“Francamente, o Pedro falou a resposta” vs. “O Pedro falou a resposta francamente” – Será que Pedro estava mentindo?

O texto analisa como o advérbio “francamente” altera seu significado conforme a posição na frase. Em “Francamente, o Pedro já falou a resposta”, indica uma declaração, enquanto “O Pedro falou a resposta francamente” refere-se ao modo de falar. Essas variações refletem complexidades semânticas e sintáticas na linguagem.

Matheus Gomes Alves – UFRJ/CNPq/UCB

Uma pessoa disse: "Pedro já falou a resposta, mas não fez isso francamente".

Resumo: Este texto investiga como o advérbio  francamente  pode expressar significados distintos a depender de sua posição na frase. Em “Francamente, o Pedro já falou a resposta”, o termo atua sobre o ato de fala, indicando que a sentença é uma declaração. Já em “O Pedro falou a resposta francamente”, descreve-se o modo como a ação foi realizada — de maneira franca. A partir dos pressupostos da cartografia sintática (Cinque, 1999), mostra-se que essas duas leituras decorrem de posições diferentes na estrutura da oração e de propriedades semânticas específicas. Ao revelar como nossa mente distingue automaticamente essas sutilezas, evidencia-se a complexidade invisível que organiza nosso conhecimento linguístico.


Imagine a seguinte situação: em uma universidade, Pedro, conhecido por ser um aluno exemplar, ao ouvir a pergunta de seu professor, levanta a sua mão e deseja respondê-la. Rapidamente, elabora uma resposta direta e bem fundamentada para seu professor. Ao ouvir a resposta de Pedro, o professor, contudo, não se dá por satisfeito e continua a questionar os outros alunos da turma. Até que se ouve: “Francamente, o Pedro já falou a resposta”. Em pronta réplica, o professor diz: “O Pedro já falou a resposta, mas não fez isso francamente”. Os alunos, confusos, entreolham-se e se questionam: “Por que optamos por estudar Letras?”   

Em “Francamente, o Pedro já falou a resposta”, existe um evento de “falar” do qual “o Pedro” praticou a ação, e “a resposta” foi criada pela ação de falar, que ocorreu em um momento anterior ao presente. Por meio de “francamente”, quem fala essa frase apresenta a força ilocucional da sentença, isto é, se esta é uma declaração (uma afirmação), uma exclamação etc.

Essa interpretação declarativa, ou, como é conhecida, de ato de fala, pode ser evidenciada por meio de dois testes básicos: 1) o Teste do Cancelamento e 2) o Teste da Coocorrência. Em relação ao primeiro teste, tenta-se cancelar tal interpretação por meio de uma oração coordenada (cf. (1)). Em relação ao segundo teste, inserem-se palavras de semelhante categoria de “Francamente”, como “Sinceramente” e “Honestamente”, para ocorrerem com “Francamente” na mesma posição, ou seja, no início da frase (cf. (2)).

(1) # Francamente, o Pedro já falou a resposta, mas eu não declaro que ele já falou a resposta.

(2) * Francamente sinceramente o Pedro já falou a resposta.

Em (1), o advérbio ‘francamente’ faz com que a oração na sequência seja interpretada como uma declaração do falante, e não é possível coordenar com essa oração uma que negue a declaração do falante, sem produzir uma frase contraditória ou inconsistente em seu significado (por isso o #). Digamos, então, que o advérbio ‘francamente’ carrega um traço, uma propriedade: o traço declarativo.

Em (2), ao se inserir “sinceramente” de forma adjacente a “francamente”, constrói-se uma sentença agramatical, isto é, impossível (por isso o *). Inicialmente, seria possível considerar que o problema aqui é um produto mais da adjacência desses termos do que propriamente de suas interpretações. Contudo, conforme aponta Costa (2004), este não parece ser simplesmente o caso. Na verdade, verifica-se que “sinceramente” é um item que carrega em si a mesma especificação do traço declarativo que “francamente” carrega (Cinque, 1999). A partir daí, observa-se que itens de uma mesma categoria não podem ocorrer juntos na frase (cf. Jackendoff, 1972). Sendo assim, por “francamente” e “sinceramente” serem itens de uma mesma categoria, que são caracterizados pelo mesmo traço, estes não podem ocorrer juntos na frase. Assegura-se, assim, que tal leitura de declaração se evidencia nesta posição.

