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“Meu nome é FELIPE, mas meu amigo me chama VELIBE”: sobre quando a língua vira brincadeira!

Felipe Vital (Doutorando PPGLIN/UFRJ) (Publicado em 28/04/2025) RESUMO: Neste texto, trataremos dos “jogos de linguagem” que se caracterizam pela transformação da estrutura sonora da palavra com a finalidade de esconder a mensagem, provocar risadas, marcar pertencimento identitário a um grupo social, evidenciar ponto de vista dos interlocutores ou mesmo brincar. Se você já ouviu falar…

Felipe Vital (Doutorando PPGLIN/UFRJ)

(Publicado em 28/04/2025)

RESUMO: Neste texto, trataremos dos “jogos de linguagem” que se caracterizam pela transformação da estrutura sonora da palavra com a finalidade de esconder a mensagem, provocar risadas, marcar pertencimento identitário a um grupo social, evidenciar ponto de vista dos interlocutores ou mesmo brincar. Se você já ouviu falar sobre a “língua-do-pê” (anexar uma sílaba “pê” acompanhando cada sílaba das palavras em português: casa →pecapesa) ou no “verlan” (inverter as sílabas das palavras em francês:  moto →tomo “motocicleta”), é a esse “jogo de linguagem” que este texto se refere. Estas inovações linguísticas se manifestam pela relação direta entre os componentes morfológico (estrutura interna à palavra e os processos de formação) e fonológico (estrutura sonora das línguas) da estrutura linguística, tal como os chamados “processos não-concatenativos de formação de palavras”.

Introdução

            O filósofo Sylvain Bromberger e o linguista Morris Halle, em 1992, publicaram um texto chamado “Ontologia da fonologia”. No texto, os autores contestam a tradição ocidental de filosofia da linguagem em focar nos aspectos semânticos (ou seja, no componente de gramática responsável pelo sentido), ignorando fatos linguísticos que são estudados pela fonologia (no componente de gramática responsável pelo som) e se mostram essenciais à constituição da linguagem em si mesma.

            No contexto ocidental da filosofia da linguagem do século XX, um dos grandes nomes que se pode mencionar é Ludwig Wittgenstein. O filósofo, analisando a realidade prática da comunicação, concebe a linguagem humana como um “jogo”. Falar uma língua é, então, uma ação que dá sentido à linguagem. Assim, pelo menos dois sujeitos exercem uma atividade prática sob determinadas condições estruturais, respeitando um conjunto compartilhado de regras desse jogo (da linguagem).

Pense, por exemplo, numa partida de xadrez, em que dois jogadores atuam, de forma conjunta e sincronizada, de acordo com as regras que regulam o que se entende por uma partida de xadrez…

fonte: https://brasilescola.uol.com.br/educacao-fisica/xadrez.htm

Dentro da teoria linguística, desde os anos 60 do século passado, o conceito “jogos de linguagem” assume outra acepção (noção) paralela à cunhada pelo filósofo austríaco. Esta nova acepção foi também rotulada como “ludling” (uma composição de origem latina em que: “lud” vem de “ludus” e “ling” vem de “liguae”). Se você já ouviu falar sobre a “língua-do-pê” (colocar uma sílaba “pê” acompanhando cada sílaba das palavras em português: casa→pecapesa) ou no “verlan” (inverter as sílabas das palavras em francês:  moto→tomo “motocicleta”), é desse tipo de “jogo de linguagem” que estamos falando aqui!

Vale destacar que, embora a palavra “ludling” tenha se originado pela composição de bases latinas, a autoria é de um linguista australiano (anglófono) chamado Don Laycock, em 1965 (tendo a primeira publicação relevante no ano de 1972). Em português, aparecendo em publicação pela primeira vez no texto Vital & Balduino (2024), a tradução é “ludolínguas”, ou seja, “língua lúdica”.

Os jogos de linguagem, no sentido dos ludlings, são oriundos de tipos específicos de manipulação de porções fonológicas de palavras de uma dada língua natural (ou seja, português, mandarim, espanhol, etc.) exercendo, sobretudo, função pragmática, isto é, está primariamente a serviço do uso linguístico e das relações comunicativas contextuais estabelecida entre interlocutores.

