Gracinéa I. Oliveira (DLF/Faculdade de Letras/UFRJ)
(Publicado originalmente em 23/09/2024)

Resumo: neste texto, discute-se a relação entre filologia e o politicamente correto a partir de casos de alteração de textos literários para supostamente atender a essa agenda política. Para isso, são apresentados conceitos relativos a essas duas áreas e discutidos alguns casos de alteração textual.
Na sociedade atual, circulam textos dos mais variados gêneros e nos mais diversos formatos. A escrita é uma constante, quer seja no ambiente digital quer seja no analógico. Com o desenvolvimento da Internet e de outras ferramentas tecnológicas ligadas à edição, a reprodução de um livro passou a ser quase instantânea. Mas, apesar da durabilidade que a escrita tem, sendo esta uma de suas principais características, uma preocupação ronda o ser humano desde o registro dos textos mais antigos dos quais se tem conhecimento: as deteriorações a que os livros estão sujeitos.
Boa parte do conhecimento técnico e científico produzido no Ocidente, assim como as artes e a literatura, tem suas raízes em textos antigos, sobretudo os vinculados à cultura greco-romana. Embora nem sempre a maioria das pessoas se atente para isto, há uma preocupação, e legítima, sobre os processos usados na transmissão (cópia, edição e similares) desses textos, pois muitos deles podem sofrer alterações quando são reproduzidos. Ou seja, são modificados sem autorização de seus autores (sendo que muitos já estão mortos há centenas de anos). Na tentativa de barrar essas modificações, surgiu a Filologia, disciplina que se dedica ao estudo dos processos de transmissão dos textos, da autenticidade e da genuinidade deles.
Trata-se de uma ciência antiga, cuja origem remonta à famosa Biblioteca de Alexandria[1], que tem o texto escrito como seu principal objeto de estudo. Seus principais objetivos são estabelecer e editar textos, minimizando as alterações no processo de transmissão. O estabelecimento de um texto implica a tentativa de sua restituição ao mais próximo possível da última forma dada por seu autor. Em outras palavras, estabelecer um texto é retirar dele todas as alterações feitas, voluntariamente ou não, por terceiros, assim como os erros mecânicos como tipográficos, de digitação e similares. A Filologia “[e]stende-se desde a crítica textual […] até as questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade […]” (Bassetto, 2001, p. 43), entre outras.
Embora antiga, trata-se de uma área do conhecimento extremamente importante para os dias atuais, visto que o desenvolvimento tecnológico permitiu a produção e a cópia de textos escritos em escalas até então inimagináveis. Se, por um lado, isso democratizou o acesso à leitura e à divulgação do conhecimento e da literatura ao grande público à velocidade quase instantânea; por outro, também aumentou de forma desmedida os erros e as alterações, intencionais ou não, que um texto escrito sofre no seu processo de reprodução ou cópia. Esses problemas se relacionam não apenas aos conteúdos dos textos, mas também à autenticidade, à unidade e à integralidade deles.
Esses erros, também chamados de variantes, são modificações que ocorrem no conteúdo dos textos causadas tanto por fatores externos ao processo de cópia quanto por fatores internos a esse processo. Em relação aos externos, são modificações causadas por danos ao suporte material do texto escrito (entenda-se: a folha, o pen-drive, o computador etc.), quer seja um códice (livro manuscrito), um livro (impresso ou digital) ou uma folha avulsa. O suporte, como é sabido, pode deteriorar-se devido a ações de elementos da natureza (umidade, fogo, inundações etc.) e também devido a ações humanas (perfurações, rasgos, saques, entre outros). Além disso, a desatualização da tecnologia – dispositivos eletrônicos, programas de computador, entre outros – é outro fator que compromete os textos criados ou que circulam em ambiente digital.
