Lays Magalhães – UFRJ
Gean Damulakis – UFRJ

Resumo: Você já se pegou falando algo do tipo “esse foi o assunto que eu falei sobre”? Ou “minha amiga é uma pessoa que eu não vivo sem”. E essas frases soam naturais para você? Mas “a decisão que ele concordou com” parece estranha ou menos natural? Pois bem! Você está diante de exemplos de frases com preposições abandonadas no português brasileiro, um fenômeno bem recente nessa língua. A aparição delas mexe em outras estruturas da língua, como as orações relativas (também conhecidas como subordinadas adjetivas) e interrogativas — onde preposições às vezes se comportam como adolescentes rebeldes: saem de onde estão sem avisar ou ficam emburradas sem querer sair do lugar. E a forma como as preposições são usadas em sentenças relativas parece estar passando por mudanças no português brasileiro. Vamos explorar aqui esse abandono e as diferentes maneiras de construir subordinadas adjetivas, considerando as preposições.
Abandono de preposição, o que é isso?
Relembrando nossos estudos sobre gramática na escola, a preposição é aquela classe gramatical que liga outras palavras, indicando alguma relação de sentido entre elas. Nessa definição tradicional, a preposição deveria estar entre duas palavras, como em “casa de Pedro”, “(meu) namoro com Maria”, “luta contra o câncer” ou “palestra sobre relacionamentos”. Para a linguística, o elemento que vem depois da preposição é o seu complemento. O termo mais amplo para essa classe nas línguas humanas, na verdade, é adposição. Em algumas línguas, como no português, essa adposição vem antes do seu complemento (por isso, é chamada de preposição); em outras línguas, como o Kaingang (Jê, Macro-Jê; falada em SP, PR, SC e RS) e outras línguas indígenas, a adposição vem depois do complemento (por isso, é chamada de posposição). Vejamos um exemplo do Kaingang (dados em Ferro, 2021):
(1)
goj ra inh vyr ũri
rio para eu ir hoje
Trad.: Eu fui para o rio hoje.
Podemos notar a diferença de ordem entre o Kaingang (goj ra, ou seja ‘rio para’), que faz uso de posposição, e a respectiva tradução em português (‘para o rio’), que usa preposição. O que chamamos de preposição abandonada é a situação em que a preposição aparece sem ser seguida pelo seu complemento. Para entender melhor essa situação, comparemos as três possibilidades de fazer uma pergunta sobre um tema a ser abordado na fala de alguém:
(2)
a) Você vai falar sobre que tema?
b) Sobre que tema você vai falar?
c) Que tema você vai falar sobre ∅ ?
As alternativas mais tradicionais para fazer a pergunta sobre o tema que alguém vai falar seriam 2a e 2b. Em 2a, dizemos que o termo questionado ficou no mesmo lugar que estaria o sintagma1 equivalente (‘o tema’) se fosse uma afirmação: ‘Você vai falar sobre o tema (reflorestamento, por exemplo)’. Esse sintagma é sempre nominal, por ter como palavra mais importante um nome (ou um substantivo, como se chama essa classe de palavras na escola), como seria o caso de ‘tema’. Nesse tipo de interrogação (2a), dizemos que o termo questionado ficou ‘in situ’ (expressão em latim para ‘no local’). Em 2b, dizemos que “que tema” sofreu um movimento para o início da sentença interrogativa, sendo acompanhado da preposição da qual é complemento. Acontece que, mais recentemente, o português do Brasil tem-se utilizado de uma forma diferente de realizar uma pergunta como essa, como exemplificado em 2c: nesse movimento, o termo “que tema”, diferentemente de 2b, não é acompanhado de ‘sobre’, que fica ‘abandonada’ no final da frase. É como se o movimento do sintagma interrogador ‘que tema’, que é complemento de ‘sobre’, deixasse essa proposição sozinha, tadinha, sem o seu complemento (essa falta linear de complemento é indicada por ‘∅’ em 2c). Esse tipo de estrutura é muito frequente em outras línguas, como é o caso do inglês, visto a seguir:
(3)
What topic are you talking about?
qual tema Aux-Pres você falar-Ger sobre 2
Trad.: Sobre que tema você está falando?
