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Assoviando rumo ao fim: línguas assoviadas, como elas funcionam e por que lutam para sobreviver

Antes da invenção dos celulares e rádios, fazer uma pergunta para seu vizinho poderia exigir horas em regiões remotas. Sociedades diversas recorreram ao assovio para encurtar essas distâncias e desenvolveram formas de assoviar suas línguas. Mas como isso é possível? O que torna uma língua “assoviável”? Entenda um pouco melhor como funciona esse sistema de…

Antes da invenção dos celulares e rádios, fazer uma pergunta para seu vizinho poderia exigir horas em regiões remotas. Sociedades diversas recorreram ao assovio para encurtar essas distâncias e desenvolveram formas de assoviar suas línguas. Mas como isso é possível? O que torna uma língua “assoviável”? Entenda um pouco melhor como funciona esse sistema de comunicação tão elegante e funcional, e saiba como elas fazem para sobreviver em um mundo de mensagens de rádios e celulares.

Uma assoviadora em La Gomera. Podemos identificar que se trata de silbo gomero por conta da técnica usada: inserir um dedo dobrado dentro da boca é típico do espanhol assoviado da ilha e produz assovios fortes que podem ser ouvidos a mais de um quilômetro de distância (Autor desconhecido, licenciado em CC BY).

Gabriel C. M. Brasileiro, Julien Bismuth e Andrew Nevins


Introdução

Quando você quer que só o colega de sala te ouça, você sussurra; quando você quer que seu parente no outro quarto te ouça, você grita. Mas como você faz quando quer que te ouçam a dois quarteirões de distância? Haja pulmão para tamanho grito. E, ainda assim, provavelmente não entenderiam nada. Essa questão é extremamente importante para pessoas morando em regiões montanhosas, onde andar até o vizinho é uma subida interminável, ou para pessoas que moram em florestas densas e frequentemente precisam se comunicar um com o outro sem conseguir se ver através da folhagem densa. Hoje em dia eles têm acesso a celulares e radinhos, mas e antes? Não adiantava gritar e o WhatsApp ainda não existia. Como faziam? Eles assoviavam, e ainda assoviam1.

Ao redor do mundo conhecemos um número impressionante de línguas assoviadas. Na Turquia existe o Turco assoviado, conhecido como língua dos pássaros; nas Ilhas Canárias, na ilha de La Gomera, o Espanhol assoviado, chamado de silbo gomero; na Tailândia tem o Akha assoviado; na China tem o Bai assoviado… O Brasil, um dos países com maior número de línguas assoviadas, tem o Ikolen (Gavião de Rondônia), o Paiter-Suruí, o Pirahã, o Bororo, dentre outras.

Além de comunicação a longa distância, o assovio tem um segundo uso: por não soar como fala humana, é frequentemente usado por povos que caçam em matas densas para se comunicar sem alertar os animais para a presença de caçadores. Esse uso como comunicação camuflada também foi feito pelos habitantes de La Gomera durante a ditadura de Franco para avisar da presença de agentes do governo na ilha.

Apesar do termo “língua assoviada”, não se trata de línguas completas em si. Uma forma possível de entender este fenômeno é comparando-o a outras formas de produzir língua: da mesma forma que podemos, por exemplo, gritar Espanhol e sussurrar Espanhol, podemos assoviar Espanhol. Como se pode supor, uma língua assoviada é uma versão ou variedade de sua contraparte falada, e é desta forma que assoviadores compreendem suas próprias produções:

“Assoviadores enfatizam que assoviam exatamente da mesma forma que pensam em suas línguas, e que as mensagens assoviadas que chegam remetem imediatamente às mesmas sentenças faladas.”

Julien Meyer, Whistled Languages (2015, pp. 2)

            Podemos ver um pouco como funciona uma língua assoviada no vídeo abaixo, de um assoviador Pirahã demonstrando seu uso:

[https://videopress.com/v/9fex791X]

Eu (Bismuth) gravei este vídeo em 2016 junto ao povo Pirahã na floresta Amazônica. Eu estava acompanhando o antropólogo Marco Antonio Gonçalves. Fui levado a tal situação por uma série de encontros por acaso, primeiro com um artigo a respeito dos Pirahã e sua língua, depois com Marco no Rio.