Essas manipulações são usadas com finalidade ora de provocar risadas, ora a de esconder a mensagem de alguém que não faz parte do contexto social dos interlocutores, ora a de servir como instrumento de coesão social, como uma marca identitária, ou até mesmo de servir como veículo de expressão de ponto de vista do interlocutor.

Sobre ludolínguas (vs. jogos de linguagem de Wittgenstein)

            Até aqui, vimos que há duas noções atreladas ao conceito “jogos de linguagem”. Isso é mais ou menos como dois tipos de refrigerante distintos associados a um mesmo rótulo da garrafa. Uma noção vinda da filosofia da linguagem e com ênfase na significação; a outra noção, própria da teoria linguística e com ênfase na estrutura sonora. Esta segunda acepção coincide com o universo das ludolínguas (i.e ludlings).  De acordo com Bruce Bagemihl (1995), estas são línguas com características morfológicas (ou seja, particularidades que dizem respeito à constituição interna à palavra) específicas, as quais são:

  1. morfologia limitada a uma ou duas operações formais;
  2. morfologia limitada a poucos afixos, quando os têm;
  3. morfologia semanticamente inerte.

Pelo ponto a., entendemos que as palavras em ludolínguas são formadas por um ou dois processos de formação (inversão; substituição; molde; afixação). No que diz respeito ao ponto em b., ludolínguas têm poucos, não mais que dois, morfemas (unidade mínima de significado e/ou função dentro de uma palavra) próprios. No ponto em c., por “morfologia semanticamente opaca”, o autor diz respeito ao fato de que a formação de palavras em ludolínguas não contribui semanticamente de modo distintivo em relação à forma da qual é originada, ou seja, o significado é praticamente o mesmo antes e depois do processo de formação.

Bagemihl (1995) acrescenta que, nos anos 60 do século passado, muitos linguistas se sentiam avessos a estas inovações porque tais construções linguísticas apresentam limitação sociolinguística, número reduzido de falantes, número reduzido de formas de base, bastante variação entre falantes (e até mesmo de um mesmo falante) e, portanto, pouca preditibilidade (maior dificuldade de explicação em termos de propriedades fundamentais).

Ainda segundo Bagemihl (1995), ludolínguas estão presentes em quase todas as línguas naturais (se não em todas), o que representa o rico potencial de variação linguística inerente também a estes jogos de linguagem se se considera que ludolínguas são formas alternativas de dizer uma dada palavra em uma língua. Por outro lado, se se considera que são gramáticas distintas das línguas naturais de que emergem, esta “onipresença” das ludolínguas joga luz sobre o potencial de criatividade linguística para além das línguas naturais em si e sobre as (des)preferências estruturais por trás desta criatividade. Estas duas perspectivas teóricas (ludolíngua como forma diferente de dizer a mesma coisa (casa ~ pecapesa) vs ludolíngua como gramática autônoma (≠ língua base)) mostram o quanto os estudos sobre as propriedades linguísticas das ludolínguas floresceram desde os anos 60.

Podemos dizer que as ludolínguas têm como propriedade fundamental o fato de que, ao mesmo tempo em que recorrem à metalinguagem (no sentido de emergirem, em parte, de uma escolha consciente de como manipular porções sonoras de palavras da língua materna), manifestando a consciência linguística (fonológica), também requerem a manipulação inconsciente do conhecimento linguístico sobre a própria língua que os falantes têm internalizado desde o processo de aquisição de linguagem (no sentido de tomarem como básicas as estruturas fonológicas que usamos corrente e prosaicamente ao falar português com nossos amigos, por exemplo), como manifestação da competência linguística (fonológica).

Estas observações certamente abrem espaço para uma pergunta sobre quais são os padrões formais (ou seja, dos processos de formação) a partir dos quais palavras em ludolínguas são formadas. Esta pergunta foi respondida por vários autores, entre os quais Bagemihl (1995), ao desenvolver uma tipologia das ludolínguas.

