Ana Paula Quadros Gomes – UFRJ-USP

Em 1931, o surrealista Salvador Dalí pintou “A persistência da memória”
Resumo: Nossa vivência escolar nos leva a confundir os nomes dos paradigmas de conjugação verbal (presente do indicativo, pretérito perfeito do indicativo etc.) com o conceito de tempo verbal da ciência linguística. Será que o português do Brasil (PB) tem meia dúzia de tempos linguísticos? Ou apenas passado, presente e futuro? Como então o paradigma de conjugação verbal se relaciona com o tempo linguístico? Este artigo visa desfazer essa confusão comum, mostrando para isso verbos conjugados no presente do indicativo que podem expressar tempo futuro. Mas não dá certo com toda e qualquer sentença, apenas com algumas. Vamos ver quais e que propriedades estão em jogo. Boas sentenças com verbo conjugado no presente do indicativo e com “amanhã” expressam futuridades: planos são traçados hoje para que uma situação se concretize no futuro. Veremos também que há línguas que só distinguem morfologicamente não-futuro (passado & presente) de futuro, e que o PB pode ser tratado como uma língua que opõe passado a não-passado, motivo pelo qual o presente do indicativo pode sim expressar futuro, mas jamais expressa passado.
O que é tempo?
A primeira vez que um ser humano pisou na Lua foi em 20 de julho de 1969. Ao falarmos nisso agora, sinalizamos que esse fato é passado. Mas antes de pisar o solo lunar, Neil Armstrong poderia ter dito a Buzz Aldrin: “Um ser humano vai pisar na Lua daqui a 10 minutos”, colocando o evento no futuro. E, como a alunissagem teve transmissão ao vivo pela TV, alguém que estivesse assistindo de casa bem podia ter falado: “Olhem! Um ser humano está pisando na Lua pela primeira vez!” Que mecanismos gramaticais são responsáveis por mudar a perspectiva temporal de um mesmo fato? Como opera o tempo linguístico?
Em línguas como a nossa, é no verbo que o tempo é marcado. Tempo verbal é um tema que revemos muitas vezes na nossa vida escolar. Ele traz à memória tabelas de conjugação verbal, verbos irregulares, defectivos, abundantes… Vêm à mente informações como “o verbo ‘falir’ só tem duas formas no presente do indicativo, a de primeira pessoa do plural (“falimos”) e a de segunda do plural (“vós falis”)”… Ou como: “não é ‘interviu’, mas ‘interveio’”… Essa abordagem visa a evitar erros, trabalhando exceções às regras gerais e pontos críticos das diferenças entre o vernáculo (o modo como as pessoas falam espontaneamente) e a norma-padrão, que rege aquilo que é considerado correto no uso da língua.
Juntando o fato de a flexão apresentar formas diferentes para passado (comprei), presente (compro) e futuro (comprarei) à nossa vivência escolar, acabamos associando tempo com o nome dos paradigmas (tabelas-padrão) de conjugação pretérito perfeito do indicativo etc. Como aprendemos na escola que pretérito significa “que já passou”, e os nomes desses paradigmas de conjugação trazem termos como esse sinônimo de passado, ou presente, ou futuro, poderíamos pensar que a nossa língua tem uma dezena de tempos distintos, com cada paradigma de conjugação verbal marcando um deles. Mas será que cada forma de flexão verbal distinta marca um tempo verbal distinto?
Seria um engano cair na armadilha de confundir os paradigmas de conjugação com os tempos como entendidos segundo a ciência linguística, doravante chamados de “tempo(s) linguístico(s)”. Por exemplo, será que verbos conjugados no presente do indicativo sempre falam de acontecimentos no presente? É o que esperaríamos se os nomes dos paradigmas de conjugação fossem indicação fidedigna de tempo linguístico. Mas não é o que acontece. É usual dizer “Eu viajo amanhã”. Nessa sentença, o verbo está conjugado no presente do indicativo, mas compreendemos que a viagem de que se fala ainda vai acontecer, o que indica tempo linguístico futuro.