A tradução indicada (‘Sobre que tema você está falando?’) optou por uma ordem do português com o movimento da preposição (‘sobre’) junto com seu complemento (o sintagma que funciona como interrogador, ‘que tema’). Um tradutor que quisesse manter a ordem da preposição na língua original poderia acabar traduzindo como ‘Que tema você está falando sobre?’, optando pelo mesmo abandono da preposição da língua original. Podemos dizer que esta última estrutura está cada vez mais frequente no português brasileiro. Alguns pontos, entretanto, ainda estão por ser respondidos, entre eles:
(4)
a) Que tipos de frases permitem que esse abandono ocorra?
b) Por que algumas preposições estão mais suscetíveis a esse tipo de fenômeno que outras?
c) Como nasceu essa possibilidade, quem a usa e como está sendo disseminada?
Mas afinal, onde encontramos as preposições abandonadas?
Uma das coisas que parecem promover o abandono, como vimos acima, é o movimento de sintagmas, que podem ocorrer em frases interrogativas e em orações relativas. Se você buscar na memória, vai lembrar que essas sentenças relativas são chamadas pela Gramática Tradicional (GT) de orações subordinadas adjetivas. Exemplos com movimento em interrogativas foram mostrados acima. Seguem exemplos com orações relativas (ainda sem abandono de preposição).
(5)
a) Convidei a professora [que nós encontramos ___ ontem].
b) Convidei a professora [com quem nós conversamos ___ ontem].
c) Convidei a professora [sobre quem nós conversamos ___ ontem].
Nas sentenças em 5, o espaço (___) indica o local onde estaria o sintagma representado pelas palavras em negrito, caso a segunda oração não fosse subordinada (estando ‘que’ e ‘quem’ referindo-se a ou retomando ‘a professora’). Em 5a, ‘nós encontramos a professora’; em 5b, ‘nós conversamos com a professora’; em 5c, ‘nós conversamos sobre a professora’. As três sentenças com ‘que’ e ‘quem’, delimitadas acima com colchetes, são orações relativas.
Como nosso tema aqui é ‘abandono de preposição’, vamos detalhar os tipos 5b e 5c, pois 5a não contém preposição. E vamos chamar 5b e 5c de orações relativas preposicionadas, aquelas que são introduzidas por preposição. É sobre essas que recai nosso interesse aqui.
Essas orações foram tema de vários estudos que se dedicavam a verificar algumas oscilações em seu uso pelos falantes do português brasileiro (PB). Vejamos um exemplo em um comentário retirado de uma rede social:
Figura 1 — Relativa cortadora

Fonte: Instagram.
O comentário, retirado do Instagram, se refere ao grande escritor paraibano Ariano Suassuna. Reproduzimos a sentença em 6a, abaixo, acompanhadas de outras maneiras de veicular o mesmo conteúdo em português brasileiro:
(6)
a) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido.
b) Da série: Pessoas com as quais eu queria ter convivido.
c) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido com elas.
d) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido com ∅. (?)
Já na década de 1980, o linguista Fernando Tarallo (1983) verificou que havia três formas distintas de produzir esse tipo de oração relativa preposicionada. Desde então, essas alternativas ficaram conhecidas cada qual por um nome. A 6a, reproduzida do comentário, é conhecida como a forma ‘cortadora’ por não trazer (ou seja, cortar) a preposição, pois quem convive, convive ‘com’ alguém; a alternativa 6b é a forma preferida pela norma padrão; e a última (6c) é a chamada de ‘copiadora’ por repetir ‘elas’ (= ‘pessoas’) depois da preposição. A forma 6d, ainda não identificada nos estudos da década de 1980 nem nos estudos do início dos anos 2000, é algo mais recente na nossa fala e tem sido cada vez mais usada, sendo essa a forma que consideramos conter um abandono preposicional. O uso e a aceitação dessa construção sintática parecem ser mais frequentes para algumas preposições que para outras (a interrogação (?) ao final de 6d serve para indicar que muitos falantes do PB rejeitariam essa forma de dizer essa mensagem). A preposição ‘com’, por exemplo, é muito menos aceita em situação de abandono do que as preposições ‘sobre’ e ‘sem’. Exemplos com o ‘sobre’ e o ‘sem’ abandonados temos abaixo, em 7d e 7e (e na figura 2), respectivamente:
(7)
a) Da série: Pessoas (sobre) que eu queria falar. (?)
b) Da série: Pessoas sobre as quais eu queria falar.
c) Da série: Pessoas que eu queria falar sobre elas.
d) Da série: Pessoas que eu queria falar sobre.
e) Da série: Pessoas que eu não sei viver sem.
Figura 2 — Preposição ‘sem’ abandonada

Fonte: X (ex-Twitter).
