Você já colocou suas ideias no papel? Que tal tecer seus comentários?

O texto analisa o uso de metáforas na linguagem cotidiana, especificamente a “Metáfora do Conduto” e a “Metáfora de Corte e Costura” no português brasileiro. Ambas facilitam a compreensão da comunicação verbal ao associar conceitos abstratos a ações concretas, refletindo experiências socioculturais na linguagem.

Este texto discute um fenômeno que tem sido apontado por linguistas da área de cognição como central na linguagem cotidiana, que é o uso de metáforas para falar sobre conceitos mais abstratos. Em particular, são descritas duas metáforas usadas no português brasileiro para fazer referência à comunicação verbal. A primeira, identificada inicialmente em inglês, denominada “Metáfora do Conduto”, trata a comunicação verbal como transferência de um objeto de um doador para um receptor (ex. “Ele me deu uma ideia”). A segunda, identificada recentemente no português brasileiro, é a “Metáfora de Corte e Costura”. Neste caso, a comunicação é tratada como uma atividade de corte e costura (ex. “Os deputados alinhavaram um acordo”).

Lilian Ferrari (DLF/UFRJ)


Você já se deu conta de que, quando falamos sobre as nossas trocas conversacionais, podemos usar expressões semelhantes àquelas usadas para falarmos da transferência de um objeto de uma pessoa para outra? Por exemplo, assim como falamos que “Maria deu um presente ao amigo”, também podemos dizer que “Maria deu uma ideia ao amigo”. Se a sentença “Maria deu um presente ao amigo” descreve uma ação de transferência física, de base corporal e sensório-motora, a sentença correspondente “Maria deu uma ideia ao amigo” já se refere ao processo mais abstrato de comunicação verbal. Como destacado pioneiramente pelo linguista Michael Reddy, esse processo é bem mais complexo do que supomos: o falante precisa produzir sequências gramaticais em uma determinada língua, expressá-las oralmente ou por escrito; o ouvinte precisa ouvir ou ler essas sequências e ser capaz de decodificá-las para compreender a informação pretendida. Entretanto, ao final do processo, não existe garantia de que o significado concebido na mente do falante tenha sido reproduzido fielmente na mente do ouvinte.

Sendo assim, para podermos falar de algo tão complexo, uma das possibilidades é tratar a comunicação verbal, metaforicamente, como transferência de um objeto de um doador para um receptor; é o que o Reddy denominou “Metáfora do Conduto”. Nesse caso, a Metáfora do Conduto acaba sendo um recurso “facilitador” para permitir que se fale do processo complexo de comunicação verbal em termos de ações concretas e objetivas que ocorrem em nosso dia a dia, como a transferência física de um objeto de uma pessoa para outra. Embora saibamos que não é efetivamente possível “dar ideias”, ao estabelecermos, implicitamente, uma analogia com um evento concreto, tornamos a compreensão da comunicação verbal mais acessível.

Logo após a publicação de Reddy, o livro Metaphors we live by (“Metáforas da Vida Cotidiana”), uma parceria entre o linguista George Lakoff e o filósofo Mark Johnson, elaborou a caracterização das metáforas, de um modo geral, como processos de pensamento que se refletem em uma série de estruturas linguísticas no uso cotidiano do inglês. Esses autores destacam que, de um modo geral, as metáforas consistem na correspondência entre domínios mentais (cognitivos), de modo que elementos de um domínio-fonte, mais concreto, estabelecem correspondências com elementos de um domínio-alvo, mais abstrato, do qual se quer falar. Com relação à Metáfora do Conduto, portanto, os autores destacam que as correspondências são as seguintes:

Figura 1 – Metáfora do Conduto (COMUNICAÇÃO VERBAL É TRANSFERÊNCIA FÍSICA)

Como representado na Figura 1, a Metáfora do Conduto projeta o domínio-fonte, mais concreto, de transferência de um objeto de um doador para um receptor, por meio de um conduto (ou canal), para o domínio-alvo, mais abstrato, de comunicação verbal. Vejamos mais alguns exemplos:

(1) Ele proferiu palavras vazias.

(2) Não peguei bem essa ideia.

(3) Ela colocou suas ideias no papel.

Em (1), o adjetivo “vazias” indica que as palavras estão sendo concebidas como contêineres; metaforicamente, o falante indica que essas palavras não estão associadas a significados relevantes. Da mesma forma, o exemplo (2) destaca que a “ideia/objeto” não foi “compreendida/pega” pelo “ouvinte/receptor”. Por fim, em (3), as ideias/objetos são colocadas no papel/contêiner; na verdade, o que se coloca no papel pode ser tinta de caneta, grafite, etc., que vão atuar como indicações para a construção do significado na mente do leitor.

Estudos posteriores indicaram que a Metáfora do Conduto é produtiva em inglês (língua em que foi inicialmente descrita), em português e em várias outras línguas1. Mas será que essa é a única metáfora associada à comunicação verbal? A resposta é “não”! Há, em português, pelo menos uma outra metáfora, que descrevi recentemente como “Metáfora de Corte e Costura”. Nesse caso, o domínio-fonte de “Corte e Costura”, envolvendo a confecção de roupas, produtos têxteis, etc., é recrutado para estruturar o domínio-alvo da “Comunicação Verbal”. Consideremos alguns exemplos:

(4) A professora teceu comentários sobre o artigo.