Em relação aos fatores vinculados ao próprio ato de reprodução de um texto, estes podem ser involuntários ou voluntários. São involuntários quando, no ato de cópia manuscrita, mecânica ou digital, o texto é alterado por problemas relacionados à (des)atenção do copista (aquele que copiava os livros manuscritos) ou do editor ou ainda por problema no instrumento usado para copiar o texto. São fatos como omissão ou troca de letras, palavras, inversões de ordem dos capítulos e/ou leitura equivocada feita pelo editor ou por programas de computador, quando um texto é convertido de um programa para outro. Já as modificações voluntárias são aquelas feitas propositalmente por censores, copistas ou editores motivados por questões de censura, ideológicas, políticas, religiosas, entre outras.
As variantes que interessam, neste artigo, são as voluntárias, pois, como o próprio nome diz, referem-se a alterações feitas por terceiros, de maneira intencional, no texto de outra pessoa. É isso que relaciona a Filologia ao politicamente correto, na medida em que as modificações não autorais interferem na fidedignidade da transmissão textual no decorrer do tempo. Entende-se que um texto é fidedigno quando seu conteúdo é fiel à última forma deixada por seu autor.
Grosso modo, pode-se entender o politicamente correto como um conjunto de práticas políticas que incidem sobretudo na linguagem, especificamente, nas expressões e/ou palavras que teriam marcas de discriminação contra grupos minoritários (negros, indígenas, mulheres etc.). A principal característica desse movimento é a insistência em substituir essas palavras ou expressões (Cameron, 1995) por outras “neutras”. Tais práticas surgiram nos Estados Unidos, em meados dos anos 1960, relacionadas à defesa dos direitos civis, disseminando-se na década de 1980 pelas universidades norte-americanas e, de lá, para países europeus e para o Brasil (Weinmann; Culau, 2014). Aqui “o termo se popularizou no início deste século, com o crescimento de movimentos pela luta dos direitos dos negros, homossexuais e mulheres, e especialmente após a publicação da ‘Cartilha do Politicamente Correto’, em 2004” (Marchi, 2013, p. 72).
Não se objetiva discutir a legitimidade do movimento, mas, sim, analisar seu impacto no processo de transmissão de textos, objeto privilegiado da investigação filológica, e tangenciar a relação entre língua, mundo e literatura.
Para isso, foram analisados alguns casos de alteração ou de tentativa de alteração de textos literários devido ao politicamente correto, num esforço para suprimir ou substituir termos hoje considerados racistas, sexistas, entre outros. Tais casos ocorreram ligados não apenas a obras da literatura brasileira, mas também a obras do Reino Unido e de outros países.
Em relação à literatura inglesa, as obras de Agatha Christie (1890-1976) e de Roald Dahl (1916-1990) foram objeto de alteração. No caso da conhecida autora de histórias de crimes e suspenses, foram removidas “referências racistas e outras linguagens consideradas ofensivas para o público moderno” (Owoseje, 2023). Um exemplo é seu livro Ten Little Niggers (no título original; imagem abaixo) que passou a ser chamado And Then There Were None (imagem que abre este texto). É importante frisar que nigger é um termo extremamente ofensivo na língua inglesa. As famosas obras de Roald Dahl, como A fantástica fábrica de chocolate, também sofreram modificações. A editora Penguim está cortando desses livros termos hoje considerados ofensivos como “gordo” e “anão” (Clássicos…, 2023).

Esses autores ingleses, ambos brancos e de classe alta, viveram e produziram sobretudo no século XX, tendo alcançado sucesso em meados desse século. Embora a literatura não seja retrato nem cópia da realidade, o escritor, na produção de sua obra, trabalha elementos da sociedade e do tempo em que vive ou do qual ele tenha conhecimento. Assim sendo, se tais termos aparecem nas obras desses escritores, é porque na época circulavam sem maiores problemas. Hoje, percebidos como pejorativos, demonstram o quanto a sociedade avançou em relação ao respeito às pessoas de grupos minoritários, embora ainda tenha muito a avançar nesse sentido. Alterar esses termos é tentar mascarar os valores da sociedade desse período (séculos XIX-XX). Se a pessoa quiser conhecer a literatura desses autores, ela terá que entender que, infelizmente, esses termos pejorativos fazem parte dessas obras e, de certa maneira, refletem a ideologia vigente naquele grupo social.