Provavelmente você achou mais naturais as sentenças em 7d e 7e que aquela em 6d, mesmo que você não as produza. A sentença em 7d, com ‘sobre’ abandonada no final da sentença, é, de fato, mais recorrente que uma do tipo de 6d, que tem ‘com’ abandonada. Com base em estudos prévios e na comparação com outras línguas, podemos listar essas quatro estratégias principais de relativização envolvendo preposição: a estratégia cortadora, como em 7a; a forma que chamamos de ‘padrão’, em 7b, mais conhecida nos estudos linguísticos pelo termo pied-piping (em inglês) 3; a copiadora, em 7c; e o abandono preposicional, em 7d e 7e. Como vimos acima, em relação ao PB, Tarallo (1983) afirmava que há apenas três estratégias de relativização disponíveis, aquelas equivalentes a 7a, 7b e 7c. A quarta possibilidade (em 7d e também em 7e) não estava no radar dos linguistas de 20 anos atrás, o que nos indica que essa estratégia é bem recente no PB.
Outra possibilidade de termos uma preposição sem seu complemento são os casos de elipse. A elipse é o fenômeno de omissão de determinado elemento, normalmente já citado anteriormente ou recuperado pelo contexto. Isso pode acontecer como em uma interação:
(8)
a) O que você fez com o dinheiro?
b) Gastei ___. (= Gastei [o dinheiro])
O print a seguir, retirado de uma conversa em WhatsApp, mostra um caso em que o complemento da preposição ‘sobre’ ficou elíptico. Da mesma forma que o exemplo em (8b), o sintagma que viria depois da preposição pode ser recuperado: ‘essa professora’, ou seja: “vou procurar mais sobre essa professora”.
Figura 3 — Abandono de preposição (elipse)

Fonte: WhatsApp (acervo pessoal).
Também facilitam o surgimento de preposições abandonadas as sentenças com constituintes topicalizados, ou seja, sintagmas que ficam no início da frase, marcando o assunto a ser tratado (o tópico). Um exemplo é o nosso título: “Preposição abandonada, você já ouviu falar sobre ___?”. As alternativas a essa construção com abandono da preposição seriam 9a (sem movimento) e 9b (com movimento da preposição junto com seu complemento) a seguir:
(9)
a) Você já ouviu falar sobre preposição abandonada?
b) Sobre preposição abandonada, você já ouviu falar?
Em resumo: as preposições abandonadas podem acontecer nos casos de elipse e de movimento de sintagma (como, por exemplo, interrogações, orações relativas e topicalizações).
Por que algumas mais que outras?
Vimos que as preposições ‘sobre’ e ‘sem’, por exemplo, são muito mais aceitas que ‘com’. Há preposições que rejeitam quase por completo a possibilidade de abandono, como é o caso do ‘de’ ou ‘em’. Há dois caminhos argumentativos que os linguistas tentam desbravar. Esses caminhos, apesar de parecerem excludentes, podem ser complementares. Um caminho de argumentação se apoia na tonicidade das preposições, ou seja, aquelas que são portadoras de uma sílaba tônica podem ser abandonadas pelo complemento. Esse cobre perfeitamente os casos de ‘sobre’ e ‘sem’, explicando também por que motivo as preposições átonas (como ‘de’ e ‘em’) nunca (ou muito raramente) toleram ser abandonadas.
Um segundo caminho de explicação distingue as preposições de acordo com o seu valor lexical ou valor funcional. Uma preposição de valor lexical é aquela que acrescenta conteúdo semântico claro à relação que estabelece. Por exemplo, a preposição ‘sobre’ implica uma relação de ‘assunto’ ou ‘tema’ e ‘sem’ carrega a ideia de ‘ausência’. Como essas preposições são semanticamente mais estáveis, há maior autonomia para que permaneçam na frase mesmo sem serem seguidas de um complemento foneticamente realizado. Em contrapartida, uma preposição de valor funcional é aquela que atua quase como uma ‘exigência gramatical’, sem fornecer significado próprio, funcionando apenas como um elo sintático entre o verbo e seu complemento. É o caso das preposições ‘de’ e ‘em’, que muitas vezes apenas introduzem complementos obrigatórios: ‘gostar de laranja’, ‘acreditar em promessas’. Por serem consideradas mais ‘esvaziadas’ semanticamente (ou seja: do ponto de vista do significado), essas preposições dificilmente aparecem sozinhas, já que seu papel depende diretamente da presença do complemento. Talvez seja esse esvaziamento que nos leva a não sentir falta dessas preposições em alguns contextos, de forma que, em relativas, a cortadora passa a ser a mais usada com essas preposições (como em 10c e 10d). A seguir, o asterisco nas sentenças indica que 10a e 10b são agramaticais (ou seja: malformadas de acordo com princípios da língua, de maneira que não seriam construídas por falantes nativos):
(10)
a) * Esse é o tipo de laranja que eu mais gosto de.
b) * Essa foi a promessa que eu sempre acreditei em.
c) Esse é o tipo de laranja que eu mais gosto.
d) Essa foi a promessa que eu sempre acreditei.
