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Como a língua que falamos nos livra da culpa

O texto discute como a construção da voz média na língua portuguesa permite que falantes evitem a responsabilidade por ações, apresentando eventos como se ocorressem de maneira autônoma. Essa construção linguística influencia a percepção de culpa e altera a lembrança de eventos, destacando a importância da escolha das palavras na negociação de responsabilidades.

Claudete Lima (UFC)

Como as frases que usamos podem esconder a culpa, reconstruir a realidade e reescrever a memória.

Fonte: Notebook LM

Resumo: Será que a língua nos dá meios de tirar o corpo fora quando alguma coisa dá errado? Enquanto a escola nos ensina as regras básicas de quem faz e de quem sofre a ação, existe uma construção em português que é usada exatamente para escapar da responsabilidade. Trata-se da voz média, uma escolha que altera a forma como costumamos descrever a realidade. Quando dizemos “o arquivo sumiu”, estamos construindo a cena de tal modo que o evento é tido como obra do acaso, como falha técnica, ou qualquer outra coisa, menos nossa imprudência em apagar inadvertidamente o arquivo. Neste texto, falamos de como a construção média atua, transformando falhas humanas em eventos “espontâneos” e moldando a maneira como negociamos a culpa no dia a dia. Afinal, nem tudo o que acontece é por acaso, mas a língua pode fazer parecer que sim.


Imagine um acidente: você está tentando equilibrar o celular e um copo d’água, quando, num dado movimento, o copo cai e se quebra. Alguém corre até você e pergunta: “o que houve?”. A resposta mais provável é que você diga: “o copo quebrou”. Não é exatamente uma desculpa esfarrapada (às vezes é!). É um recurso linguístico do português e de outras línguas para expressar eventos sem controle ou apresentados como tais. É uma forma linguística de se livrar da culpa.

Na escola, aprende-se a voz ativa e a passiva. Aqueles velhos exercícios de converter uma na outra: o menino quebrou o copo > o copo foi quebrado pelo menino. A voz média, a verdadeira mestre do disfarce, é deixada de lado. Diferente da passiva, que serve para “borrar” o culpado, ou da ativa, que aponta para o culpado, a média serve para expressar um evento autônomo. É como se o processo acontecesse sozinho, sem ninguém provocando, derrubando, puxando. O foco sai totalmente de quem provocou a mudança e destaca quem sofreu a mudança, ou seja, a coisa ou pessoa afetada. No exemplo do copo, é como se não tivesse sido a inabilidade da pessoa que a fez deixar o copo cair. O copo caiu sozinho e quebrou.

Essas três formas de construir um dado acontecimento são formas diferentes de retratar uma mesma cena. Tomemos como exemplo a cena de um jogo de sinuca. Na voz ativa, focamos em um jogador tacando a bola. Na passiva, a câmera muda de perspectiva e se posiciona atrás da bola, focalizando-a sendo tocada pelo jogador, que pode aparecer completo na imagem ou ser sugerido pelo taco tocando a bola. Na voz média, a câmera dá um zoom apenas na bola rolando solta e caindo na caçapa. O evento é apresentado como se fosse causado por uma força interna do próprio objeto ou pelas circunstâncias, não por uma pessoa. Assim, quando dizemos “O arroz queimou”, em vez de “Eu queimei o arroz”, estamos linguisticamente apagando nossa responsabilidade pelo evento. Nesse caso, o arroz não queimou porque esqueci o fogo ligado, queimou porque é da natureza do arroz queimar se deixado no fogo.

As faces da “inocência” em português

Há outras formas de não expressar o agente, o verdadeiro culpado, mas existe uma diferença marcante entre as outras formas e a voz média. Por exemplo, se eu não conheço a causa ou o agente, posso usar estruturas de indeterminação, como na frase de um perfil do Instagram: “Arrombaram um carro agora; o veículo teve o vidro quebrado no Centro da cidade” (Vasconcelos News, 2026). Ou mesmo uma estrutura passiva, como nessa frase de um texto do Jus Brasil: “É isso mesmo, se seu veículo foi arrombado e/ou danificado no interior do estabelecimento eles são responsáveis e devem reparar o dano” (Jesus, 2026).

A passiva também pode ser usada quando a identidade do agente é conhecida, mas é irrelevante ou facilmente deduzível do contexto. É o caso dessa manchete: “Mulher é encontrada em mata no Ceará após fugir de agressor e passar três dias desaparecida” (Mourato, 2026). Nela, não importa quem encontrou a mulher, o que só é informado no corpo do texto.