Outra observação interessante a respeito das ludolínguas é a capacidade de fornecer ainda mais respostas sobre os limites estruturais da linguagem humana, ou seja, quais são as restrições que a biologia aplica sobre o que humanos fazem em termos linguísticos, ajudando no debate sobre as “línguas impossíveis” (ou, no que diz respeito exclusivamente ao componente sonoro das línguas, sobre os “universais linguísticos fonológicos” (ver Nevins (2010)).

Sabemos, por exemplo, que, se de fato existir, o conjunto de línguas que não têm consoantes ou que não têm vogais é quantitativamente irrelevante comparado ao grupo contrário. Agora, de acordo com Bagemihl (1989), no caso das ludolínguas de inversão (como o verlan, do francês, ou a gualin do ttk, do português brasileiro), numa palavra com quatro sílabas na estrutura [1234], a inversão nunca acontece entre as sílabas internas apenas, deixando as sílabas das bordas intactas, proibindo algo como [1234] → [1324].

Essa proibição se constitui como evidência de uma tendência já atestada em estruturas linguísticas de línguas naturais: determinadas posições na estrutura são mais proeminentes (no sentido de serem mais relevantes, salientes a nível de processamento linguístico) do que outras. Entre as mais relevantes, estão as posições de bordas (primeiro e último).

Uma vez que uma língua como inglês, francês, árabe ou qualquer outra língua natural não contém palavras ou frases impossíveis, além do fato de que a manipulação da estrutura sonora é mais limitada nas línguas naturais, as estruturas preferidas e as proibidas em ludolínguas constituem rica fonte de respostas para perguntas biolinguísticas (problemas de pesquisa que surgem nos limites entre a biologia e a linguística), sobretudo no que se refere aos limites estruturais da linguagem humana.

Do ponto de vista dos componentes linguísticos, essas duas acepções (ou seja, “jogos linguísticos” enquanto proposto por Wittgenstein ou “jogos linguísticos” como ludolínguas) são distintas entre si, uma vez que, para Wittgenstein, “jogos de linguagem” estão associados ao componente semântico (sentido linguístico) enquanto “jogos de linguagem” como “ludlings” são criações dentro do componente fonológico (som linguístico) da linguagem. Por outro lado, falar uma língua e jogar um jogo como passa-anel, poker ou qualquer outro são coisas superficialmente iguais, já que, em ambos os casos, há a participação de duas ou mais pessoas interagindo com base em um conjunto de regras compartilhadas pelas partes.

Sobre este último ponto, o linguista italiano Andrea Moro (2017), debatendo sobre as línguas impossíveis – ou seja, línguas produzidas a partir de demandas biológicas e linguísticas diferentes das demandas que atuam na formação das línguas naturais (cinta-larga, russo, finlandês e etc) -, traz a ideia de que, enquanto pesquisas acerca dos fundamentos psicológicos do poker mostram-se buscas relevantes, investigar os fundamentos biológicos do poker, pique-pega e amarelinha é algo, no mínimo, despropositado.

A capacidade linguística que nos permite dominar alguma (ou até mais de uma) língua com a maestria que fazemos, por sua vez, é uma dotação biológica da espécie humana, mesmo que esta capacidade seja despertada no contexto cultural no qual se está inserido no período da aquisição da linguagem. Crianças começam a estruturar frases simples na sua língua materna entre mais ou menos 2 e 3 anos de idade, independentemente de qual língua seja e de qual contexto cultural estejam inseridas.

Ainda na esteira do linguista italiano, as línguas naturais, portanto, nos fornecem evidências que justificam investigações sobre os fundamentos biológicos da capacidade linguística humana, mesmo sendo culturalmente compartilhadas. Um jogo como telefone-sem-fio, pique-pega ou qualquer outro é apenas um produto culturalmente compartilhado, não tendo um fundamento biológico consistente. Todos os povos falam uma língua adquirida pelos seus falantes mais ou menos na mesma idade, mas nem todos os povos têm, por exemplo, o jogo de futebol como um elemento relevante.

