Gean Damulakis (FL/UFRJ)

Como falantes de português, conseguimos fazer julgamentos não apenas sobre o que é viável ou não em termos da formação da frase, mas também conseguimos inferir informações sobre os falantes da língua a partir da forma como eles a falam. Esses indicadores podem se referir a vários aspectos, como lexicais, morfológicos, sintáticos ou fonológicos. Alternâncias lexicais são muito recorrentes e salientes, sendo muito comum nós conseguirmos enumerar como pessoas de determinadas regiões do nosso país se referem, dependendo do dialeto, a ‘abóbora’ ou ‘jerimum’, ou mesmo a ‘aipim’, ‘macaxeira’ ou ‘mandioca’. Associamos expressões como ‘uai’, ‘bah’ e ‘oxente’ a estados e regiões (Minas, Rio Grande do Sul e Nordeste). Em relação à morfologia, conseguimos identificar como caipira o falar que usa ‘nós cantemo’ no lugar de ‘nós cantamo(s)’. Em relação à sintaxe, por exemplo, uma pessoa do Rio de Janeiro ‘pergunta algo A alguém’, ao passo que alguém de Manaus normalmente ‘pergunta algo DE alguém’. Em Recife, é comum ‘comprar algo A alguém’; no Rio de Janeiro, normalmente, ‘compra-se algo DE (ou COM) alguém’. Como falantes, não apenas reconhecemos esses indicadores, como também costumamos avaliá-los, positiva ou negativamente.
Em relação à fonologia, quando um som de uma língua é pronunciado de maneira diferente por um grupo específico e nos leva a deduzir informações sobre esses indivíduos, como a sua procedência[1], alguns linguistas dizem que esse som típico de dada língua ou dialeto é um xibolete. A origem do termo está no hebraico (shibōleth), palavra que significa ‘espiga’. No livro de Juízes (12: 5, 6), narra-se o uso dessa palavra para identificar a diferença de pronúncia entre efraimitas e gileaditas (na Judeia Antiga). Conta-se que os gileaditas, tentando impedir a fuga de efraimitas, exigiam de quem quisesse cruzar o rio Jordão que pronunciasse a palavra “shiboleth”; os efraimitas, entretanto, pronunciavam “siboleth”. Essa pronúncia custava a vida, através da degola, dos efraimitas que tentavam escapar. Dessa forma, segundo o Velho Testamento, “caíram de Efraim naquele tempo mais de quarenta e dois mil” (Juízes, 12: 6). Ainda sobre o pedido para falar determinada palavra, vejamos o meme que segue:

