Thiago Nascimento de Melo (PPGLIN/UFRJ)
(Publicado em 12/12/2022)

Fonte da imagem: Rey Returns to Ahch-To, por Alfredo Rodriguez Martinez.
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Resumo: Você sabe muito mais sobre português do que pensa! Neste texto, discuto os conhecimentos que uma pessoa tem de sua língua, mostrando como dominamos um sistema de regras sintáticas complexo e bem estruturado (ou um sistema de princípios e parâmetros, como veremos). A partir disso, aproveito para falar um pouco sobre preconceito linguístico.
“Sou péssimo em português” e “Não sei nada de gramática” são frases comuns de se ouvir no dia a dia, em ambientes escolares e fora deles. Essa sensação é mais do que natural: as regras que professores insistem em nos ensinar na escola e na mídia não têm como entrar em nossas cabeças. São muitos detalhes e exceções! Quando muito, temos a percepção de que conseguimos nos virar e nos comunicar bem, e de que é isso que importa. Neste texto, quero desafiar essa noção e mostrar que sabemos muito sobre a língua que falamos. Para isso, vejamos alguns dados:
(1)
a. A construção de casas começou ontem.
b. A de casas construção começou ontem.
Não é difícil perceber que a frase em (1b) não é possível em português. No sistema de nossa língua, o complemento (nesse caso, “de casas”) deve seguir o elemento a que ele se relaciona (o substantivo “construção”), como acontece em (1a). Todo e qualquer falante nativo de português com plenas capacidades cognitivas segue essa regra. O nosso trabalho, como linguistas e curiosos da linguagem, é perguntar por quê. Precisamos levantar hipóteses sobre isso.
Uma resposta natural a esse questionamento é “não podemos falar de casas construção porque isso não faz sentido”. De fato, não faz. Mas, perceba: embora essa resposta veicule uma verdade (pelo menos no contexto da língua portuguesa), ela não explica o fenômeno. Seguindo o método científico, precisamos seguir para a próxima pergunta: por que frases assim não fazem sentido? Deve haver um motivo. Quer dizer, a falta de sentido não é a origem do problema, mas sim a consequência de alguma propriedade do sistema de regras gramaticais que temos em nossa mente.
Para refletir sobre isso, olhemos para a clássica frase do linguista Noam Chomsky, formulada na década de 1950: “Ideias verdes sem cor dormem furiosamente”. Todos concordamos que essa frase tem um sentido muito estranho. Mas você reconhece que, apesar disso, essa frase é uma frase possível de ser dita em nossa língua? E que, apesar de ter um significado estranhíssimo, que desafia nosso conhecimento de mundo, nós damos um jeito de interpretá-la? Nosso cérebro consegue processar isso. Temos a capacidade de compreender as condições para que essa frase seja verdadeira: ideias, que são abstratas, precisariam poder ter uma cor verde; ao mesmo tempo, algo com cor deveria poder ser sem cor; e, por último, ideias que fossem verdes, mas sem cor, precisariam estar dormindo de uma maneira furiosa (ainda que esse modo de dormir seja difícil de se imaginar).
Por outro lado, o significado pretendido por “A de casas construção começou ontem” pode ser considerado muito mais simples. Ainda assim, não reconhecemos essa como uma sentença possível. E os linguistas oferecem uma explicação: isso acontece porque o português é uma língua de núcleo inicial. Isso quer dizer que o substantivo “construção”, que é o núcleo do bloco formado em conjunto com “de casas”, deve vir antes. Ou seja, com a ordem invertida, o falante não identificaria que “de casas” é complemento de “construção”, o que impediria a integração sintática e semântica desses elementos, fazendo com que a frase ficasse, de fato, sem sentido.
É interessante observar que essa análise, embora aparentemente simples, possui diversas implicações no sistema da língua. Por exemplo, imagine se você tivesse instalado em seu ouvido um microdispositivo capaz de traduzir, palavra por palavra, qualquer frase para o português, mas preservando a ordem da língua original. Em uma visita ao Japão, você poderia muito bem ouvir uma frase como a seguinte:
(2)
João Maria Pedro encontrar vai se perguntado tinha.
Quase indecifrável, certo? Isso ocorre porque, ao contrário do português, o japonês é uma língua de núcleo final. Se colocássemos a mesma sentença na ordem da língua portuguesa, teríamos: “João tinha perguntado se Maria vai encontrar Pedro”. Perceba como uma regra simples, sobre a qual você tem um conhecimento inconsciente, altera as frases possíveis da língua.