Tais estruturas, ainda que possam ser usadas para desfocar o agente ou a causa, são diferentes da voz média, porque mantêm a leitura de um agente pressuposto, mesmo que não seja codificado linguisticamente. Assim, nas frases apresentadas, supõe-se haver um ou mais de um humano que arrombou o carro e que encontrou a mulher desaparecida. Quando se usa uma estrutura medial, o efeito de sentido é diferente: dá-se o evento como tendo ocorrido espontaneamente, ainda que tenha alguma causa ou até mesmo um agente, como no exemplo de um portal de notícias português: “Uma viatura incendiou-se esta madrugada, na Estrada do Livramento, no Funchal, tendo ficado totalmente consumida pelas chamas” (Paiva, 2026).

Por que isso importa no dia a dia?

Você pode estar pensando: “Ok, mas isso é só gramática”. Na verdade, é mais que isso. A escolha entre dizer “Eu apaguei o arquivo sem querer” e “O arquivo sumiu” muda completamente a negociação de culpa e responsabilidade. No primeiro caso, admito minha responsabilidade, ainda que possa ter sido sem querer, por acidente. No segundo, foi obra do acaso, de alguma falha tecnológica, nunca de quem operava a máquina.

Esse “apagamento” do responsável pelo evento é tão poderoso que parece alterar até nossa memória. É o que mostra um artigo publicado em 2010, na Psychonomic Bulletin & Review (Who dunnit? Cross-linguistic differences in eye-witness memory). Caitlin M. Fausey e Lera Boroditsky (2011) concluem, do experimento, que falantes do inglês, os quais tendem a usar frases agentivas mesmo diante de acidentes, lembram muito melhor de quem causou acidentes do que falantes do espanhol, língua que, como o português, tende a usar a voz média para expressar eventos não intencionais.

Da próxima vez que você ouvir alguém dizer “a cortina rasgou”, ou “o prato quebrou”, lembre-se: não é apenas uma descrição de fatos. É uma escolha cognitiva. O falante escolheu (provavelmente sem saber) a voz média para apresentar o mundo como um lugar onde coisas acontecem autonomamente. Afinal, viver num mundo onde tudo é nossa culpa seria bem cansativo, né? Às vezes é reconfortante deixar a língua assumir o controle e dizer: “É, acontece. As coisas quebram porque é da natureza das coisas quebrar”.

Saiba mais

FAUSEY, C. M.; Boroditsky, L. Who dunnit? Cross-linguistic differences in eye-witness memory. Psychon Bull Rev., 2011, n. 18, v. 1, pp. 150–157, 18 fev. 2011. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.3758/s13423-010-0021-5. Acesso em: 12 mar. 2026.

LIMA, Maria Claudete. A voz média como estratégia de isenção de responsabilidade. Revista do GELNE, [S. l.], v. 23, n. 2, pp. 146–159, 2021. DOI: 10.21680/1517-7874.2021v23n2ID24019. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/gelne/article/view/24019. Acesso em: 11 mar. 2026

LIMA, Maria Claudete. Tipologia de construções mediais em português: uma proposta cognitivo-funcional. Soletras, n. 41, pp. 43–66. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/soletras/article/view/56164/36701. Acesso em: 11 mar. 2026.

Referências

FAUSEY, C. M.; Boroditsky, L. Who dunnit? Cross-linguistic differences in eye-witness memory. Psychon Bull Rev., 2011, n. 18, v. 1, pp. 150–157, 18 fev. 2011. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.3758/s13423-010-0021-5. Acesso em: 12 mar. 2026.

VASCONCELOS NEWS. Arrombaram um carro agora. Instagram. 9/1/26. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DTTDXh6kZmQ/. Acesso em: 12 mar. 2026.

JESUS, Stephany Justus. O que fazer quando meu carro for arrombado ou danificado no Estacionamento? Jus Brasil. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/o-que-fazer-quando-meu-carro-for-arrombado-ou-danificado-no-estacionamento/1150178424. Acesso em: 12 mar. 2026.

MOURATO, Claudiana. Mulher é encontrada em mata no Ceará após fugir de agressor e passar três dias desaparecida. G1 Ceará. 14/02/26. Disponível em:https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/02/14/mulher-e-encontrada-em-mata-no-ceara-apos-fugir-de-agressor-e-passar-tres-dias-desaparecida.ghtml. Acesso em: 12 mar. 2026.

PAIVA, Inês. Incêndio em viatura no Livramento provoca um ferido. Sapo. 15/02/26. Disponível em: https://sapo.pt/artigo/incendio-em-viatura-no-livramento-provoca-um-ferido-6991af546245c35514370605. Acesso em: 12 mar. 2026.


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