No Brasil, o exemplo clássico é o da obra de Monteiro Lobato (1882-1948), especificamente a infantil. A proposta de alteração feita pela bisneta do autor não se restringiu apenas à supressão de palavras, mas a mudanças no papel e na função de uma das personagens da história: “O personagem da tia Nastácia, por exemplo, passa a ter uma posição de igualdade social com Dona Benta. Ela não é mais empregada. Dona Benta deixa de ser a ‘sinhá’, termo que remete à proprietária de uma pessoa escravizada, e passa a ser uma amiga de infância” (Albuquerque, 2023, n. p.).
Trata-se de uma atitude, no mínimo, ingênua, visto que, naquele período, infelizmente, à maioria das mulheres negras, devido aos resquícios da escravidão, cabia o papel de empregada doméstica. Isso é visível inclusive em nossa arquitetura, visto que os prédios, até final do século XX, tinham o chamado “elevador de serviço” e um quartinho sem janela para as empregadas, uma miniatura das antigas senzalas. Outro fato a ser considerado é o escritor. Branco, da classe alta paulistana, Monteiro Lobato recriava em suas obras elementos da sociedade em que vivia. Embora é evidente que tenham existido algumas mulheres negras que ocuparam outros papéis na sociedade, infelizmente não foram tematizadas em obras escritas por homens brancos e ricos. Alterar essa relação na obra lobatiana é mascarar o escritor e a sociedade que produziram sua obra.
Não é novidade, na história da escrita, as modificações a que estão sujeitos os textos, literários ou não, motivadas por questões políticas, ideológicas e/ou de censura. Mas em tempos de polarização político-ideológica, é necessário discutir essas alterações, as intenções que as motivam (por melhores que algumas possam ser), assim como o contexto de escrita das obras objeto de alteração.
Analisar uma obra demanda uma leitura além das linhas, pois é necessário considerar, além do autor, o contexto de produção que possibilitou a criação daquele texto. Isso implica um estudo da sociedade e, consequentemente, da época em que o texto foi produzido. Evidentemente, um texto escrito em outro tempo pode apresentar ideias e valores diferentes da sociedade atual, assim como os valores e as ideias de hoje poderão ir de encontro às ideias das gerações futuras.
A primeira obra literária de Monteiro Lobato foi publicada no início do século XX, em um período muito próximo ao da escravidão e, consequentemente, em uma sociedade na qual ainda estavam arraigados muitos preconceitos advindos do período escravocrata. Além disso, trata-se de um período de difusão das ideias eugenistas[2] no país, sendo Monteiro Lobato um de seus defensores (Habib, 2007). Assim sendo, vários termos e palavras hoje percebidos como ofensivos assim não eram percebidos quando a obra lobatiana foi publicada. Se assim fossem, haveria registros de críticas relacionadas a isso, o que não foi encontrado. Alterar essas obras, além de ir contra o objetivo principal da filologia – recuperar a fidedignidade dos textos –, pode sobretudo mascarar a história. Nestes tempos de negacionismo desenfreado sem nenhum embasamento crítico ou teórico, se se começar a reescrever os livros de literatura retirando as marcas do que hoje é percebido como racismo e ofensas contra minorias, corre-se o risco de, em curto tempo, alguém apontar para essas obras e dizer: “– Olha, no Brasil nunca houve preconceito racial. Vejam esses livros do século XIX e do século XX, não há nenhuma marca de racismo neles”.
Evidentemente, a leitura desses livros, sobretudo por crianças e adolescentes, demanda supervisão e orientação crítica, o que pode já ser sinalizado por notas explicativas e similares nessas obras, mas nunca substituindo o texto original por modificações de terceiros. Embora muitas dessas alterações sejam propostas por pessoas de boa-fé, que lutam para diminuir os profundos e os graves problemas sociais relacionados à exclusão de minorias na sociedade brasileira, não se pode esquecer do poder do mercado: essas alterações são sugeridas e feitas com o propósito de combater o preconceito e a discriminação ou com o propósito de manter esses livros “vendáveis” e rentáveis no mercado editorial, sobretudo os dedicados ao público juvenil?