Sendo assim, tanto a tonicidade quanto o valor lexical ou funcional auxiliam a explicar o padrão observado: preposições tônicas e lexicais tendem a aceitar o abandono, enquanto preposições átonas e funcionais o rejeitam quase que por completo.
Será que isso é influência de outra língua?
Embora comum em inglês, essa última estratégia é considerada agramatical no português europeu e em línguas como o alemão. Vimos que, no PB, a aceitabilidade da construção do tipo abandonada pode variar dependendo da preposição envolvida.
Conforme análise de Tarallo (1983), as construções relativas no PB restringiam-se a duas estratégias principais até o final do século XIX: a padrão e a copiadora. Ainda segundo o mesmo pesquisador, na metade do século XX, surge a forma cortadora. Os três tipos foram exemplificados em (6) e são retomados em (11). A alternativa com preposição abandonada é uma possibilidade recentíssima, deste século.
(11)
a) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido. (cortadora)
b) Da série: Pessoas com as quais eu queria ter convivido. (padrão)
c) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido com elas. (copiadora)
d) Da série: Pessoas que eu queria ter convivido com. (preposição abandonada)
O surgimento dessa nova possibilidade coincide com a consolidação da internet, na qual o inglês é a língua mais presente. Ao que tudo indica, essas questões estão conectadas. Ao observar o surgimento dessa nova estratégia no PB, Souza (2019) afirma que esse novo tipo de estrutura é mais frequente entre os falantes mais jovens e mais escolarizados. Isso leva a pesquisadora a relacionar o uso desse recurso linguístico no PB à interferência da internet.
De todo modo, podemos verificar que o português brasileiro passou a acomodar mais esse tipo de relativa, obtendo um repertório mais amplo de estratégias de relativização preposicional, indo além das formas inicialmente descritas por Tarallo (1983). Dessa forma, no que tange às orações relativas preposicionadas, podemos dizer que contamos agora com quatro possibilidades para construir uma sentença desse tipo. Esse novo quadro de estratégias de relativização com preposição no PB é mais um exemplo de que a língua não é estática, e sim um sistema dinâmico em constante mudança.
Saiba mais
As monografias a seguir trazem um panorama, com questões teóricas e análise experimental, sobre as relativas preposicionadas em três variedades de português:
CUNHA, Vitória de A. Sentenças relativas preposicionais em português do Brasil, português europeu e português de Moçambique: um estudo baseado na Teoria de Princípios e Parâmetros. 2022. Monografia — Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2022.
LIMA, Brenda de S. Relativas preposicionais em português do Brasil na atualidade e o que mostra a Gramática Gerativa. 2024. Monografia — Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.
Referências bibliográficas
FERRO, Isabella. Indicadores de sujeito na língua Kaingang (Macro-Jê): análises e considerações. 106 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) — Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, Centro de Letras e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2019.
SOUZA, C. C. As sentenças relativas preposicionais diante de Princípios e Parâmetros. 84 f. Tese (Doutorado em Linguística) — Programa de Pós-Graduação em Linguística, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
TARALLO, F. Relativization strategies in Brazilian Portuguese. Tese (Doutorado) — University of Pennsylvania, Pennsylvania, 1983.
- Conjunto de palavras que se agrupam em torno de um núcleo para compor a sentença; se o núcleo for um nome, dizemos que o sintagma é nominal; se for um verbo, verbal, e assim em diante. ↩︎
- Aux = auxiliar; Pres = presente; Ger = gerúndio. ↩︎
- O termo se origina da história do flautista de Hamelin, que leva embora com ele os ratos e as crianças da cidade; por analogia, o sintagma nominal, quando se move, carrega junto a preposição, como faz o flautista com os ratos. ↩︎
Para acessar a versão em pdf, clique aqui.
FICHA CATALOGRÁFICA:
M33p ㅤMAGALHÃES, Lays
ㅤㅤㅤPreposição abandonada, você já ouviu falar sobre? / Lays Magalhães, Gean Damulakis – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤㅤ1. Fenômeno linguístico 2. Estrutura sintática 3. Mudanças linguisticas
ㅤㅤㅤl. Magalhães, Lays ll. Damulakis, Gean lll. título
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 414
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 81’367’37

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