            Pesquisas perceptuais reforçam esse entendimento. Rialland (2005) testou a capacidade de assoviadores identificarem consoantes assoviadas em pseudo-palavras, isso é, produções sem significado; o que foi indicado é que assoviadores confundem consoantes que têm características acústico-articulatórias semelhantes, como, por exemplo, confundir /t/ com /d/, mas não com /f/. Estudos acerca dessas línguas também corroboram essas conclusões (ibid; Meyer, 2015).

            Podemos comparar a relação entre assovio e fala com a relação entre braile e escrita manual: da mesma forma que podemos representar a letra “n” como tal, podemos também representá-la como “⠝”: ambas as representações remetem ao mesmo conceito de letra, apesar de diferentes, e, para um leitor de braile, ver o padrão de pontos imediatamente remete à letra “n” escrita como tal. Apesar de distintos em aspectos fundamentais de sua aparência, letras em escrita manual e em braile são um único sistema codificado de maneiras distintas; o mesmo é verdade para a fala e o assovio.

            Os estudos atualmente disponíveis indicam que as semelhanças entre falado e assoviado não são apenas sistêmicas, mas também acústicas. Isso é, não se trata apenas de preservar as distinções, mas codificá-las de outra forma, sendo assim uma transposição direta de características acústicas e, possivelmente, articulatórias da fala. Essa transposição preserva um número restrito de características acústico-articulatórias (quais especificamente depende de características da língua em questão).

Como assoviar: uma aula que não garante que você seja capaz de assoviar ao final

            Para produzir fala, movemos os chamados “articuladores”; no caso das línguas orais, se trata dos órgãos do trato vocal: laringe, língua, lábios, dentre outros. Sem a laringe, um dos órgãos mais importantes da fala, onde se encontram as pregas vocais, a fala se torna difícil e requer treinamento especial para ser produzida.

            No caso do assovio, a laringe se torna um órgão de baixa relevância (Azola et al., 2018). De fato, podemos descartar completamente a laringe na hora de simular o trato oral durante a produção do assovio, e não vemos grande efeito no resultado (Wilson et al., 1971; Azola et al., 2018; Shigetomi; Mori, 2016; Kaburagi et al., 2018).

            Porém, devemos resistir ao impulso de simplificar o assovio a “fazer bico e assoprar”. Há várias formas de assoviar, algumas desprezando totalmente a boca como câmara de ressonância e usando das mãos. Mesmo a forma mais famosa no ocidente, aquela onde vemos os lábios juntos, apertados e projetados, com apenas uma pequena abertura entre eles (de agora em diante chamado de assovio bilabial), usa os lábios e a língua em uma relação complexa e milimétrica. A câmara de ressonância do assovio pode ser entendida como uma “laringe de aluguel”, visto que em geral usamos a laringe para produzir o tom da fala; essa tarefa no assovio é cumprida pelas estruturas da cavidade oral.

            Atualmente entendemos que, para a maioria das formas de assovio, são necessárias três estruturas articulatórias: uma constrição anterior, uma constrição posterior e uma câmara de ressonância entre os dois. No caso do assovio bilabial, essas três seriam: os lábios juntos com uma pequena abertura, o dorso da língua levantado em direção ao céu da boca e o espaço entre os dois, onde encontramos a ponta da língua para baixo e os dentes firmemente pressionados contra os lábios (Azola et al., 2018). Ao contrário do que é intuitivo, o principal controle do tom produzido pelo assovio bilabial não são os lábios, e sim a constrição posterior da língua com o céu da boca (ibid).

            Apesar das diferenças serem enormes, estudos mais recentes indicam que, possivelmente, há mais em comum entre fala e assovio do que imaginávamos, mas falaremos disso mais à frente.