Tipos de ludolínguas (em outras línguas)

            De acordo com Bagemihl (1995, p. 2), existem quatro processos de formação de palavras em ludolínguas ((a) afixação, (b) molde, (c) inversão e (d) substituição), apresentados abaixo:

Processo de formação          exemplo em outra língua

(a) afixação:                                tigrinya

(b) molde:                                   amárico

(c) inversão:                               tagalo

(d) substituição:                         cuna

No que diz respeito ao primeiro padrão de ludolínguas, um infixo (uma espécie de prefixo/sufixo que é anexado no interior da palavra) no formato de sílaba –gV– (consoante [g] + uma Vogal copiada da sílaba da palavra base) é acrescentada ao lado de cada uma das sílabas da palavra base em tigrinya, uma língua semítica afro-asiática. Este processo de formação de palavras em ludolínguas caracteriza um exemplar brasileiro conhecido, chamado de “língua-do-pê” (que apresentaremos à frente).

Como se pode ver, a identidade de V se materializa pela cópia da vogal da sílaba à esquerda em tigrinya:

bi.t͡sa (amarelo) → bi.gi.t͡sa.ga (os pontos finais indicam separação de sílaba).

Sobre o padrão em (b), na língua semítica etíope chamada amárico, o molde que caracteriza a ludolíngua em questão é Cay(C)(C)CC. Os dois (C)(C) intermediários dizem respeito, neste caso, a palavras com três Consoantes. No contexto brasileiro, apresentaremos o “pompeu e godê”, uma ludolíngua que caracteriza um tipo especial de “ludolínguas de molde”, chamados de rhyming slang (“gíria de rima”). Quanto ao amárico, no exemplo bet “casa”, a primeira consoante é copiada para a posição C de “Cay”, enquanto a última consoante ocupa os dois posições CC, sendo duplicada no produto de ludolíngua. No contexto desta duplicação, uma vogal [ə] interveniente, tipicamente átona, entra na estrutura por um processo chamado epêntese:

bet → bay(C)(C)tət (neste exemplo, as posições (C)(C) não são preenchidas, resultando na palavra baytət).

O terceiro padrão, presente em tagalo, uma língua falada na República das Filipinas, refere-se a uma inversão dos segmentos da palavra base. Dos três tipos descritos até o momento, certamente este terceiro é o mais distante em relação à realidade de processos morfológicos e fonológicos nas línguas naturais. Isto é, o número de línguas naturais que inverte as sílabas/os segmentos das palavras como forma de expressar informação morfológica é bastante escasso. O Brasil tem uma ludolíngua “prima” da ludolíngua em tagalo, chamada de “Gualin do ttk”. Existe um número limitado de subtipos de inversão. Assim, em relação à inversão em tagalo, temos:

puti (branco(a)) → itup (inversão total de segmentos)

Por último, o padrão de “substituição”. Na língua panamenha cuna, há uma ludolíngua que se caracteriza pela substituição da vogal que ocupa o núcleo silábico pela vogal [i]. Tal como os outros processos de formação apresentados, no que diz respeito à “substituição”, o Brasil também tem um representante, chamado de “lingua-do-i”, que apresentaremos na próxima seção. Assim como o primeiro e o segundo padrões, este último padrão deriva de um fenômeno encontrado produtivamente nas línguas naturais, que é a mudança vocálica em determinados contextos morfológicos (“pôde” (passado) vs “póde” (presente) – mudança na abertura da vogal indica valor morfológico de tempo verbal):

nuka (nome) → niki (caracteriza um tipo especial de “harmonia vocálica”)

A título de curiosidade, a troca no meu nome que meu amigo Otávio Taveira faz seria um tipo de “ludolíngua de substituição”. No caso, ele troca as consoantes (na verdade, há troca de características específicas (também chamadas de “traços fonológicos”) da consoante trocada) da palavra original pelas consoantes mais similares em termos fonéticos (que se distinguem entre si apenas pelo traço sonoro vs. não-sonoro, uma espécie de “irmã gêmea”) correspondentes às originais, quando esta correlação sonoro/não-sonoro existe na língua ([f], [p] (consoantes não-sonoras) → respectivamente: [v], [b] (consoantes sonoras)):

Como vimos, embora as ludolínguas imponham dificuldades para os linguistas devido ao menor grau de preditibilidade em comparação às línguas naturais, estão longe de ser formações aleatórias e estranhas. A regularidade de padrões, o que facilita a tarefa tipológica, e a presença de diversos fenômenos fonológicos convergem para a aplicação de uma análise em direção à explicitação dos princípios gerais por trás destas construções.