Além disso, outra evidência de que “francamente” expressa uma declaração ou afirmação se apresenta no fato de que tal advérbio é inaceitável em sentenças jussivas (ou imperativas) (“*Francamente, coma o bolo”) e interrogativas (“*Francamente o Pedro comeu o bolo?). Neste último caso, a interpretação de ato de fala não é compatível com tais sentenças.

Em contrapartida, em “O Pedro falou a resposta francamente”, esse mesmo evento de “falar a resposta” é apresentado de forma um tanto diferente. Nessa sentença, há uma leitura de modo ou maneira, em que a ação de falar, realizada por Pedro, ocorreu de maneira franca. Essa leitura também pode ser evidenciada a partir de dois testes já descritos, conforme se observa nas sentenças abaixo:

(3) # O Pedro falou a resposta francamente, mas não fez isso de modo franco.

(4) * O Pedro falou a resposta francamente de modo franco.

Em (3), o modo veiculado por ‘francamente’ não pode ser cancelado por uma estrutura coordenada em uma mesma sentença sem gerar uma contradição. Observa-se, assim, que não só há a veiculação de uma interpretação de modo, como também esta é fruto de operações sintáticas e semânticas (como veremos a seguir).

Em (4), ao se inserir “de modo franco” de forma adjacente a “francamente” constrói-se uma frase que não é gramaticalmente aceitável, haja vista que ambos competem pela modificação do evento de “falar”. Dessa afirmação, não decorre que outros modificadores não possam ser inseridos; decorre, apenas, que tais expressões adverbiais ou advérbios devem modificar outros termos (não, como no exemplo, o mesmo predicado) ou devem ter propriedades distintas. Na verdade, seria possível até substituir “francamente” por “de modo franco” sem qualquer modificação no significado da sentença. Se é verdade que “O Pedro falou a resposta francamente”, automaticamente é verdade que “O Pedro falou a resposta de modo franco”. Além disso, se é verdade que “O Pedro falou a resposta de modo franco”, também é automaticamente verdadeiro que “O Pedro falou a resposta francamente”. Por meio dessa relação biunívoca de condições de verdade, seria possível dizer que tais sentenças são, na verdade, paráfrases, ou seja, são diferentes formas de veicular o mesmo significado.

Perceba que as duas interpretações de que falamos nos parágrafos precedentes não se confundem: uma coisa é informar que o que será dito é uma declaração, outra coisa é dizer que uma ação ocorreu de maneira ou de modo franco. Na verdade, tal diferença fica ainda mais evidente quando se analisa uma sentença como “Francamente, o Pedro falou a resposta francamente”, em que tanto se caracteriza que o evento de “Pedro falar a resposta francamente” é uma declaração quanto se caracteriza que tal evento ocorreu de maneira franca. O fato de “francamente” poder ser replicado em posições distintas sem gerar uma sentença inaceitável nos aponta para uma possível análise: esses dois “francamente” têm, na verdade, propriedades distintas de significado.

Mas, possivelmente, o leitor que chegou até aqui esteja se perguntando: “E daí? O que isso significa? Eu quero saber se o Pedro estava mentindo ou não”. Ao que tudo indica, a resposta de nosso professor — “O Pedro já falou a resposta, mas não fez isso francamente” — pode ser compreendida como uma quase acusação de que o Pedro não falou a resposta de forma franca, o que interpretamos como uma mentira. Porém, como conseguimos chegar a essa conclusão? Note que não houve grandes dificuldades para diferenciar a interpretação das diferenças entre “Francamente, o Pedro falou a resposta” e “O Pedro falou a resposta francamente”. Tal relativa capacidade de identificar interpretações diferentes em sentenças com as mesmas palavras, só que em posições distintas, é um subproduto direto de nossa Faculdade da Linguagem, caracterizada por uma cognição inata, isto é, dada biologicamente, dotada de princípios linguísticos que combinam palavras em sentenças. Como, contudo, nosso conhecimento linguístico nos diz quando e onde inserir o “francamente” que veicula força ilocucional (especificamente, no caso, uma declaração) e o “francamente” que veicula modo ou maneira?