Afinal, quantos tempos linguísticos existem? E será que qualquer coisa é possível? Por exemplo, um verbo conjugado no futuro do indicativo pode ser usado para expressar passado? Obviamente não (*“Eu viajarei ontem” não soa natural). A interface entre os níveis morfológico (a forma assumida pela desinência verbal) e o semântico (expressão de tempos linguísticos universais) tem regras e pode ser explicada.

A máquina do tempo foi uma obra pioneira, ao levar o homem a viajar no tempo por meio de um aparato tecnológico.
Tempos linguísticos
A linguística identifica apenas três tempos linguísticos: presente, passado e futuro, segundo Smith (1991), Comrie (1976, 1985) e Klein (1994). Algumas obras de referência e consulta escolar, como a de Bechara (2009) e a de Cunha e Cintra (2008), já dialogam com essa visão científica da língua, ao afirmarem que os tempos verbais são três.
O tempo verbal é o mecanismo gramatical pelo qual uma língua natural marca quando os acontecimentos se dão, ou o intervalo pelo qual situações perduram. O momento ou intervalo em que uma situação está localizada na linha temporal que representa a passagem do tempo cronológico é chamado de Tempo da Situação (TS). Para localizá-lo, precisamos saber onde ele está relativamente ao Tempo da Fala (TF). O TF é o momento em que alguém diz alguma coisa e é tratado como um marco zero. Vamos exemplificar essa relação quanto ao evento histórico já mencionado aqui, a primeira vez em que um ser humano pisou na Lua, em 20 de julho de 1969. Considere que estamos falando nisso hoje (1), que Neil Armstrong falou nisso a Buzz Aldrin na véspera (2) e que os espectadores falaram nisso enquanto acompanhavam tudo pela TV (3):
(1) a. O ser humano pisou na Lua pela primeira vez (meio século atrás)!
b. TS < TF
(2) a. O ser humano vai pisar/pisará na Lua pela primeira vez (amanhã).
b. TS > TF
(3) a. (Olhem!) O ser humano está pisando/pisa na Lua pela primeira vez (agora)!
b. TS = TF
O TF de cada sentença é diferente do das outras. O TF de (1) é hoje, o TF de (2) é 19 de julho de 1969 e o TF de (3) é 20 de julho de 1969, no momento exato em que o pé de Armstrong toca o solo lunar. O evento é sempre o mesmo (pés humanos pisarem na lua pela primeira vez), mas como os TF variam, o TS é anterior ao TF em (1), o TS é posterior ao TF em (2) e o TS é concomitante (junto) com o TF em (3). É isso que expressam as linhas (b). O símbolo < significa antes, o símbolo >, depois, e o símbolo =, junto.
O passado é a relação em que o acontecimento vem antes de se falar sobre ele; o futuro é a relação em que o acontecimento será depois de se falar sobre ele; e o presente é a relação em que se fala sobre um acontecimento enquanto ele transcorre. A morfologia muda na flexão verbal para mostrar essas relações. Portanto, o tempo linguístico é relacional; ele depende da posição da situação relativamente a um marco temporal que é o momento de fala. Apesar de o TF ser diferente a cada vez, a posição da situação antes dele, depois dele ou junto dele pode ser informada pela desinência verbal.
Que sofisticada essa máquina do tempo da nossa gramática, não? E não é que a gente sabe dizer, só de ouvir uma sentença, se a situação está no passado, presente ou futuro, sem pestanejar?
Mas não é só isso. Você deve ter reparado no material entre parênteses nessas sentenças: em (1) temos “meio século atrás”, em (2) temos “amanhã” e em (3) temos “agora”. Esses diferentes adjuntos adverbiais de tempo não podem ser trocados de uma sentença para outra. “Agora” é apropriado para o tempo linguístico presente, “amanhã” para o tempo linguístico futuro e “meio século atrás” fica bem com uma situação com tempo linguístico passado. Esses advérbios marcam um tempo tópico, que é o período relevante examinado na conversa em andamento.