Aprofundando a discussão, consideremos os exemplos a seguir:
(3)
a. O Mário disse que a Joana encontrou quem?
b. Quem o Mário disse que a Joana encontrou?
Partindo da frase em (3a), é possível pegar o pronome interrogativo “quem”, que está lá no final da sentença, e colocá-lo no início. Mas será que isso é possível sempre? Vejamos:
(4)
a. O Mário saiu quando a Joana encontrou quem?
b. Quem o Mário saiu quando a Joana encontrou?
Os procedimentos foram os mesmos realizados no caso anterior, porém, agora, geramos uma sentença muito estranha – poderíamos até dizer inaceitável. Qual é a causa disso?
Em (3), “quem” está presente em uma oração (isto é, de modo simplificado, um conjunto de palavras que se organiza em torno de um verbo) que é complemento do verbo “dizer”. Quer dizer, o verbo “dizer” pede um complemento (alguém diz algo), e esse complemento é a oração “que a Joana encontrou quem”. Assim sendo, como a palavra “quem” está contida em uma oração que é complemento, ela pode ser deslocada para o início da frase.
Por outro lado, em (4), a oração que contém o pronome “quem” é um adjunto, um modificador que acrescenta uma informação, mas que não é pedido pelo verbo “sair”. Ou seja, a sentença em que “quem” está contido não é um complemento de “sair” (o funcionamento desse verbo determina apenas que alguém sai). Por isso, o deslocamento de “quem” não é possível. Os adjuntos, portanto, são ilhas sintáticas. Como porções de terra que estão no meio do mar, são pedaços de sentenças de onde não é possível retirar elementos.
Essa propriedade foi descoberta por linguistas apenas na metade do século XX. Nós temos esse conhecimento inconsciente sobre o funcionamento da linguagem sem que ninguém nos tenha ensinado — ou você acha que seus pais, avós, tios e amigos te orientavam, dizendo “Nunca desloque um pronome interrogativo para o início de frases quando eles estiverem dentro de adjuntos”? Na realidade, talvez uma das questões mais interessantes que envolvem esse complexo fenômeno é que crianças não cometem esse erro no processo de aquisição de uma língua. Isso acontece porque as ilhas sintáticas não são uma restrição imposta pelo português, mas sim uma restrição universal, ou seja, uma restrição que existe em todas as línguas.
É uma possibilidade lógica imaginar uma língua que não respeite as ilhas sintáticas, mas essa não seria uma língua humana. Nos termos da linguística gerativa, uma das principais correntes de pesquisa cujo principal expoente é o já mencionado Chomsky, as restrições que se aplicam universalmente são chamadas de princípios. É claro, porém, que as línguas apresentam variações. Não são formadas apenas por princípios; afinal, não são todas iguais, evidentemente. Só que as variações não são livres. Nem tudo é possível. Há uma lista finita de restrições variáveis, nomeadas como parâmetros. Um exemplo já analisado é o Parâmetro da Ordem, que diferencia o ordenamento de palavras no português e no japonês.
A constatação de que as línguas variam dentro de um limite nos permite voltar para o que foi discutido no início do texto. Você pode me perguntar: “E aquelas regras da escola que não consigo entender?”. Bem, elas representam apenas um dos conjuntos de regras possíveis no português, e não todos. Analisemos mais um conjunto de dados:
(5)
a. As meninas jogaram futebol.
b. As menina jogou futebol.
O que há de intrinsecamente errado na sentença em (5b)? A resposta é um simples e ressonante nada! O par de frases acima apenas exemplifica duas possibilidades quanto à marcação de plural na língua portuguesa: ou é marcado plural em todos os elementos do sujeito “as meninas” e também no verbo (o que é conhecido como plural redundante); ou se marca o plural apenas no primeiro determinante do sujeito (nesse caso, o artigo “as”), assim como o que ocorre no francês. As duas formas são possíveis, produzidas e compreendidas pelos falantes da língua.
Diante da sentença (5b), não há dúvidas de que falamos de um número de pelo menos duas meninas. Vale ressaltar, ainda, que essas formas são aquelas possíveis, disponíveis aos falantes. Não tem como fugir disso! A língua é coercitiva na aplicação de suas regras. Isto é, aqueles que falam dessa forma seguem rigorosamente o sistema gramatical interno às suas mentes. “A menina jogaram futebol” e “A meninas jogou futebol”, essas sim são formas de realização do plural não previstas pelo sistema linguístico do português falado do Brasil. Essas duas formas são logicamente possíveis e ocorrem em outras línguas. Por exemplo, no inglês, a marcação do plural ocorre, como na segunda destas sentenças, apenas no núcleo do sujeito: “The girls played soccer”.
