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Quando a gramática explica a piada…

Maria Cristina Figueiredo Silva (UFPR) (Publicado em 26/05/2025) Resumo: Este texto vai explicar duas piadas em português brasileiro que só podem ser interpretadas se o leitor entender seu fundo gramatical. O nosso objetivo é mostrar quanto de gramática qualquer falante da língua sabe (independentemente de saber alguma teoria gramatical) a fim de interpretar um certo…

Maria Cristina Figueiredo Silva (UFPR)

(Publicado em 26/05/2025)

Resumo: Este texto vai explicar duas piadas em português brasileiro que só podem ser interpretadas se o leitor entender seu fundo gramatical. O nosso objetivo é mostrar quanto de gramática qualquer falante da língua sabe (independentemente de saber alguma teoria gramatical) a fim de interpretar um certo tipo de piada que se conta no Brasil. Vamos utilizar um pouco de nomenclatura gramatical e vamos usar as piadas também para mostrar os limites que a nossa educação escolar tem em nos dar ferramentas que de fato deem conta de certos fatos linguísticos. De quebra, mostramos que as piadas em português brasileiro não funcionariam em português europeu, que é uma língua diferente não só pela sua pronúncia, mas sobretudo por certas propriedades gramaticais.

Dizem que explicar a piada tira toda a graça dela. Mas a verdade é que tem piada que a gente não sabe explicar por que é engraçada e, portanto, a gente não teria como explicar mesmo… Sim, tem piada de tudo quanto é jeito e, por isso, a fonte do riso pode ser muito variada; mas esse texto aqui quer falar de piadas mais propriamente gramaticais, que só têm graça porque a gente conhece muito bem a língua que fala, independentemente dos termos técnicos que a gente precisaria dominar pra montar uma explicação sobre elas…

            Uma das piadas que vamos examinar aqui tem a forma de um diálogo:

Duas crianças estão conversando e uma delas diz:

            – Você sabe o que o meu pai me falou? Que a caixa-preta do avião é laranja!

Ao que a outra criança responde:

            – Ah, vá! Não me diz que não é caixa!

Vamos supor que você achou a piada engraçada! Onde está a graça dela?

            Bom, à primeira vista, é fácil explicar: a segunda criança não entende que laranja é uma cor, como preta, e toma laranja como um substituto de caixa. A graça vem da hipótese absurda: como laranjas poderiam conter informações sobre o voo de um avião, que é o que significa caixa-preta?

            Mas é interessante pensarmos um pouco no que torna possível essa piada. Repare que trocar a cor laranja pela cor branca não teria o mesmo impacto, e a razão é que branca em princípio não pode fazer referência a uma coisa, só a uma propriedade da coisa.

Seria possível trocar laranja por outras cores: abóbora ou violeta seriam possibilidades, certo? Verdade, mas não tem muitas outras possibilidades não… E o que essas palavras têm em comum com laranja? Bingo: é o fato de poderem se referir a coisas no mundo, coisas que têm uma propriedade notável, que é exatamente sua cor particular.

            Aqui começa a fazer sentido falar de gramática. Todo mundo lembra de ter aprendido na escola as tais das “classes de palavras”, mas talvez nunca tenha ficado muito claro por que seria preciso dividir as palavras em classes e muito menos e por que as classes deveriam ser aquelas e não outras quaisquer. Bom, precisar dividir as palavras em classes é mais ou menos como arrumar os documentos que a gente tem em diferentes gavetas: a gente arruma porque sabe que vai precisar deles em horas diferentes e que é melhor saber onde estão os documentos da casa, ou onde estão os documentos da escola, pra não precisar dar geral em todas as gavetas cada vez que você precisa achar um papel, certo? Agora, uma coisa é certa: se é mesmo preciso dividir as palavras em classes porque a gente identifica características e momentos de uso diferentes para elas, o que a gente esperaria é que cada palavra fosse encaminhada para uma classe e só pra ela. Ter a mesma palavra em várias classes bagunça o enredo do samba, né? Pois é…

Ora, desde pelo menos os gregos, sabemos que existem palavras que fazem referência a um objeto no mundo (algum mundo, que pode ser também o mundo dos conceitos), como mesa, abacaxi, bondade ou especulação – vamos dizer que essas palavras integram a classe dos substantivos, que aqui chamaremos de nomes; por outro lado, temos palavras que exprimem propriedades de coisas, como bom, inteligente, branco ou redondo – podemos dizer que essas palavras integram a classe dos adjetivos.

O que tem de interessante nessa piada é que ela explora o fato de existirem palavras que podem estar seja numa classe, seja na outra: laranja, por exemplo, pode ser usada como um nome, para fazer referência a uma fruta, mas também pode ser usada como um adjetivo, que exprime uma qualidade específica, uma cor, típica da fruta a que o nome se refere.