Se definimos o passado como uma relação binária, como está nas linhas (b) das sentenças de (1) a (3), ele vai ser uma imensidão, englobando o Big Bang, o surgimento da Via Láctea, o surgimento do Sol, o surgimento da Terra, a Era Jurássica, o aparecimento do Homo sapiens etc. etc. Com o passado incluindo tudo o que vem antes do TF, como responder a uma pergunta trivial como “Choveu?”? Uma resposta “sim” seria admitida mesmo que não tivesse chovido nada ontem nem hoje, mas tivesse chovido há um mês, dado que o passado inclui o mês anterior. Porém, se alguém respondesse “sim”, pensando numa chuva tão distante, causaria estranheza.
Normalmente, quando perguntamos “Choveu?”, mesmo sem nenhum advérbio de tempo aí, a pergunta é compreendida como “Choveu recentemente?”, “Choveu hoje?” ou “Choveu há pouco?”. Assumimos que toda conversação envolve um tempo tópico (TT); ainda que ele não se materialize em palavras, é recuperado contextualmente. Por exemplo, se alguém, saindo de um lugar fechado, faz essa pergunta olhando para o chão molhado, entendemos que ela quer saber se foi uma chuva que provocou aquele efeito; uma chuva mais anterior não deixaria a rua molhada até o momento da pergunta. O TT é um recorte do período temporal sobre o qual a conversa vai tratar.
Como vimos, as realizações de tempo tópico na sentença já são marcadas como passado, presente e futuro. Com base nisso, Klein (1994) propõe que a marca gramatical de tempo de um verbo, predicado ou sentença seja analisada pela relação entre seu tempo de tópico (TT) e seu tempo de fala (TF). Considerando que o tempo pode ser representado como uma reta, um conjunto de intervalos temporais direcionado para o futuro, a proposta de Klein pode ser representada assim para as sentenças de (1) a (3):
(4) a. O ser humano pisou na Lua pela primeira vez (meio século atrás)!

b. TT < TF & TS = TT
(5) a. O ser humano vai pisar/pisará na Lua pela primeira vez (amanhã)

b. TT > TF & TS = TT
(6) a. (Olhem!) O ser humano está pisando/pisa na Lua pela primeira vez (agora)!

b. TT = TF & TS = TT
Uma vez assumido que a situação está sempre inclusa no tempo tópico, as relações podem ser definidas assim: o tempo tópico (TT) anterior ao tempo de fala (TF) dá passado (4), o TT posterior ao TF dá futuro (5) e o TT igual (concomitante) ao TF dá presente (6).
Visto que diferentes relações de anterioridade, posterioridade e concomitância entre TT e TF resultam em tempo linguístico passado, presente e futuro, podemos entender por que não é um problema para a mente humana que uma mesma palavra sirva para expressar presente e passado. Por exemplo, sem um contexto ou um adjunto adverbial, ficamos em dúvida sobre “Gostamos da aula do Roberlei” estar no tempo presente ou no passado. Mas o contexto informado pela conversa ou a presença de um marcador de tópico na sentença resolve a dúvida depressinha: “Gostamos da aula do Roberlei ontem” é passado, e “Gostamos da aula do Roberlei sempre” é presente.
Até que ponto um paradigma de conjugação verbal é flexível para expressar outros tempos verbais, diferentes daquele que poderíamos associar ao próprio nome do paradigma? Veremos que não é uma bagunça, não há liberdade total, e sim há restrições gramaticais visíveis. Nosso estudo de caso será com o presente do indicativo.
Que tempos podem expressar o verbo conjugado no presente do indicativo?

Fernando Pessoa reflete sobre o que significa o presente.
Não é novidade que o verbo no presente do indicativo pode expressar o presente, com um TT concomitante com o TF (p. ex.: “Eu moro no Rio atualmente”). Também é evidente que, em PB, o verbo conjugado no presente nunca expressa naturalmente o passado[1], junto com um TT anterior ao TF (p. ex.: *“Eu moro no Rio ontem/ antigamente”). Mas e quanto ao futuro?