Portanto, não faz sentido considerar a sentença “As menina joga futebol” como desregrada. Ela tampouco é um empobrecimento da língua, como se fosse algo que a torna menos funcional ou que prejudica o raciocínio. A língua se adapta diante das mudanças. Assim ocorreu no francês, em que o plural redundante deu lugar à marcação de plural equivalente a “As menina joga futebol”. E assim ocorreu no português, diante de todas as mudanças que ocorreram na língua do latim até hoje. O que tem de especial no português presente nos manuais de gramática que o torna correto em comparação com suas outras variedades? Quem tem o poder de decidir em qual momento as mudanças da língua devem parar no tempo? Se a língua empobrece com o tempo, não deveríamos resgatar o português arcaico do século XIII? Ou então retornar para o latim? Não, nós devemos, na língua e nos demais campos, valorizar a diversidade, e não a condenar!
Então, se não há nada de errado com a frase “As menina jogou futebol”, por que muitos a consideram errada? A classe média urbana e as elites socioeconômicas, que dominam as estruturas de poder do Estado nacional e dos meios de comunicação tradicionais, impuseram a noção de que somente a forma como falam é correta, numa estratégia que confere vantagens práticas e simbólicas em diversas áreas da vida (desde a escola até o mercado de trabalho). É preciso entender, contudo, que a escolha do que é certo ou errado é totalmente arbitrária, sem nenhuma motivação científica. Na verdade, não é que não se gosta da sentença “As menina jogou futebol”; não se gosta das pessoas que falam assim.
Os fenômenos linguísticos discutidos mostram que temos conhecimentos inconscientes aprofundados sobre o sistema linguístico. A língua é, em essência, um sistema de regras (ou melhor, um sistema de princípios e parâmetros) interno à mente do falante. Não aquelas regras impostas pelos gramáticos diante de suas preferências, e sim aquelas firmadas naturalmente em nossa mente, a partir das restrições de nosso aparato biológico em conjunto com os dados linguísticos que estão à nossa volta durante a infância. O fato de você aceitar ou não as frases que analisamos mostra que você, sem saber, sabe muito sobre a língua. Assim, fica claro que não falamos de maneira aleatória, acidental, errática…, muito menos que não sabemos nada sobre a língua portuguesa. Nós seguimos um conjunto de regras bem estruturado, respeitando os limites por ele imposto. E isso é gramática!
FICHA CATALOGRÁFICA
M388ㅤMELO, Thiago Nascimento
ㅤㅤㅤO que se sabe quando se sabe uma língua? / Thiago Nascimento Melo – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2022. 1 p.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤㅤ1. Língua 2. Regras sintáticas 3. Português 4. Preconceito linguístico
ㅤㅤㅤI. Melo, Thiago Nascimento II. O que se sabe quando se sabe uma língua?
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.93
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 401.1:401.9:401.93
Saiba mais
No texto do professor Alessandro Boechat, A Biblioteca de Babel, que mostra como temos conhecimentos que nos permitem produzir um número infinito de frases a partir de um número limitado de palavras e regras.
No texto do professor Diogo Pinheiro, Linguagem não é (só) sobre comunicação, que mostra, a partir da análise de estrangeirismos, que cada palavra possui função e sentido próprios (e que o falante reconhece isso em seu uso da língua).
No texto da professora Maria Carlota Rosa, A revitalização de uma visão antiga: introduzindo a Língua-I e a Língua-E, que discute sobre a diferença entre a língua presente na mente dos falantes e aquela que é o conjunto de palavras e sentenças efetivamente enunciadas que está presente no mundo.
Na unidade 5 do livro Curso básico de linguística gerativa, do professor Eduardo Kenedy, que detalha os conceitos de princípios e parâmetros.
No texto do professor Hélio de Oliveira, Racismo e linguagem: o caso do ministro da educação que simulou a fala dos chineses, que aprofunda a discussão sobre preconceito linguístico.
No texto do professor Mário Perini, Nossa sabedoria gramatical oculta, capítulo do livro Sofrendo a gramática: ensaios sobre a linguagem que também discute nossos conhecimentos inconscientes sobre a língua.
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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