Então, de quebra, a piada nos ensina que, embora seja útil a ideia de que as palavras se comportam diferentemente com respeito ao que elas fazem (fazer referência a um objeto ou exprimir uma propriedade de um objeto, por exemplo), não parece muito boa a ideia de que as classes de palavras são como as gavetas, definidas de uma vez por todas, porque a nossa piada brinca exatamente com o fato de que uma mesma palavra pode fazer diferentes coisas, dependendo um pouco de com quem ela se combina… As teorias linguísticas modernas vão se basear nesses fatos para propor uma teoria mais interessante que a de classes de palavras lá dos estudos tradicionais, mas, para o que nos interessa aqui, que é explicar a piada, basta notar que todo falante da língua sabe dessa “vida dupla” de palavras como laranja.

Só que esse não é o único segredo da graça dessa piada. Na verdade, a piada só é possível pela existência de outra propriedade das línguas humanas, o português brasileiro entre elas, que é a de poder juntar palavras que, isoladamente, têm um determinado significado, mas que, quando juntas, adquirem uma outra significação, não necessariamente relacionada com os significados das palavras isoladas que as compõem. O termo técnico dos estudos tradicionais de gramática que adotaremos aqui para falar dessa junção de palavras é palavras compostas.

É verdade que nem sempre é o caso de a palavra composta se distanciar muito em termos de significado das palavras componentes: pombo-correio, por exemplo, faz referência a um pombo que leva e traz mensagens, uma atividade própria dos correios; aqui podemos falar que o significado final é composicional, isto é, formado a partir da soma (ou da “composição”) dos significados das partes; por outro lado, amor-perfeito é uma flor, que não se relaciona nem com o amor e nem com a propriedade da perfeição de maneira direta. Aqui o significado final é absolutamente não composicional. Mas o que dizer do caso de caixa-preta? O significado da palavra composta tem alguma coisa, sim, a ver com caixa (o equipamento afinal está dentro de algum tipo de invólucro que, com alguma boa vontade, podemos identificar com uma caixa); no entanto, a palavra composta tem um significado não diretamente ligado aos significados de caixa e preta tomados isoladamente: a característica fundamental de uma caixa-preta (de avião) não é ser uma caixa (preta ou de qualquer outra cor), mas ser um equipamento que registra as informações de um voo, muito útil no caso de um acidente aéreo.

Foto de dois modelos de caixa-preta (do site TechTudo acessado em 19/05/2025; disponível em https://www.techtudo.com.br/listas/2023/10/qual-a-cor-da-caixa-preta-do-aviao-5-curiosidades-sobre-o-dispositivo-edinfoeletro.ghtml

E aqui está a outra fonte de riso da piada: a primeira criança toma o significado de caixa-preta como composicional (que parece ser a crença que o pai da primeira criança está tentando desconstruir). Mas se caixa-preta é uma caixa que é preta, então laranja não pode ser um adjetivo – a cor da caixa, que a segunda criança já tomou como preta. Desse modo, laranja só pode ser um nome, que faz referência a um objeto do mundo, do mesmo modo que caixa, e por isso faz todo o sentido do mundo substituir um pelo outro, não é verdade?

A piada perdeu a graça agora? Não, vai, ficou ainda mais engraçada…

          Há outros tipos de piadas linguísticas que exigem algum tipo de conhecimento gramatical como a piada anterior, mas que colocam em jogo também outros tipos de conhecimento. Uma piada já antiga e muito conhecida é formada por um diálogo também, desta vez entre dois adultos, talvez um brasileiro (que pergunta) e um português (que responde) ou dois portugueses:

            – Por que o Manuel sempre está com o pé esquerdo sujo?

            – É porque a Maria sempre diz pra ele: “lava o pé direito, Manuel!”.

            De onde vem a graça dessa piada? Dito informalmente, vem da possibilidade de interpretar direito seja como um modo de lavar o pé (que então poderia ser substituído por corretamente ou simplesmente bem) ou como uma propriedade que um pé tem de ser o pé direito (e não o pé esquerdo). Se a gente quiser falar disso usando aquela mesma noção de classes de palavras que mencionamos antes, a gente diria que direito pode ser um “modificador” de um grupo verbal inteiro (no caso, o grupo verbal seria lavar o pé, que ele “modifica” dizendo mais ou menos como aquilo tudo deve ser feito); na tradição gramatical, esse tipo de “modificação” recebe o nome de advérbio. Mas direito também pode ser um “modificador” de um nome (no caso, apenas pé), e daí seu nome técnico é novamente adjetivo – repare que estamos novamente falando de uma propriedade que um pé pode ter, que é ser o pé direito.

Portanto, aqui também a piada depende crucialmente da possibilidade de uma mesma palavra poder figurar em duas classes de palavras diferentes – a dos advérbios ou a dos adjetivos – e, novamente, a Linguística moderna tem uma coisinha mais interessante pra dizer aqui, porque talvez não sejam mesmo duas classes diferentes, já que o que a palavra está fazendo é fundamentalmente a mesma coisa, que é “modificar” seja um verbo (ou um grupo verbal), seja um nome (ou um grupo nominal). Mas vamos deixar barata essa conversa aqui… Para o que nos interessa neste momento, que é a explicação da piada, a questão é que, quando a Maria manda o Manoel lavar o pé direito, ela quer que ele interprete direito como um advérbio (o modo de lavar o pé), mas a interpretação que ele dá para direito é a de um adjetivo (uma propriedade que um dos pés tem) e por isso, obedecendo a ordem da Maria, o outro pé não é jamais lavado.