Outro ponto interessante é que línguas naturais muito diferentes entre si podem compartilhar os mesmos recursos nas suas respectivas ludolínguas. Dois bons exemplos são o espanhol e o hebraico, línguas estruturalmente bastante afastadas entre si, mas que contêm uma ludolíngua de infixação, respectivamente, Jerigonza e Língua-do-bê. Esta semelhança entre línguas diferentes é um bom argumento em favor da linha argumentativa que defende que todas as línguas naturais resultam de um conjunto de princípios cuja variabilidade é limitada biologicamente.

Jerigonza (espanhol):             quedar ‘ficar em’ → quepedapar [ke.ˌpe.da.ˈpar]

Língua-do-bê (hebraico):       ohev  ‘amar-masc’ → obohebev [o.ˌbo.(h)e.ˈbev]

Como se pode ver nos dados acima, além de o hebraico e o espanhol se valerem de um mesmo padrão de formação de palavras em ludolínguas, o lugar de anexação do infixo em relação à sílaba-fonte em ambas as ludolínguas também é igual: ambos os infixos (espanhol: -pV-; hebraico: -bV-) são inseridas no espaço entre vogal nuclear da sílaba e a consoante de fechamento silábico. Isto fica visível sobretudo em sílabas de formato CVC (Consoante + Vogal + Consoante, como a palavra monossilábica “mar”. Exemplo fictício em português: mar →mabar). Nos exemplos trazidos do hebraico e espanhol, este formato silábico CVC corresponde à última sílaba de ambas as palavras.

Como vimos brevemente, no Brasil, também há um exemplo de ludolíngua para cada um dos quatro padrões encontrados por Bagemihl (1995). Falamos brevemente delas quando apresentamos exemplos de ludolínguas não-brasileiras. Vale destacar aqui que o fato de diferentes países terem o português como idioma oficial não é garantia de que tais países compartilhem as mesmas ludolínguas (e os padrões subjacentes à formação de palavras em ludolínguas). Agora, jogando uma lupa sobre os exemplos brasileiros, que têm o português brasileiro como língua base:

Uma lupa nas ludolínguas brasileiras

            A criatividade brasileira que vemos na infinita produção de memes que ganham espaço nas redes sociais também mundo afora certamente teria uma reverberação propriamente linguística. Como dito, o Brasil contém ludolínguas de todos os tipos descritos por Bagemihl (1995). Relembrando, os tipos são (a) afixação, (b) molde, (c) inversão e (d) substituição:       

padrão de formaçãoludolínguabase (PB)produto ludolíngua
afixação:língua-do-pêlivro                 →lipivropro
molde:pompeu e godêeu1 e vo23     pompeu1 e go23
inversão:gualin do ttkgaroto             →torogá
substituição:língua-do-iengraçado       →ingricidi

Uma variante específica da língua-do-pê, expressa no quadro acima, é parecida com Jerigonza/Língua-do-bê. Uma diferença crucial diz respeito ao lugar em que o infixo: enquanto as ludolínguas de afixação do espanhol e do hebraico anexam seus respectivos infixos entre o núcleo silábico e o fechamento silábico, a língua-do-pê anexa seu infixo –pV– à direita da sílaba, ou seja, depois do fechamento silábico, quando houver. Em comum, as três ludolínguas materializam a vogal V a partir da cópia reduplicativa (c.f Guimarães & Nevins, 2012) da vogal da sílaba com a qual dialoga diretamente (primeira vogal à esquerda do infixo). Outra observação sobre a língua-do-pê, trazida em Araujo (2012) e Vital e Balduino (2024), é que esta ludolíngua tem, pelo menos, três variantes, uma das quais corresponde ao item “lipivropro” em (a) no quadro acima.