Sílabas, palavras e, talvez, até frases assoviadas

            Entendendo melhor como produzimos o assovio, podemos entender melhor também como esse assovio é capaz de veicular informação linguística.

            O primeiro fator relevante do assovio é que, apesar de sua complexidade articulatória, acusticamente ele é muito mais simples que a fala. Uma única vogal da fala é descrita por vários aspectos acústicos: um primeiro formante que identifica se ela é uma vogal feita com a língua alta como [i] ou baixa como [a]; um segundo formante que aponta se ela é anterior, que quer dizer que o ponto mais estreito da cavidade oral está perto dos lábios, como [e] ou posterior, ponto mais estreito longe dos lábios, como [o]; e ainda temos a frequência fundamental, que é o que faz a voz ser mais aguda ou mais grave; duração, que é literalmente o tempo que a vogal dura; amplitude, que entendemos como um som mais barulhento ou mais quieto; anti-formantes, que se relacionam com a vogal ser nasalizada ou não… E tudo isso é apenas sobre vogais, não cobre as complexidades de consoantes ou de diferentes modos de fala como sussurro ou canto em falsete. Diferente de tudo isso, no assovio temos apenas três elementos, que também estão presentes na fala: frequência fundamental, amplitude e duração.

            O incrível das línguas assoviadas é que, apesar dessa simplicidade acústica descrita no parágrafo anterior, muitas delas são capazes de comunicar tudo que a respectiva língua falada com as mesmas sílabas, as mesmas palavras, frases complexas com complementos e clíticos e tudo que você é capaz de dizer (Meyer, 2015). Em uma única viagem à vila de Sochiapam, no México, Sicoli (2016) foi capaz de ver pessoas descrevendo as plantas em suas hortas, discutindo seus planos para o almoço do dia seguinte e dando instruções de navegação.

[https://vimeo.com/57291304  9’53” até 11’4”]

            Como mencionado na introdução, a língua assoviada transpõe diretamente aspectos acústicos da fala para ser entendida. É elencado um parâmetro acústico da fala, e algumas características acústicas desse parâmetro passam a ser veiculadas por meio da frequência fundamental do assovio. O parâmetro escolhido é dependente de características da língua base: para línguas não-tonais2, como o Espanhol e o Turco, há semelhanças entre o segundo formante da fala (que tem a ver com a posição do ponto mais estreito da cavidade oral) e a frequência fundamental do assovio; no caso de línguas tonais, como o Akha ou o Ikolen, há semelhanças entre a frequência fundamental da fala (que é aquela coisa que faz a voz parecer mais aguda ou mais grossa) e a frequência fundamental do assovio.


            Vejamos na imagem a seguir:

A imagem mostra características acústicas simplificadas como pontos em um gráfico. O eixo horizontal mostra o tempo enquanto o eixo vertical mostra a frequência do respectivo parâmetro. A sentença sendo dita é “Silvia, bom dia” em Espanhol assoviado de La Gomera. Em vermelho, acima, temos a frequência fundamental da fala, em azul, abaixo, temos a frequência fundamental do assovio. As linhas pontilhadas ajudam a separar a sentença em pedaços menores para evidenciar ainda mais as semelhanças entre os parâmetros.

A trajetória do segundo formante da sentença falada é muito semelhante à curva da frequência fundamental da sentença assoviada. Isso ajuda a entender como falantes de Espanhol que não conhecem a versão assoviada ainda são capazes de identificar vogais e palavras do que está sendo assoviado, mesmo que com menos confiança e precisão do que assoviadores experientes.

            A relação em línguas tonais é ainda mais clara, como podemos ver no exemplo abaixo do Chinanteco de Sochiapam:


A sentença é “você tem fungo de milho na sua horta?” em Chinanteco assoviado de Sochiapam. Em vermelho, temos a frequência fundamental da sentença assoviada, em azul, temos a frequência fundamental da sentença falada.