O meme acima se utiliza do conceito de xibolete, apesar de, nem sempre, nos darmos conta disso ao lermos. Nele, alguém (que poderia ser de São Paulo (SP) ou de Vitória (ES), por exemplo) solicita de um falante pertencente a outro grupo que fale determinada palavra (“biscoito”) com dada característica, e a pronúncia esperada é aquela falada tipicamente pelos cariocas, indicada, através de uma grafia específica da palavra com <X> – e mostrando talvez um alongamento desse som com a sequência de três letras, <XXX>. Mais precisamente, a palavra ‘biscoito’ apresenta um contexto fonológico conhecido como “s pós-vocálico”, ou seja, o “s” em final de sílaba. A letra <x> nos remete à pronúncia desse som como a consoante que inicia a palavra “xícara”; já os demais falantes da sala falam, para a mesma palavra, o som que inicia a palavra “sílaba”. Para facilitar as referências neste texto, vamos chamar o som que inicia “sílaba” de sibilante, e aquele que inicia “xícara”, de chiante. No Alfabeto Fonético Internacional (IPA, sigla em inglês), podemos usar os símbolos fonéticos [s] para a sibilante e [ʃ] para a chiante. A pronúncia desse som costuma oscilar bastante entre os falantes de português.
Felizmente, o caso estampado no meme não envolve consequências fatais, diferentemente do ocorrido no exemplo bíblico. Apesar disso, a pronúncia do personagem é avaliada negativamente pelo grupo, o que leva o personagem a se envergonhar da maneira como fala. Também diferentemente do que ocorre no exemplo entre os grupos semitas, a posição dessa divergência de pronúncia no português do Brasil (PB) não acontece no início de sílaba, mas no final. Isso significa que nenhum carioca falaria “xílaba” (para sílaba) nem um paulistano falaria “sícara” (para xícara)[2], em um caso de solicitação. Isso ocorre porque, na posição de início de sílaba, há contraste no PB, ou seja, a possibilidade de mudança de significado entre itens lexicais, apenas mudando os sons considerados: ‘[ʃ]á’ chá e ‘[s]á Sá; ‘a[s]a’ assa e ‘a[ʃ]a’ acha; ‘lan[s]a’ lança e ‘lan[ʃ]a’ lancha etc. Por outro lado, no final da sílaba, ocorre o que os linguistas chamam de neutralização, a perda da possibilidade de contrastar itens lexicais a partir da alternância desses sons: tanto ‘bi[s]coito’ quanto ‘bi[ʃ]coito’ (ou ‘pa[s]ta’ e ‘pa[ʃ]ta’) significam exatamente a mesma coisa na língua. Se o Brasil fosse composto apenas pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, as duas maiores e mais influentes cidades do país, o meme acima indicaria um xibolete mais adequadamente. Também no Sudeste, essa característica isola o Rio de Janeiro das demais capitais. Acontece que o Brasil vai (muito) além do Sudeste e o quadro no país é um pouco mais diversificado.
Sobre a distribuição dessas pronúncias no português, o linguista brasileiro Joaquim Mattoso Camara Jr. afirma que ela se constitui em “um ‘shibboleth’ entre o português do Rio de Janeiro e quase o resto todo do Brasil, bem como Portugal, e o português de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul”. Segundo o linguista, no primeiro caso, “se tem a chiante (surda ou sonora segundo a posição acima comentada [de acordo com a consoante que a segue][3])”; no segundo há “a sibilante (também surda ou sonora nas mesmas condições)” (Mattoso, 1970, p. 51-2). A pintura indicada por Mattoso está bastante simplificada, até por conta de poucas pesquisas disponíveis no momento em que ele escreveu seu livro. Pesquisas sociolinguísticas e dialetológicas desenvolvidas mais recentemente indicam um cenário mais multifacetado no Brasil.
Há elementos complicadores, como o fato de as opções para esse contexto não serem binárias. Além de [s] e [ʃ], ainda pode acontecer a aspiração, que é um tipo de som semelhante ao de <r> (e representado por [h] no IPA) em final de sílabas, como em ‘po[h]ta’ para porta, no falar nordestino, ou apagamento completo do som, ou seja: a fricativa[4] deixa de ser pronunciada. Exemplo com aspiração podemos ver em ‘me[h]mo’ para mesmo ou ‘pe[h]coço’ para pescoço; ausência de pronúncia (ou apagamento, indicado pelo símbolo de vazio, Ø) vemos em ‘trê[Ø] reais’ para três reais). A pronúncia do “s pós-vocálico” com aspiração (em ‘a[h] meninaØ’ para as meninas, por exemplo), apesar de muito associada ao falar nordestino, é frequente na fala de indivíduos de menor escolaridade no Rio de Janeiro.
Além do mais, há comportamentos distintos dependendo se a sílaba está no meio ou no final da palavra (que tipo de som segue a palavra, em frases). Para alguns dialetos, se depois do “s pós-vocálico” vem uma consoante como [t][5], a aparição de [ʃ] é favorecida, como em ‘pasta’. Um exemplo de dialeto que se comporta desse jeito poderia ser o de Natal. A chiante ocorre antes de [t], por exemplo, mas antes de [p] (como em pá) e de [k] (como o som que inicia cá), ocorre a sibilante, assim: [kaspa] para caspa, [kaska] para casca, mas [kaʃta] para casta. Para um dialeto com esse comportamento, uma palavra como “resposta” apresenta os dois sons, um caso em que a sibilante ocorre antes de [p] e a chiante antes de [t]. Assim, considerando o comportamento do “s pós-vocálico” e ignorando o apagamento e a ocorrência da aspirada [h], podemos ter três tipos básicos de dialetos: um dialeto sibilante (como em São Paulo: ‘re[s]po[s]ta’), um dialeto chiante (como no Rio: ‘re[ʃ]po[ʃ]ta’) e um dialeto misto (como em Natal: ‘re[s]po[ʃ]ta’).
Considerando as capitais brasileiras, estudos mostram que a realização de [ʃ] é, de fato, muito maior no Rio de Janeiro (mais de 90% das ocorrências). Entretanto, essa tendência é acompanhada de perto por outras capitais fora do Sudeste, como Belém (mais de 80%), Florianópolis e Macapá (ambas com mais de 70%), por exemplo. Segundo Mota (2012), a partir de inquéritos do Projeto ALiB (Atlas Linguístico do Brasil), a realização de [ʃ] em final de sílaba é mais comum em oito capitais: além das quatro citadas anteriormente, temos Recife, Manaus, Cuiabá e Salvador, nessa ordem.
Xiboletes não são usados apenas para indicar a alteridade, ou seja, a fala do outro. Analogamente, xiboletes podem também servir a um grupo como traço de autoidentificação. Dessa forma, certos sons podem ser assumidos pelos próprios falantes como componentes da sua identidade e da vinculação a certo grupo. A revista do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ, por exemplo, chama-se ‘Linguíʃtica’, com a adoção do símbolo fonético [ʃ] na logo do nome (veja a seguir), como tipicamente pronunciada pelos falantes do Rio de Janeiro, local onde está localizada a universidade.