Sobre pompeu e godê, ludolíngua de São João Nepomuceno (MG), o molde é estabelecido pela localização da sílaba tônica (mínimo elementar, ou seja, básico necessário) e, às vezes, uma átona adjacente para que o substituto estabeleça o “match fonético” (ou seja, fazer rimar, como “amor e dor” para quem “mora na filosofia”).

Ludolínguas de molde aplicam o processo de enquadrar uma palavra dentro de um formato pré-estabelecido. Fenômenos de formação de palavras com base em “fôrmas sonoras” são comuns às línguas naturais também. Por exemplo, em português brasileiro: dele(gado) + a → delega; vesti(bular) + a → vestiba; presi(dente) + a → presida; vaga(bundo) + a → vagaba)).

Pompeu e godê é uma “rhyming slang” (algo como “gíria de rimas”). Gírias de rima são consideradas um tipo especial de ludolíngua de molde (Bagemihl, 1989; Vital, 2024), em que o escolhido precisa estabelecer o “match fonético”. Portanto, neste tipo de ludolíngua, o molde é a própria rima (tanto a “poética” quanto a “silábica” – enquanto “rima poética” diz respeito à semelhança sonora entre palavras finais dos versos, a “rima silábica” diz respeito a uma categoria dentro da sílaba, em geral ocupada pela vogal nuclear e pelo fechamento silábico). Alguns outros dados desta ludolíngua seguem:

Alvo semântico                →        forma escolhida em Pompeu e godê

(ˈka.ɦʊ) “carro”                →        ca.(ˈta.ɦʊ)

(ɦe.ˈaʊ) – R$ “real”          →        ma.(ɾe.ˈʃaʊ)               

es.(ˈta) “está”                   →        “com.pu.(ˈta)”

(…) = match fonético

Como se vê, a sílaba tônica, indicada pelo “ ˈ ” anteposto, está sempre envolvida, enquanto uma átona adjacente pode ser contabilizada (primeiro e segundo exemplos) ou descartada (terceiro exemplo). Uma característica relevante desta ludolíngua é o alto grau de imprevisibilidade quanto às formas escolhidas. Por exemplo, para “carro”, a escolha poderia ser “barro”, “cigarro”, “amarro” e etc., porém pompeu e godê escolheu “catarro”. Embora seja difícil prever a forma escolhida, o que se pode generalizar, em termos descritivos, é que a palavra que é escolhida para fazer rimar segue o padrão de rima silábica do “alvo semântico”, ou seja, da palavra à qual se pretende fazer referência de fato.

Agora, tratemos da gualin do ttk, uma ludolíngua cuja origem da variante carioca remonta aos bairros Catete, Glória e Lapa, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro, embora se reconheça aqui que existem variantes da “gualin” em diferentes partes do Brasil. O “TTK”, inclusive, é uma inversão da palavra “Catete”, enquanto “gualin” é a inversão da palavra “língua”. Diferentemente do que se viu em tagalo, no caso da ludolíngua brasileira de inversão, o material invertido são as sílabas da palavra.

Na gualin do ttk, no contexto de palavras bases com mais de uma sílaba, o produto tem como característica elementar ser uma palavra oxítona, independentemente da sílaba tônica da palavra base, como se pode ver nos dados abaixo:

  1. casa                →        zaká
  2. café                 →        feká
  3. música            →        kazimú

Como dito anteriormente, este padrão de ludolínguas é formado pelo fenômeno de inversão, ou seja, uma mudança na ordem de precedência das sílabas da palavra base [12(3)] → [(3)21]. Olhando para o comportamento morfológico e fonológico das línguas naturais, este recurso de inversão é extremamente raro. Assim, a inversão em ludolínguas se constitui como o fenômeno mais distante da realidade morfofonológica dos processos produtivos em línguas naturais. Esta distância, por outro lado, faz com que este padrão seja ainda mais interessante ao estudo dos limites estruturais da capacidade linguística humana impostos por restrições biológicas.