Entendemos, então, que a versão assoviada de uma língua não-tonal se dá pela transposição de características acústicas do segundo formante da versão falada, enquanto a versão assoviada de uma língua tonal se dá pela transposição de características acústicas da frequência fundamental da versão falada. Isto é universal para todas as línguas examinadas até o momento. Até línguas com apenas dois tons vão sempre assoviar a frequência fundamental, mesmo se fosse mais fácil identificar sentenças por meio da transposição do segundo formante. Este é o caso, por exemplo, do Ikolen e do Paiter-Suruí: ambas só têm dois tons, um alto e um baixo, mas dez vogais3, e mesmo assim suas versões assoviadas usam da frequência fundamental e não do segundo formante.

Apesar dos exemplos usados ilustrarem uma relação simples e facilmente observável, este nem sempre é o caso. Línguas diferentes aparentam transpor suas vogais de maneiras diferentes. Espanhol e Grego, por exemplo, são línguas indo-europeias com sistemas de cinco vogais muito semelhantes; apesar disso, elas produzem essas vogais de maneiras diferentes quando assoviando, agrupando-as em conjuntos:

À esquerda temos o sistema vocálico do Espanhol, agrupando /u/ e /o/ na versão assoviada; à direita temos o sistema vocálico do Grego, agrupando /u/ e /ɛ/ na versão assoviada (Mussa, 2010; Russo, Katsiouris, 2025).

            Visto que [u] e [ɛ] teriam valores vastamente diferentes de F2, fica difícil, com base nesta interpretação simples de transposição de parâmetros acústicos, explicar o motivo para que esses grupos sejam tão vastamente diferentes. E, complicando ainda mais a situação, outras línguas assoviadas parecem agrupar duas vogais de maneira semelhante ao Grego, como é o caso do Turco:

            Entendemos então que línguas assoviadas se dividem em dois grupos: tonais/baseadas em frequência fundamental, e não-tonais/baseadas em segundo formante; e este segundo grupo se divide em línguas que juntam vogais próximas em relação à posição anterior-posterior, como é o caso do Espanhol assoviado apresentado anteriormente, e as que juntam vogais de uma forma que corta o espectro vocálico diagonalmente, como o Turco que está na imagem acima. O que leva uma língua a selecionar um destes ainda não é bem entendido, mas estes agrupamentos são centrais para a compreensão dos processos fonológicos que ocorrem em línguas assoviadas (Nevins, 2015).

Entendendo melhor a relação entre fala e assovio

Duas perguntas pairam sobre os estudos de língua assoviada:

  • Por que línguas tonais sempre assoviam a frequência fundamental mesmo que seja mais inteligível assoviar o segundo formante? Bagemihl (1988) chama esta questão de “paradoxo”.
  • Por que o segundo formante? Nada impede a emulação do primeiro ou do terceiro formantes, mas, apesar disso, não parece existir nenhuma língua que seja baseada em algum parâmetro acústico que não o segundo formante ou a frequência fundamental.

            Não há uma resposta definitiva para nenhuma das duas perguntas, mas há certos indícios de que o segundo formante não é uma escolha tão arbitrária quanto imaginamos, e isso aponta para uma possível resposta para a primeira questão.

            Estudos com assovio musical mostram uma relação articulatória entre o segundo formante da fala e a frequência fundamental do assovio, chamada por Belyk et al. (2019) de “um mecanismo bioacústico compartilhado”. Leitores atentos vão se lembrar que o principal articulador responsável pelo tom resultante do assovio bilabial é a constrição posterior da língua com o céu da boca. Examinando ressonâncias magnéticas, foi notado que a relação entre a forma da língua e o valor do segundo formante que ocorre na fala é semelhante à relação entre a forma da língua e o valor da frequência fundamental resultante durante o assovio. Isto é: parece que o fenômeno acústico que permite a produção do segundo formante é o mesmo que nos permite assoviar (ibid).