Na mesma linha, vejamos essa pichação, encontrada na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, na qual a palavra ‘paz’ é grafada na tentativa de reproduzir a pronúncia no dialeto carioca:

Outro exemplo está estampado na caneca a seguir para ‘é nós’ (entre outras expressões consideradas tipicamente cariocas):

Tanto em ‘paz’ quanto em ‘nós’, além da ocorrência da chiante, os escreventes chamam a atenção, com <i> antes do <x>, para outra característica da fala do Rio de Janeiro nesse contexto: a ditongação, ou seja, a aparição de uma aproximante (uma semivogal) antes da chiante, mais comum ainda em sílabas tônicas na margem direita da palavra, como em ‘nós’ e em ‘paz’ (ou ‘cartaz’). Nessas grafias, diferentemente do que aconteceu no meme com ‘biscoito’ acima, há uma tentativa de valorização da pronúncia típica do dialeto ao qual se refere, muito provavelmente pelos próprios falantes.
Note-se que a nossa ortografia tende a encobrir xiboletes. Uma das funções da ortografia é justamente esta: a de padronizar as grafias, omitindo possíveis diferenças interdialetais. Para contornar os encobrimentos de diferenças trazidos pela ortografia, os linguistas se utilizam da transcrição fonética. Nessa tarefa, eles costumam usar, como explicamos, os símbolos fonéticos, normalmente os do IPA – como no uso de [ʃ] na logo da revista Linguíʃtica. O mesmo efeito da transcrição fonética, entretanto, também pode ser atingido quando falantes/escreventes têm a intenção de indicar a diferença entre a sua fala e a de outra(s) pessoa(s), como acontece nas figuras acima. Nesse caso, os escreventes usam criativamente a escrita, rompendo com o padrão imposto pela ortografia oficial para tentar reproduzir mais fielmente essas diferenças: ‘bixcoito’ (ou ‘bixxxcoito’) para biscoito, ‘paix’ para paz, ‘noix’ para nós etc.
Embora a origem do termo e os exemplos do português acima envolvam as fricativas [s] e [ʃ], xiboletes não se referem apenas a esses sons, nem mesmo apenas servem para identificar variedades (ou dialetos) da mesma língua. O famoso r caipira pode ser indicativo de falantes de determinadas regiões do Brasil e não se trata de uma fricativa (mas de um som retroflexo, para o qual a ponta da língua se volta um pouco para trás). Característico desse dialeto é não apenas a existência desse som em final de sílaba, como também a neutralização existente entre ele e o fonema /l/ no mesmo contexto, de forma que palavras que em outros dialetos soam diferentes (digamos, ‘mal’ e ‘mar’ ou ‘filme’ e ‘firme’) podem ter a mesma pronúncia nesse dialeto. Isso fica latente em algumas piadas e anedotas, como a seguinte:

Da mesma forma, há quem defenda que vogais nasais, por exemplo, são xiboletes do português em relação a outras línguas que possuem apenas vogais orais, como o espanhol, por exemplo. Ao aprenderem o português, alguns estrangeiros nem sempre conseguem pronunciar facilmente a nasalidade em palavras como ‘canto’ ou ‘pão’. Dessa forma, estrangeiros falando português podem ser identificados como tal ao pronunciarem certas palavras sem a típica nasalidade nas vogais, diferentemente do falante nativo. Além disso, falantes de espanhol como língua nativa apresentam, ao tentarem falar português, dificuldade de produção de vogais médias-baixas (como as de ‘pé’ e de ‘pó’). Palavras como essas, pronunciadas por essas pessoas, acabam soando para falantes de português como ‘pê’ e ‘pô’, o que pode indicar, para o ouvido nativo, pronúncia de falante estrangeiro. O chinês é uma língua sem o som de <r> como em ‘coroa’, mas tem o ‘l’, que é muito parecido linguisticamente. Como o português dispõe dos dois sons, não é por outro motivo que piadas com chineses envolvem, frequentemente, a troca de ‘r’ por ‘l’, como em ‘flango flito’ para frango frito.
Dessa forma, podemos dizer que saber uma língua envolve a percepção de xiboletes. Dito de outra maneira: entre os conhecimentos que temos sobre a língua, está o reconhecimento das formas como falantes do nosso e de outros dialetos (mas também de outras classes sociais ou idades etc.), assim como estrangeiros, falam a nossa língua.
Saiba mais
NASCIMENTO, Enock. Não erre o xibolete! Amazonas Atual, Manaus, 17/08/2017. Disponível em: https://amazonasatual.com.br/nao-erre-o-xibolete/.
CAMARA Jr, Joaquim Mattoso. Estrutura da Língua Portuguesa. Editora Vozes: Petrópolis, 1970.
MOTA, Jacyra. /S/ em coda silábica no corpus do projeto ALiB: aspectos sociolinguísticos e históricos. In: CUNHA, M. L; ANDRADE, V. O; RAUBER, A. L. (Orgs.). II Congresso internacional de linguística histórica – Homenagem a Ataliba Teixeira de Castilho. Anais. São Paulo: USP, 2012.
PESSOA, Maria Angélica. O s pós-vocálico na fala de Natal. I Simpósio sobre a Diversidade Linguística no Brasil. Salvador: UFBA, 1986.
[1] Formas linguísticas podem também nos levar a deduzir outras informações sobre seus usuários, como escolaridade, gênero, idade etc.
[2] Oscilações entre a sibilante e a chiante em início de sílaba podem ocorrer em alguns poucos itens lexicais, como em ‘[s]al[s]icha’, ‘[s]al[ʃ]icha’ e ‘[ʃ]al[ʃ]icha’, entre as surdas (ver abaixo), e ‘re[z]istro e ‘re[ʒ]istro’, entre as sonoras.
[3] Para produzir sons sonoros (ou vozeados), as pregas vocais vibram, diferentemente do que ocorre com sons surdos (ou desvozeados). A contraparte sonora (ou vozeada) de [s] é [z], como em Zé; a contraparte de [ʃ] é [ʒ], como em já. As consoantes [z] e [ʒ] são fortemente determinadas pelo vozeamento da consoante seguinte (veja a palavra ‘asma’, pronunciada como a[z]ma ou a[ʒ]ma), por isso deixamos esses sons fora deste texto.
[4] Fricativas são sons que produzimos com restrição da passagem do ar, de forma que esse passa com dificuldade, provocando fricção (como [f, v, s, z, ʒ, ʃ]).
[5] Em Natal, todas as consoantes alveolares (articuladas com a ponta da língua logo atrás dos dentes incisivos superiores [t, d, n, l]) favorecem a ocorrência de [ʃ] (ou [ʒ]) quando seguem o “s pós-vocálico”.
Contato:
Gean Damulakis (FL/UFRJ) – damulakis@letras.ufrj.br
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].
FICHA CATALOGRÁFICA
D299 Damulakis, Gean
Xiboletes no (e do) português / Gean Damalukis – Rio de Janeiro:
NÓS DA LINGUÍSTICA, 2022, 1 p.
ISSN:
1.Xibolete 2.Variação Linguística 3.Fonologia 4.Dialeto 5.Sociolinguística
I. Gean Damalukis II. Xiboletes no (e do) português

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