Esta pequena discussão feita refere-se, evidentemente, a textos escritos em outras épocas, de autores que não estão mais aqui, que viveram em uma sociedade cujos valores não são mais os mesmos. Ressalta-se, entretanto, que o que somos hoje é resultado dessa sociedade de ontem, por isso a necessidade de se reconhecer todos os seus problemas, não de mascará-los, substituindo suas marcas linguísticas. Entende-se que, a partir disso, é possível tentar trilhar outros caminhos, mais inclusivos, menos violentos, o que, necessariamente, passa pela linguagem, como também pela alteração da estrutura política e econômico-social.
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, Beatriz. Versão atualizada de obra de Monteiro Lobato traz trechos reescritos. Brasília, Agência Brasil, Cultura, 28 fev. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2023-02/versao-atualizada-de-obra-de-monteiro-lobato-traz-trechos-reescritos
BASSETTO, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica: história externa das língua. São Paulo: Edusp, 2001. 2v.
CAMERON, D. Verbal Hygiene: the politics of language. London: Routledge, 1995.
CLÁSSICOS da literatura infantil são adaptados ao politicamente correto. Revista Oeste [on-line], 19 fev. 2023. Mundo. Disponível em: https://revistaoeste.com/mundo/classicos-da-literatura-infantil-sao-adaptados-ao-politicamente-correto/
HABIB, Paula Arantes Botelho Briglia. Saneamento, eugenia e literatura: os caminhos cruzados de Renato Kehl e Monteiro Lobato (1914-1926). In: ANPUBH – Simpósio Nacional de História, XXIV, São Leopoldo, 2007, p. 1-8. Disponível em: https://www.encontro2014.rj.anpuh.org/resources/anais/anpuhnacional/S.24/ANPUH.S24.0436.pdf
LOBATO, Cleo Monteiro. Obras de Monteiro Lobato passam por atualização após acuisações de racismo. Veja, Cultura, 27 nov. 2020 (atualizado em 4 jun. 2024). Disponível em: https://veja.abril.com.br/cultura/obras-de-monteiro-lobato-passam-por-atualizacao-apos-acusacoes-de-racismo
MACIEL, Maria Eunice de S. A eugenia no Brasil. Anos 90, Porto Alegre, n. 11, p. 121-130, jul. 1999. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/31532/000297021.pdf
MARCHI, Fernanda de. O processo inferencial da linguagem politicamente incorreta na Web 2.0: uma abordagem em interfaces. Dissertação (Mestrado em Letras). Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013. Disponível em: https://meriva.pucrs.br/dspace/bitstream/10923/4179/1/000445469-Texto%2bCompleto-0.pdf
OWOSEJE, Toyin. Livros clássicos de Agatha Christie serão revisados para remover linguagem ofensiva. CNN Brasil, Pop, 27 mar. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/livros-classicos-de-agatha-christie-serao-revisados-para-remover-linguagem-ofensiva/
PIOVEZAN, Escarletti Zordenoni. Biblioteca de Alexandria e sua importância para a história da matemática. 2022. Trabalho de conclusão de curso. (Licenciatura em Matemática) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia, Cacoal, 2022. Disponível em: https://repositorio.ifro.edu.br/server/api/core/bitstreams/849d6ecc-1719-4326-9e4f-09e135786760/content
WEINMANN, Amadeu de Oliveira; CULAU, Fábio Vacaro. Notas sobre o politicamente correto. Estudos e pesquisas em psicologia, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 628-645, 2014. dispon´vivel em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revispsi/article/view/12663/9864
[1] Trata-se de uma das mais importantes bibliotecas da Antiguidade, tendo sido considerada centro mundial de cultura entre os séculos III a.C e IV d.C. (Piovezan, 2022).
[2] A eugenia é um conjunto de ideias e práticas relativa ao “melhoramento da raça humana”, o que incluía a eliminação de pessoas que apresentassem características indesejadas, como, por exemplo, doenças mentais. Isso não se aplicava apenas a indivíduos, mas também a raças. Foi muito popular no Brasil, no início do século XX. Um exemplo de práticas eugenistas foi o movimento nazista. (Maciel, 1999).
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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