp. 861–887, 2016.
BRAGA, Emerson Viana; PACHECO, Vera. Algumas considerações sobre o status dos blends no léxico do português brasileiro. Revista do GEL, v. 21, n. 1, pp. 54–78, 2024.
GONÇALVES, Carlos Alexandre. Blends lexicais em português: não-concatenatividade e correspondência. Veredas, Juiz de Fora, v. 7, n. 1, pp. 149–167, jan./dez. 2003.
MARANGONI JUNIOR, César Elidio. A blenditividade na formação de palavras: a derivação dos blends na interface entre morfologia, fonologia e pragmática. 2021. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Linguística Geral) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
SANDMANN, Antônio José. Morfologia Geral. São Paulo: Contexto, 1991.
VILLALVA, Alina; MINUSSI, Rafael Dias. Description and analysis of a Portuguese blend corpus. Corpus, n. 23, 2022.
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