Por último, a língua-do-i, a ludolíngua brasileira de substituição trazida aqui, é uma espécie de “cara-crachá” da ludolíngua de substituição na língua cuna. Em ambas, a substituição consiste em transformar a vogal que ocupa a posição de núcleo nas sílabas das palavras pela vogal [i]. A fórmula que generaliza as duas ludolínguas em questão é: Vnuclear[i] (ou seja, nestas duas ludolínguas de substituição, a vogal nuclear das sílabas das palavras base é transformada em vogal “i”). Ludolínguas de substituição como em a ludolíngua de cuna e a língua-do-i constituem um tipo especial de um fenômeno fonológico chamado de “harmonia vocálica”, ou seja quando diferentes vogais dentro de uma dada estrutura convergem para uma mesma vogal.

Concluindo…

Pelo que vimos, as ludolínguas carregam a característica de serem “atividades práticas que dão sentido à linguagem” que constitui a visão de “jogos de linguagem de Wittgenstein”, entretanto as ludolínguas (a) emergem do conhecimento internalizado da estrutura sonora da língua da qual se originam (b) a partir da manipulação “semiconsciente” dos sons das palavras das línguas naturais.

Além disso, estas inovações linguísticas expressam a criatividade linguística que os falantes nativos detêm sobre sua língua materna. Falantes nativos, desde os mais escolarizados aos menos escolarizados, dominam sua língua materna em um nível tão alto de expertise, que são capazes de brincar com ela, disfarçá-la, rimá-la, transformá-la, como se pode ver nestas construções linguísticas a que estamos nos referindo por ludolínguas.


FICHA CATALOGRÁFICA

V618ㅤVITAL, Felipe
ㅤㅤㅤ“Meu nome é FELIPE, mas meu amigo me chama VELIBE”: sobre quando a língua vira brincadeira! / Felipe Vital – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2025. 1 p.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤㅤ1. Jogos de linguagem 2. Transformação da estrutura sonora 3. Inovações linguística
ㅤㅤㅤI. Vital, Felipe II. “Meu nome é FELIPE, mas meu amigo me chama VELIBE”: sobre quando a língua vira brincadeira!
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.9
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 401.9:808.8


Saiba mais

Referências

  • ARAÚJO, G. A [2000]. Morfologia não-concatenativa em português: os portmanteaux. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, SP, v.39, p.5–21, 2012.
  • Bagemihl, Bruce. 1989. The Crossing Constraint and ‘backwards languages’. Natural Language and Linguistic Theory 7, 481–529.
  • BAGEMIHL, B. Language Games and Related Areas. In: Goldsmith, John A. The Handbook of Phonological Theory. Blackwell Publishing, 1995.
  • BROMBERGER, S; HALLE, M. The Ontology of Phonology S. Bromberger (ed.), On What We Know We Don’t Know: Explanation, Theory, Linguistics, and How Questions Shape Them, University of Chicago Press, pp. 209-231, 1992.
  • GUIMARÃES, M.; NEVINS, A. Opaque nasalization in ludlings and the precedence relations of reduplication and infixation. Letras & Letras, Uberlândia, v. 28, n. 1, 2012.
  • LAYCOCK,   Don.  Towards   a   Typology   of   Ludlings,   or   Play-Languages.   1972.   Disponível   em:  https://eric.ed.gov/?id=ED074837.
  • MARTINS, C. A. Sobre jogo de linguagem: Habermas e Wittgenstein. Revista de Filosofía Vol. 35 Núm. 2 : 91-104, 2010
  • MORO, A.  Le lingue impossibili. Milano: Cortina, 2017.
  • NEVINS, Andrew. Two case studies in phonological universals: A view from artificial grammars. Biolinguistics, Chipre, v. 4, n. 2-3, p. 218-233, 2010.
  • VITAL, F. Prolegômenos para uma teoria formal de ludolínguas de transposição: fenômenos morfofonológicos na Gualín do TTK. Revista Veredas. Volume 28, n.2, 2024.
  • VITAL, F.; BALDUINO, A. Reduplicação e eco-epêntese em ludolínguas: domínios morfológicos (‘língua-do-pê’) vs domínios fonológicos (‘efeito Alberto Roberto’). Revista Linguíʃtica 20(3):229-250, 2024.

(Baixe a versão em pdf do texto)

[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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