(5) Os políticos alinhavaram um acordo.

(6) Quando nos reunimos, costuramos uma proposta para o evento.

Nos exemplos (4) a (6), os verbos “tecer”, “alinhavar” e “costurar” ocorrem em referência à comunicação verbal. Em seus usos literais, as ações indicadas pelos verbos resultariam em produtos têxteis (por ex., tecer um cachecol, alinhavar um vestido, costurar uma camisa), ou seja, há sempre um produto resultante da atividade expressa pelo verbo. Nos usos metafóricos apresentados nos exemplos, esses resultados são produções linguísticas – respectivamente, “comentários”, “acordo” e “proposta”.

O processo cognitivo pode ser representado pelo seguinte diagrama:

Figura 2 – Metáfora de Corte e Costura – Resultativa (COMUNICAÇÃO VERBAL É ATIVIDADE DE CORTE E COSTURA)

A Metáfora de Corte e Costura pode ocorrer também com os verbos “tesourar” e “alfinetar”. Vejamos:

(7) No bate-papo, as amigas tesouraram muita gente.

(8) A atriz alfinetou a colega.

Nesse caso, os verbos “tesourar” e “alfinetar” referem-se a ações verbais de “falar mal”, como em (7), ou “criticar alguém”, como em (8).

Assim como é possível, em termos concretos, “tesourar” ou “alfinetar” um vestido, afetando a estrutura física dessa vestimenta, o uso metafórico desses verbos indica uma ação verbal que afeta, metaforicamente, os indivíduos que são “alvos” da ação descrita. Em termos cognitivos, as correspondências são as seguintes:

Figura 3 – Metáfora de Corte e Costura (COMUNICAÇÃO VERBAL É ATIVIDADE DE CORTE E COSTURA)

O fato de que a Metáfora do Conduto e a Metáfora de Corte e Costura sejam relacionadas à Comunicação Verbal deixa claro que o mesmo domínio abstrato pode ser estruturado por diferentes domínios concretos da nossa experiência, em função de fatores contextuais e socioculturais. Por exemplo, a metáfora RAIVA É CALOR ocorre em um grande número de línguas, envolvendo substâncias líquidas (ex. “A situação fez meu sangue ferver”). Entretanto, em chinês, a substância pode ser gasosa (por exemplo, uma sentença cuja tradução literal, em português, seria “Ele está inflado de gás” significa, em chinês, que “Ele está com raiva”).

Em linhas gerais, é possível concluir que a ocorrência da Metáfora do Conduto em várias línguas tem a ver com o fato de que a transferência de objetos entre indivíduos é uma experiência física bastante comum entre os seres humanos, independentemente do contexto sociocultural. Já a ocorrência da Metáfora de Corte e Costura, embora também ancorada em uma atividade física envolvendo basicamente as mãos, pode estar relacionada à importância dessa atividade no contexto sociocultural dos países falantes de língua portuguesa.

Entretanto, vale destacar que a língua portuguesa não é necessariamente a única em que a Metáfora de Corte e Costura ocorre. Mesmo em inglês a metáfora pode ocorrer, embora de modo mais restrito. Por exemplo, “Ele teceu alguns comentários sobre o livro” pode ser traduzido com o verbo weave, correspondente a “tecer” (“He weaved some comments on the book”), mas as sentenças “Ela alinhavou/costurou um acordo” ou “Ele tesourou/alfinetou o colega” não poderiam ser traduzidas com os verbos de corte e costura correspondentes, mostrando que essa metáfora não é tão produtiva em inglês quanto em português.

Saiba mais

DANCYGIER, B; SWEETSER, E. Figurative language. Cambridge: Cambridge University Press. 2014.

FERRARI, L. Entre alinhavos e alfinetes: a metáfora de corte-e-costura na comunicação verbal. In Hanna Batoréo (org.), Linguagem, cognição e cultura; teorias, aplicações e diálogos com foco na língua portuguesa. Universidade Aberta, 2022.

KÖVECSES, Z. Metaphor in culture. Universality and variation. Cambridge/Newse York: Cambridge University Press, 2005.

KÖVECSES, Z. Where metaphors come from. Reconsidering context in metaphor. Oxford/New York: Oxford University Press. 2015.

Referências

LAKOFF, G; JOHNSON, M. Metaphors we live by. Chicago: The University of Chicago Press, 1980.

ORTONY, A. (Ed.), Metaphor and thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.

REDDY, M. The conduit metaphor; a case of frame conflict in our language about language. In A. Ortony (Ed.), Metaphor and thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.

VAIČENONIENĖ, J.  Conduit metaphor in English and Lithuanian: a corpus-based approach. Darbai ir dienos 24: 143–168. 2000. 


1 . Para citar línguas distantes do inglês, podemos indicar, além do português, o lituano, língua oficial da Letônia (VAIČENONIENĖ, 2000), por exemplo.


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FICHA CATALOGRÁFICA:

F38v ㅤFERRARI, Lilian

ㅤㅤ­­ㅤVocê já colocou suas ideias no papel? Que tal tecer seus comentários? / Lilian Ferrari – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025.

ISSN: 3086-2086

ㅤㅤㅤ1. Metáfora  2. Linguagem 3. Português brasileiro
ㅤㅤㅤl. Ferrai, Lilian ll. título

ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.43
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 811.134.3’373


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