            Dessa forma, podemos entender que, enquanto as línguas tonais assoviadas preservam o aspecto acústico da versão falada, desprezando a articulação por meio da laringe, línguas não-tonais assoviadas potencialmente preservam o aspecto articulatório da versão falada, descartando a onda complexa com formantes e mantendo o mecanismo bioacústico.

            Essa relação entre fenômenos acústicos já havia sido observada antes, mas nunca estudada diretamente. Um dos primeiros trabalhos acerca do assovio humano usando modelos matemáticos para correlacionar o volume da câmara de ressonância (o espaço vazio formado quando se levanta a parte de trás da língua ao mesmo tempo que se aperta os lábios) e o tom produzido já tinha indicações de que haveria uma relação com os formantes, possivelmente sem conhecimento prévio algum de línguas assoviadas (Shadle, 1983).

            Mas é importante ressaltar que estas são apenas hipóteses, informadas por estudos recentes, mas ainda não comprovadas. A articulação do assovio bilabial é relativamente bem entendida, mas não há estudos articulatórios sobre outras formas de assovio que são mais comuns em línguas assoviadas. E os estudos mencionados examinam o assovio musical, não línguas assoviadas. Além disso, ao examinar o nível da sentença, as semelhanças entre fala e assovio não são igualmente consistentes em todas as línguas (Brasileiro, 2025).

            Existem também experimentos sobre o processamento de língua assoviada no cérebro. Para entender estes estudos, é preciso entender que a fala humana é processada, majoritariamente, no lado esquerdo do cérebro, e que essa assimetria pode ser observada por sermos mais capazes de entender fala quando ela chega só no nosso ouvido direito do que quando só no esquerdo4. Güntürkün et al. (2015) analisaram esta diferença entre ouvido esquerdo e direito para compreensão de assovio e não a encontraram, isso é, parece que somos igualmente capazes de entender língua assoviada com ambos os ouvidos, que não é o caso em relação à fala. Porém Carreiras et al. (2005) já haviam encontrado que as regiões do cérebro responsáveis por processar e entender fala são também ativadas quando ouvimos uma língua assoviada; isto é, de alguma maneira, aparenta haver uma compensação dessa assimetria cerebral onde entendemos mais com o lado esquerdo.

Assoviando rumo ao fim

            Os estudos sobre língua assoviada ainda são poucos, mas não por falta de esforço dos pesquisadores que dedicam suas vidas a descrever e entender esse fenômeno tão cativante. Ainda há muito chão para se andar nas línguas já conhecidas, bem como terrenos não explorados no estudo das técnicas de assovio ainda não descritas.

            Porém, tudo isso parece uma corrida contra o relógio. Muitas línguas assoviadas estão moribundas, com poucos assoviadores vivos e ainda menos ativamente usando suas línguas assoviadas. Várias já estão mortas, destruídas por mudanças na forma de viver dos povos originários que as usavam. É difícil justificar assoviar quando podemos facilmente pegar o telefone ou um rádio e ligar, e os contextos onde o assovio era mais valioso, como durante a caça, somem com a destruição do meio ambiente que permitia tal prática.

            Algumas línguas sobrevivem ao se adaptar. O Espanhol assoviado de La Gomera se tornou patrimônio cultural da ilha: jornalistas e pesquisadores viajam para a ilha, estudam os assovios de seus habitantes, os divulgam para o mundo e atraem turismo para a região; restaurantes locais dão demonstrações, guias turísticos fazem questão de se comunicar com locais no caminho por meio de assovios. Em outro momento, o Espanhol assoviado foi uma forma de resistência à ditadura de Franco: quando a polícia vinha à ilha fiscalizar suas produções, os locais eram capazes de divulgar os movimentos dos agentes por meio de assovios, tendo certeza de esconder tudo e todos que eram procurados pelos soldados do ditador.

            O Turco assoviado tomou um caminho diferente: não há levas de turistas viajando ao leste Turco para conhecer a pequena vila, mas há competições locais de assovio, trazendo prestígio local ao vencedor e ressignificando a prática dentro do povo (DW News, 2010).