Já exemplificamos com “Eu viajo amanhã” a possibilidade de usar o verbo conjugado no presente do indicativo indicando que a situação (a viagem) ocorre no futuro. Agora sabemos que essa interpretação é esperada, se “amanhã” realiza o tempo tópico (TT), que contém (ao menos o início d)o TS, dado que o TT é posterior ao TF. Mas não são todas as sentenças com verbos conjugados no presente do indicativo que ficam bem com “amanhã”. Vejamos alguns dados:
(7) a. *Aquele prédio é muito alto amanhã.
b. *Os cachorros são carnívoros amanhã.
c. *O café está bem quente amanhã.
d. *A criança está com fome amanhã.
(8) a. João trabalha amanhã.
b. A gente assiste ao tal filme amanhã.
c. Pedro sai muito cedo de casa amanhã.
(9) a. Escrevemos esse e-mail amanhã.
b. Eles fazem o seu bolo de aniversário amanhã.
c. Vocês bebem essa garrafa de vinho amanhã.
(10) a. O trem parte amanhã.
b. Minha mãe chega amanhã.
c. Meu sobrinho nasce amanhã.
Observe-se que as sentenças (7) ficam perfeitas sem “amanhã”, e, com essa palavra eliminada, expressam o tempo linguístico presente.
Esse conjunto de dados parece apontar para uma divisão dos tipos de situações em quatro classes acionais, conforme propriedades que agrupam os sintagmas verbais (verbos e objetos), propostas por Vendler (1957; 1967): estados (7), atividades (8), accomplishments (9) e achievements (10). As situações podem ser apresentadas como uma fotografia, imagem sem movimento, que não mostra nem quando elas se iniciaram nem quando foram descontinuadas. Aquele estado de coisas perdura indefinidamente. Essa é a classe dos estados, que não apresentam a propriedade do dinamismo. Pelo nosso conhecimento de mundo, a fome começa num certo instante e termina ao ingerirmos alimento suficiente, mas ao dizer (7d) o falante apresenta a fome sem incluir nesse estado um momento em que ela ainda não existisse nem o momento em que ela se extinguiu. Já as demais classes acionais são dinâmicas, ou seja, apresentam um momento inicial, antes do qual aquela situação não estava em curso. Por exemplo, se João entra no serviço às 8h, antes dessa hora, digamos, às 6h30, ele não trabalha.
Os dados de (7) a (10) parecem mostrar um efeito claro da classe acional na boa formação de sentenças com o verbo conjugado no presente do indicativo, contendo tempo tópico futuro. Uma vez que os estados não dão certo, e as demais classes acionais sim, poderíamos concluir que a propriedade da dinamicidade é requerida para essa combinação funcionar. Mas essa seria uma conclusão apressada, pois, embora a maioria dos estados não permita a expressão de futuro com a conjugação do presente do indicativo, há algumas sentenças com predicados verbais da classe acional estado que ficam perfeitas:
(11) a. Estou em casa amanhã.
b. Amanhã a gente fica na sala depois das aulas para falar disso.
c. O Flamengo tem um jogo amanhã.
d. Temos aula amanhã.
Se os estados deram errado em (7), por que em (11) dão certo?
Observe-se que, em (7c) e (7d), trocando a conjugação no presente pela do futuro, a sentença contendo “amanhã” fica ótima (“O café estará/vai estar bem quente amanhã”; “A criança estará/vai estar com fome amanhã”). Os estados de (11) também podem ir para o futuro (“Eu vou estar em casa amanhã”), mas (7a) e (7b) não (*“Aquele prédio será/vai ser muito alto amanhã” — considerando um edifício de construção já concluída — e *“Os cachorros serão/vão ser carnívoros amanhã”).
Essa diferença divide os predicados verbais da classe acional estado em dois subgrupos: os estados passageiros, acidentais (todos aqueles em (11), mais (7c) e (7d)) e os estados permanentes, indissociáveis do indivíduo, que nomeiam propriedades dele em todos os lugares e o tempo todo ((7a) e (7b)). Os estados permanentes expressam propriedades que valem para um indivíduo por toda a sua existência, não podendo ser recortados por um tempo tópico nem começar só no futuro. Nenhum estado desse tipo fica bem no futuro. Já os estados temporários, provisórios, podem ser iniciados ou descontinuados.