Em Chomsky (1986), propõe-se o Princípio da Modificação, segundo o qual um modificador (advérbio, por exemplo) deve ter uma relação direta com o termo que modifica. Com isso, evidencia-se que, enquanto o “francamente” declarativo, relacionado ao ato de fala, parece se relacionar com todo o conteúdo da oração, o “francamente” de modo parece se relacionar diretamente com o evento descrito, no nosso caso, o evento de “falar”.

Em face dessa assimetria e da relação entre advérbios e traços funcionais, Cinque (1999, 2006, 2023) concebe que seria um primitivo de nossa Faculdade da Linguagem um conjunto rigidamente ordenado de traços (ou propriedades) na sentença, conhecido como Hierarquia Universal. Nesta hierarquia de advérbios, itens como o “francamente” e o “sinceramente” são relacionados a determinados traços ou propriedades. Em tal hierarquia, o “>” significa precedência na oração, levando a um ordenamento prototípico dos advérbios numa sentença, da “esquerda” para “a direita”.

(5) [francamente Modo Ato de fala > [surpreendentemente Modo Mirativo > [felizmente Modo Avaliativo > [evidentemente Modo Evidencial > [provavelmente Modalidade Epistêmica > [uma vez T Passado > [então T Futuro > [talvez Modo Irrealis > [necessariamente Modalidade Necessidade > [possivelmente Modalidade Possibilidade > [normalmente Asp Habitual > [finalmente Asp Tardivo > [tendencialmente Asp Predisposicional > [novamente Asp Repetitivo(I) > [frequentemente Asp Frequentativo(I) > [de/com gosto Modalidade Volitiva > [rapidamente Asp Acelerativo(I) > [já T Anterior > [não … mais Asp Terminativo > [ainda Asp Continuativo > [sempre Asp Contínuo > [apenas Asp Retrospectivo > [(dentro) em breve Asp Aproximativo > [brevemente Asp Durativo > [(caracteristicamente) AspGenérico/Progressivo [quase Asp Prospectivo > [repentinamente Asp Incoativo(I) > [obrigatoriamente Modalidade Obrigação > [à toa Asp Frustrativo > [(?) Asp Conativo > [completamente Asp SingCompletivo(I) > [tudo Asp PlurCompletivo > [bem Voz > [cedo Asp Acelerativo(II) > [do nada Asp Incoativo(II) > [novamente Asp Repetitivo(II) > [frequentemente AspFrequentativo(II) > … 1

Haveria, assim, no conhecimento linguístico de todo falante, tal hierarquia, sendo, por definição, universal a todas as línguas. Para a nossa discussão acerca do comportamento e das leituras de “francamente”, dois traços se evidenciam como importados, o de ato de fala, relacionado a Modo Ato de Fala, e o modo, relacionado à Voz. Portanto, as duas leituras do advérbio “francamente” na sentença são um produto de duas posições distintas de inserção na frase, uma mais à esquerda, a de ato de fala, e outra mais à direita, a de modo.

Note que tal diferença nessas leituras parece se relacionar também com a maneira pela qual são organizados os itens na oração. Em “Francamente, o Pedro falou a resposta” e “O Pedro falou a resposta francamente”, de forma geral, seria possível organizar os itens que compõem tais sentenças de pelo menos 720 formas (6!). Por conta dos princípios que compõem a nossa Faculdade da Linguagem, dentre eles o Princípio da Modificação e a Hierarquia Universal, organizamos tais itens em um número bem menor de combinações. Então, se as diferentes leituras das sentenças sob análise são um produto de tais princípios e primitivos de nossa Faculdade da Linguagem, e se existe um “francamente” de Modo Ato de Fala e outro “francamente” de Voz — que tradicionalmente indica “modo” ou “maneira” —, como que sabemos onde e quando os inserir na oração?