            Estudar línguas assoviadas hoje em dia exige uma multi-competência do pesquisador: tem de ser linguista, para entender o sistema com qual se depara; antropólogo, para entender sua posição e valor dentro da cultura onde está inserida; publicitário, divulgando essa língua para o mundo a fim de mostrar que ela existe; e ativista, lutando para preservar o que resta dela.

Leia mais:

Meyer, J. (2015). Whistled Languages. Springer Berlin Heidelberg. https://doi.org/10.1007/978-3-662-45837-2

Para quem se interessar em pesquisar a fundo línguas assoviadas, esse livro é o ponta-pé inicial perfeito. Ele foi escrito como uma descrição geral do que nós entendemos por língua assoviada, onde podemos encontrar essas línguas, como elas são parecidas ou diferentes uma da outra, as questões ecológicas relacionadas ao surgimento delas e resumo de todos os estudos feitos até então.

Busnel, R.-G., & Classe, A. (1976). Whistled Languages (Vol. 13). Springer Berlin Heidelberg. http://link.springer.com/10.1007/978-3-642-46335-8

Este livro serve como uma inauguração formal dos estudos de língua assoviada de uma perspectiva linguística. Foi o primeiro esforço de compilar o conhecimento até o momento e explicar do que se tratam línguas assoviadas.

Kouneli, M., Meyer, J., & Nevins, A. (2013). Whistled languages: Including Greek in the continuum of endangerment situations and revitalization strategies. In Keeping Languages Alive: Documentation, Pedagogy and Revitalization (1st ed.). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9781139245890

Para se entender o estado em que encontramos as línguas assoviadas, é necessário entender como o mundo mudou em torno delas, tecnologicamente e politicamente. Este artigo foca justamente nisso e estabelece um caminho a trilhar com o objetivo de documentar e, possivelmente, preservar uma língua assoviada.

Infelizmente foram encontrados somente dois trabalhos acadêmicos publicados em português a respeito do assunto até agora:

Aytai, D. (1979, February). A linguagem de assobio dos índios Bororo e Karajá. Museu Municipal de Paulínia.

Brasileiro, G. da C. M. (2025). Assovio e línguas assoviadas: Estudos a partir de uma perspectiva fonética [Masters, USP]. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-24062025-144241/pt-br.php

Bibliografia:

Azola, A., Palmer, J., Mulheren, R., Hofer, R., Fischmeister, F., & Fitch, W. T. (2018). The physiology of oral whistling: A combined radiographic and MRI analysis. Journal of Applied Physiology, 124(1), Article 1. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00902.2016

Bagemihl, B. (2010). Alternate phonologies and morphologies. https://doi.org/10.14288/1.0097954

Belyk, M., Schultz, B. G., Correia, J., Beal, D. S., & Kotz, S. A. (2019). Whistling shares a common tongue with speech: Bioacoustics from real-time MRI of the human vocal tract. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 286(1911), Article 1911. https://doi.org/10.1098/rspb.2019.1116

Brasileiro, G. da C. M. (2025). Assovio e línguas assoviadas: Estudos a partir de uma perspectiva fonética [Masters, USP]. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-24062025-144241/pt-br.php

Busnel, R.-G., & Classe, A. (1976). Whistled Languages (Vol. 13). Springer Berlin Heidelberg. http://link.springer.com/10.1007/978-3-642-46335-8

Carreiras, M., Lopez, J., Rivero, F., & Corina, D. (2005). Neural Processing of a Whistled Language. Nature, 433(7021), 31–32. https://doi.org/10.1038/433031a

DW News. (29, July 2010). Kusköy, Turkey – the whistling village | European Journal / YouTube. https://youtu.be/P0aoguO_tvI?si=Jrrq2UUPkSC1Rvd9

Güntürkün, O., Güntürkün, M., & Hahn, C. (2015). Whistled Turkish alters language asymmetries. Current Biology, 25(16), Article 16. https://doi.org/10.1016/j.cub.2015.06.067