Mas, como observado, embora somente os estados passageiros permitam expressão no futuro (com o verbo conjugado no futuro do indicativo, por exemplo), e os permanentes não, nem todo estado passageiro com o verbo conjugado no presente do indicativo combina com expressões de TT futuras como “amanhã”. Por quê? O que distingue as sentenças em (11) das sentenças (7c) e (7d)? Vamos responder a essa questão na próxima seção.
Futuridades: prevendo quando o presente do indicativo expressará futuro

Bridget Copley pesquisou sobre futuridades.
Fonte: Capa de Copley, B. Causal chains for futurates. In: DE BRABANTER, Philippe; KISSINE, Mikhail; SHARIFZADEH, Saghie. Future Times, Future Tenses. Oxford: Oxford University Press, 2014. pp. 72–86.
O que distingue alguns estados passageiros de outros é a propriedade do controle, que permite a previsão e a programação. Não adianta eu comandar “Sinta frio agora!”. Se a pessoa a quem me dirijo estiver com calor, ela não vai começar a ter a sensação de frio. Sensações fisiológicas como frio, calor, fome e sede, estados psicológicos como os sentimentos de medo, interesse, confiança etc. são espontâneos, não são programáveis. Os estados em (7c) e (7d) são passageiros, mas não estão sob o controle do sujeito, que não pode decidir experimentá-los amanhã. O café não pode deixar para exibir sua temperatura quente amanhã (aliás, o café, por não ser animado, talvez não possa decidir nem controlar coisa alguma, jamais), e a criança não pode escolher sentir fome só a partir de amanhã, em vez de agora.
Já os estados passageiros em (11) são programáveis, podendo ser anotados numa agenda em dia e horário a critério de alguém que está no controle. O falante de (11a) pode decidir estar em casa durante todo o dia seguinte, para receber um pacote ou uma visita; o falante de (11b) pode decidir marcar uma conversa com alguém num TT futuro; alguém com controle sobre o campeonato carioca pode decidir a data do próximo jogo do Flamengo (11c); e um professor pode tratar as aulas previstas para a porção futura do semestre como um compromisso assumido a ser cumprido, o que o impede de usar aquele horário do dia para outros fins (11d).
Esses estados temporários que podem se configurar como compromissos agendados terão um horário inicial anotável na agenda. Por exemplo, para (11d), a aula pode estar programada para começar às 7h30 e terminar às 9h10 de amanhã. Então, se pensarmos em propriedades aspectuais[2], a propriedade aspectual crucial não é a dinamicidade, mas algo que toda classe acional com o traço da dinamicidade tem e que alguns estados provisórios (mas nem todos eles) também apresentam: um momento inceptivo, ou seja, um limite temporal inicial para a situação descrita, que possibilite o agendamento: amanhã, 7h30, aula de literatura brasileira.
Apenas predicados que permitam a identificação de um momento incoativo ou inceptivo, o instante preciso do início da ação, darão certo. Podemos chamar as sentenças bem-formadas com TT futuro e verbo conjugado no presente do indicativo de “futuridades”, adaptando o termo “futurates”, que vem sendo usado para descrever sentenças do inglês no simple present que indicam situações futuras, por pesquisadores como Copley (2002, 2005, 2009, 2014). O “futurate” foi definido como a interpretação de uma situação como futura numa sentença desprovida de meios morfológicos óbvios para fazer referência ao futuro. Sentenças desse tipo carregam um sabor de planejamento ou cronograma. Uma futuridade é o anúncio no presente de um plano que se realizará no futuro. Esse plano geralmente tem um diretor, que é quem organiza a agenda.