            Mas tem mais uma propriedade gramatical que também é essencial para a piada dar certo: deve existir alguma flexibilidade na ordem das palavras na frase, porque se o advérbio for colocado logo depois do verbo, como em lavar direito o pé, era uma vez a piada! Essa ordem de palavras elimina a possibilidade de interpretar direito como um adjetivo, ligado exclusivamente a pé. Sim, essa não é uma propriedade gramatical exclusiva desse advérbio, porque os advérbios em geral têm bastante liberdade de colocação nas frases, embora às vezes trocar esses itens de posição implique em mudar o sentido da sentença (pense no contraste entre o menino inteligentemente respondeu as perguntas e o menino respondeu as perguntas inteligentemente: com entoação contínua, só a primeira frase aceita uma continuação como de maneira tosca…).

            Agora, o que é mais interessante aqui é que essa é definitivamente uma piada brasileira sobre os portugueses, no sentido de que ela é construída em português brasileiro… e só faz sentido em português brasileiro mesmo!  Muita gente se ilude porque a gente chama a língua falada no Brasil e a língua falada em Portugal de português, e, como temos um vocabulário comum extenso, é fácil pensar que é a mesma língua, ainda mais quando a grande e a pequena mídia dizem que sim, tudo é português, às vezes reconhecendo que a diferença na pronúncia é de fato notável – “os sotaques são diferentes”, dizem os defensores de um único português. Porém, é possível mostrar que as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu vão muito além de uma diferença de pronúncia e de algumas poucas palavras. Quer ver?

Para expressar o mesmo significado que a frase do português brasileiro tem quando direito é um advérbio – lave direito o pé, Manuel! –, os portugueses, isto é, os falantes de português europeu, escolheriam a frase lave bem os pés, Manuel!, com o advérbio bem. E a ordem das palavras  não poderia ser outra senão essa! Portanto, pra começar a conversa, a escolha mesma do advérbio na frase seria outra.

            Mas há uma segunda diferença entre essas duas línguas que inclusive é fundamental para a piada existir: em português brasileiro, mas não em português europeu (como de resto em outras línguas românicas também), é possível usar a forma singular de palavras que façam referência a partes do corpo (como mão, pé, perna, etc…) e assim mesmo a interpretação é plural. Quando uma mãe fala pro filho: vai lavar a mão antes de almoçar!, seguramente ela está querendo que ele lave as duas mãos. Vale o mesmo para a frase da nossa piada: lave o pé direito!, em português brasileiro, quer dizer ‘lave os pés direito!’ – parte da graça da piada vem justamente dessa interpretação esdrúxula que o Manuel dá a ela, deixando um dos pés de fora da lavagem. No entanto, em português europeu, o uso do singular, pé, só poderia ter a interpretação de apenas um pé mesmo, nunca os dois. Para obter essa interpretação plural, o português europeu teria que necessariamente usar a forma gramatical plural: os pés

            E agora me diz: você já tinha pensado alguma vez na vida que é porque você sabe gramática (mesmo sem saber os nomes dos bois!) que você entende certas piadas?


FICHA CATALOGRÁFICA

S575ㅤSILVA, Maria Cristina Figueiredo
ㅤㅤㅤQuando a gramática explica a piada… / Maria Cristina Figueiredo Silva – Curitiba, Paraná: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025. 1 p.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤㅤ1. Português brasileiro 2. Gramática 3. Piadas
ㅤㅤㅤI. Silva, Maria Cristina Figueiredo II. Quando a gramática explica a piada…
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 401.1:808.8


SAIBA MAIS:

– se você quer saber mais sobre efeitos de humor e piadas em geral, o professor da Unicamp, Sírio Possenti, tem uma gama de textos falando sobre isso, como o livro Os humores da língua – análises linguísticas de piadas, publicado em 1998 pela editora campineira Mercado de Letras. Um texto desse mesmo autor que você pode consultar sem ter que comprar nada está na Revista DELTA de 2019. A referência completa é:

Possenti, S. (1991). Pelo humor na lingüística. DELTA: Documentação E Estudos Em Linguística Teórica E Aplicada7(2).

Recuperado de https://revistas.pucsp.br/index.php/delta/article/view/45996

– se você se interessa pela língua e por essa capacidade que todos temos de saber como a língua funciona mesmo tendo sido péssimo aluno de português em todos os anos escolares, você está no lugar certo, porque muitos textos que aparecem aqui no Nós da Linguística falam exatamente sobre isso. Um exemplo é o texto das professoras Adriana Leitão e Ana Regina Calindro, falando sobre ambiguidade, intitulado “Um texto de


(Baixe a versão em pdf do texto)

[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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