No Léxico, nosso dicionário “mental”, ou repositório de palavras a serem organizadas pela sintaxe, o vocábulo “francamente” seria representado por duas entradas, como se fosse em um dicionário. Em uma entrada, haveria as seguintes especificações: 1) “francamente” é um advérbio, 2) “francamente” carrega o traço declarativo e 3) “francamente” deve ser inserido na posição de Modo Ato de Fala. Na outra entrada, haveria as seguintes especificações: 1) “francamente” é um advérbio, 2) “francamente” carrega o traço de modo e 3) “francamente” deve ser inserido na posição de Voz. Perceba que, embora haja pontos em comum, como a organização dos fonemas que compõem “francamente” e sua classe gramatical, claramente há pontos distintos, como o seu traço e sua posição na sintaxe e, consequentemente, na ordem das palavras na frase. Há, assim, duas palavras homônimas, que carregam consigo traços distintos. Sabemos onde e quando inserir “francamente” na oração por conta das propriedades que integram sua entrada lexical.

Nossa Faculdade da Linguagem é um grande computador, capaz de combinar itens de input — aquilo que ouvimos (e lemos) — em um output — aquilo que falamos (e escrevemos). No Léxico, em que se localizam as unidades manipuladas pela sintaxe, já é “etiquetado” que um “francamente” deve ser inserido em uma posição por carregar determinado traço e outro “francamente” deve ser inserido em outra posição. Portanto, o “francamente” declarativo é inserido na posição de especificador de Modo Ato de Fala, o que, por conta da sua posição de inserção na sintaxe, produz a ordem linear “Francamente o Pedro falou a resposta”. O “francamente” de modo, por seu turno, é inserido na posição de especificador de Voz, o que, por conta de sua posição de inserção na sintaxe, produz a ordem linear “O Pedro falou a resposta francamente”.


Referências bibliográficas

CHOMSKY, N. Barriers. Cambridge, MA: MIT press, 1986.

CINQUE, G. Adverbs and Functional Heads: A Cross-Linguistic Perspective. 1. ed. New York: Oxford University Press, 1999. 288 p.

CINQUE, G. Restructuring and functional structure. Structures and beyond: The cartography of syntactic structures, v. 3, pp. 132–191, 2004.

CINQUE, G. Restructuring and Functional Heads: The Cartography of Syntactic Structures. V. 4. New York: Oxford University Press, 2006. 232 p.

CINQUE, G. On linearization: Toward a restrictive theory. Cambridge, MA: MIT Press, 2023.

COSTA, J. A multifactorial approach to adverb placement: assumptions, facts, and problems. Lingua, v. 114, n. 6, pp. 711–53, 2004. DOI: https://doi.org/10.1016/S0024-3841(03)00049-4.

FORERO PATAQUIVA, F. P. Valência verbal e tempo verbal no espanhol colombiano: uma análise cartográfica da subida do verbo. Caderno De Squibs: Temas Em Estudos Formais Da Linguagem, v. 5, n. 2, pp. 28–38, 2019.

JACKENDOFF, R. Semantic Interpretation in Generative Grammar. Cambridge, MA: MIT Press, 1972.

KAYNE, R. S. Overt vs. covert movements. Syntax 1, n. 2, pp. 128–91, 1998.

KAYNE, R. S. Movement and Silence. Oxford: Oxford University Press, 2005.


  1.  Versão adaptada de Forero Pataquina (2020, p. 30). ↩︎

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FICHA CATALOGRÁFICA

A48f ㅤALVES, Matheus Gomes

ㅤㅤ­­ㅤ“Francamente, o Pedro falou a resposta” vs. “O Pedro falou a resposta francamente” – Será que Pedro estava mentindo? / Matheus Gomes Alves – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025.

ISSN: 3086-2086

ㅤㅤㅤ1. Complexidade semântica  2. Linguagem
ㅤㅤㅤl. Alves, Matheus Gomes ll. título

ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.43
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 81’37


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