Chama-se diretor a quem faz os planos. As habilidades e capacidades do diretor garantem que os compromissos assumidos hoje se tornem situações reais no futuro. Há também futuridades sem um diretor animado ou humano, que são decorrências do transcurso normal dos acontecimentos, se nada inesperado intervier, levando-se em conta, por exemplo, as leis da física, os costumes etc. Por exemplo, é natural dizer “O sol nasce amanhã às 6h20” porque, dados os movimentos dos astros, os horários já registrados para o nascer do sol nesta época do ano em estações anteriores etc. isso é esperado. Perceba que 6h20 marca o momento inceptivo de o astro-rei ficar visível no céu para os terráqueos. Ou seja, nossa hipótese de precisar haver um momento incoativo demarcável para que um verbo conjugado no presente do indicativo dê certo com “amanhã” se mantém para as futuridades, sejam elas de diretor ou decorrências do curso natural dos acontecimentos.
Morfologia e Semântica Temporal nas Línguas Humanas
Será um capricho do PB que verbos conjugados no presente do indicativo combinem-se com TTs futuros, mas não com TTs passados? Não. Nada na língua é por acaso.
Não somos o espelho do mundo e não podemos olhar apenas para o nosso umbigo. Há grande diversidade linguística. Há línguas em que a morfologia opõe passado e não-passado, como o Karitiana (família Arikém, tronco Tupi, falado em Rondônia) e o Mebêngôkre (família Jê, tronco Macro Jê, falado na região do Xingu, no Pará). Veja:
(12) a. Sara ∅-na-aka-t akan i-aka-t ka’abm/koot/*dibm.
Sara 3-decl-cop-nfut aldeia part-cop-adv agora/ontem/*amanhã
‘Sara está na aldeia agora.’/‘Sara esteve na aldeia ontem.’/
*‘Sara vai estar na aldeia amanhã’ (Müller; Bertucci, 2018)
b. Sara ∅-na-aka-j akan i-aka-t *ka’abm/*koot/dibm.
Sara 3- decl-cop-fut aldeia part-cop-adv *agora/*ontem/amanhã
*‘Sara está na aldeia agora.’/
*‘Sara esteve na aldeia ontem.’
‘Sara vai estar na aldeia amanhã.’(Müller; Ferreira, 2020)
Uma mesma forma verbal em Karitiana (12a) pode ser interpretada como passado ou presente, havendo apenas uma forma distinta, especializada em futuro (12b). O que em PB acontece apenas com a primeira pessoa do plural de verbos regulares (“Nós falamos com Maria ontem” (passado) e “Nós falamos com Maria todo dia” (presente)) é a regra em Karitiana. São muitas as línguas que apresentam um único morfema para presente e passado (não-futuro) e outro morfema para o futuro, como o Karitiana e o Mebêngôkre, mas, por serem minorizadas, ainda não foram suficientemente estudadas, embora estejam recebendo cada vez mais atenção. Fascinante, não?
Bem curioso também é o fato de línguas como o PB e o inglês serem analisadas como um sistema cuja oposição básica é de passado versus não-passado. A expressão do futuro nessas línguas é analisada por diversos linguistas como outra coisa (modalidade ou aspecto verbal[3]), em vez de como um tempo verbal característico.
Interessantemente, é previsto para os sistemas temporais que opõem passado a não-passado que a morfologia do presente simples (o não-passado) possa ganhar interpretações de presente ou de futuro, mas que a interpretação de passado seja impossível com ela. Essa pode ser uma explicação para aquilo que observamos neste artigo: verbos no presente do indicativo, além de presente, também podem expressar futuridades, mas jamais passado.
Saiba mais
Vídeo IV ENELP (Ensino de Língua Portuguesa) – oficina 4 – Luciana Sanchez-Mendes (UFF) e Ana Quadros Gomes (UFRJ) – Aspectos semânticos dos verbos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zanZBlE0xwU&t=1s&pp=ygUSSVYgZW5lbHAgb2ZpY2luYSA0.
Vídeo Aktionsart (Roberlei Bertucci). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=ownUS9fQtrs&t=18s&pp=ygUXcm9iZXJsZWkgYWx2ZXMgYmVydHVjY2k%3D.
Artigo BERTUCCI, Roberlei Alves. Questões semânticas sobre tempo e aspecto em português brasileiro. Cadernos do IL, n. 52, pp. 65–89, 2016.Disponível em: https://seer.ufrgs.br/cadernosdoil/article/download/67140/40055.