Kaburagi, T., Shimizu, T., & Uezu, Y. (2018). A morphological and acoustic analysis of the vocal tract during the act of whistling. Acoustical Science and Technology, 39(3), 198–206. https://doi.org/10.1250/ast.39.198

Kouneli, M., Meyer, J., & Nevins, A. (2013). Whistled languages: Including Greek in the continuum of endangerment situations and revitalization strategies. In Keeping Languages Alive: Documentation, Pedagogy and Revitalization (1st ed.). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9781139245890

Marzoli, D., & Tommasi, L. (2009). Side biases in humans (Homo sapiens): three ecological studies on hemispheric asymmetries. Naturwissenschaften, 96(9), 1099–1106. https://doi.org/10.1007/s00114-009-0571-4

Meyer, J. (2015). Whistled Languages. Springer Berlin Heidelberg. https://doi.org/10.1007/978-3-662-45837-2

Mussa, H. (2010). An analysis of the Greek whistled vowels of Evia (village of Antia) [Master’s]. University College London.

Nevins, A. (2015). Triumphs and limits of the Contrastivity-Only Hypothesis. Linguistic Variation, 15(1), 41–68. https://doi.org/10.1075/lv.15.1.02nev

Rialland, A. (2005). Phonological and Phonetic Aspects of Whistled Languages. Phonology, 22(2), Article 2.

Russo, M., & Katsiouris, S. (2025, February). Identity of vowel—Consonant transitions in Sfyria [Oral presentation]. XXI convegno annuale AISV, Urbino, Italy.

Shadle, C. H. (1983). Experiments on the acoustics of whistling. The Physics Teacher, 21(3), Article 3. https://doi.org/10.1119/1.2341241

Shigetomi, T., & Mori, M. (2016). Principles of sound resonance in human whistling using physical models of human vocal tract. Acoustical Science and Technology, 37(2), Article 2. https://doi.org/10.1250/ast.37.83

Sicoli, M. A. (2016). Repair organization in Chinantec whistled speech. Language, 92(2), Article 2. https://doi.org/10.1353/lan.2016.0028

Wilken, G. C. (1979). Whistle speech in Tlaxcala (Mexico). 881–888.


  1. Enquanto neste texto é usada a grafia “assoviar”, pode-se encontrar também “assobiar” e “língua assobiada”. ↩︎
  2. Todas as línguas do mundo são entendidas como tonais ou não-tonais. A língua tonal mais falada do mundo é o mandarim, idioma oficial da China. Nela e em outras línguas deste tipo o tom de voz muda o significado da palavra: “mā”, falado como se estivesse cantando, quer dizer “mãe”, enquanto “mà”, falado de forma curta, como se tivesse um ponto final logo depois da sílaba, quer dizer “dar bronca”. O português é uma língua não-tonal. ↩︎
  3. Seriam cinco vogais, /i/, /e/, /a/, /o/ e /ɨ/, essa última é como se fosse algo entre um “i” e um “u”, e as versões nasalizadas dessas mesmas.  ↩︎
  4. Porque o ouvido direito é melhor para entender língua se é o lado esquerdo do cérebro que processa a maior parte da fala é algo que até hoje não entendemos bem, porém há múltiplos estudos sobre assimetrias como esta (Marzoli et al. 2009). ↩︎

(Baixe a versão em PDF do texto aqui)

[Outros textos de divulgação: leia aqui].


FICHAS CATALOGRÁFICAS:

B73a ㅤBRASILEIRO, Gabriel C. M.

ㅤㅤ­­ㅤAssoviando rumo ao fim: línguas assoviadas, como elas funcionam e por que lutam para sobreviver / Gabriel C. M. Brasileiro, Julien Bismuth, Andrew Nevins – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025.

ISSN: 3086-2086

ㅤㅤㅤ1. Assovio  2. Linguagem 3. Sistema de comunicação
ㅤㅤㅤl. Brasileiro, Gabriel C. M. ll. Bismuth, Julien lll. Nevins, Andrew llll. título

ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.9
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 81’322


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