Artigo DE SOUZA, Érica Azevedo. (Im)perfectividade, acionalidade e ensino: usando noções da Semântica Formal na Educação Básica. Cadernos de Linguística, v. 5, n. 2, pp. e769–e769, 2024. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/download/769/941.
Capítulo de Livro MEDEIROS, A. B. A selva dos tempos verbais. In: DAMULAKIS, G. N.; MEDEIROS, A. B. (Orgs.). Nós da Linguística. 1. ed. São Paulo: Pimenta Cultural, 2023. v. 1. pp. 149–166. Disponível em: https://lefufrj.wordpress.com/2022/09/05/a-selva-dos-tempos-verbais/. Acesso em: 24 jun. 2026.
Capítulo de Livro GUEDES, Marcela Martins de Freitas. Descrição Semântica de Tempo Gramatical e Aspecto e o Ensino de Tempos Verbais. In: MULLER, Ana; PARAGUASSU-MARTINS, Nize. (Orgs.). Ensino de Gramática: Reflexões sobre a Semântica do Português Brasileiro. Campinas, SP: Contexto, 2021. pp. 99–115. Disponível em: https://anamuller.fflch.usp.br/sites/anamuller.fflch.usp.br/files/inline-files/Ensino_Gramatica%20ebook-compactado_0.pdf. Acesso em: 24 jun. 2026.
Mapa sobre como as línguas do mundo marcam tempo:The World Atlas of Language Structures (WALS)/WALS Online – Chapter Tense and Aspect. Disponível em: https://wals.info/chapter/s7. Acesso em: 24 jun. 2026.
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[1] Aqui estamos tratando de sentenças ditas sozinhas, do nada. Se alguém me pergunta: “Quando você chegou de viagem?”, posso responder “Cheguei ontem”, mas não *“Chego ontem”. É diferente com historinhas completas. Há um recurso estilístico para contar histórias descrito nos livros de gramáticas como “presente histórico”, usado para aproximar o ouvinte ou leitor dos acontecimentos narrados, fazendo-o sentir que está testemunhando o desenrolar dos acontecimentos. Para usar o presente histórico, é preciso contar uma sequência de fatos na mesma ordem em que aconteceram no passado. Ex.: “Caulaincourt espera-o no portão. Corre para Napoleão, ajuda-o a apear-se. O imperador sobe penosamente a escada…” (trecho do livro Napoleão Bonaparte, de Octave Aubry). (Caulaincourt foi um dos mais leais diplomatas, generais e conselheiros de Napoleão Bonaparte.) Mas, fora de uma narrativa, sem o contexto de uma história, como resposta direta e breve a uma pergunta, dentro de uma conversação, há estranheza. Imagine que eu, diante do primeiro degrau da Escadaria Selarón, na Lapa (RJ), digo a um amigo: “Subi tudo isso ontem”. Ele pergunta: “Foi tranquilo?”. Respondo *“Não. Eu subo penosamente a escada ontem.” Soa esquisito, não?
[2] As propriedades aspectuais são as características que promovem aquela divisão já citada dos tipos de situação em classes como estados, atividades, accomplishments e achievements, com base em Vendler. Já falamos sobre dinamismo e estatividade, duas propriedades aspectuais.
[3] Modalidade é um recurso da gramática para exprimir situações que ultrapassam o aqui e o agora, como em “Pode ter chovido enquanto estávamos na aula” ou “Talvez chova mais tarde”, que falam das chances de ter caído ou de vir a cair chuva. No caso de futuridades, os planos que fazemos podem ou não vir a se realizar. O futuro é incerto, é uma entre outras possibilidades para o desenrolar dos fatos. Por isso alguns estudiosos tratam o futuro não como um tempo ancorado no MF, mas como uma modalidade. O aspecto é o estudo da organização temporal interna de um evento, que pode ter duração, um momento inicial e um final — se eu nadei das 7h às 8h, eu nadei por 60min, comecei a nadar às 7h, às 7h30 continuei nadando e parei às 8h.
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