Adriana Leitão Martins (UFRJ)
Ana Regina Vaz Calindro (UFRJ)
(Publicado originalmente em 27/05/2024)
Resumo: Neste texto, exploramos casos de ambiguidade sintática, ou seja, casos em que a maneira como conectamos palavras e expressões dentro de uma frase produz diferentes significados para ela. Procuramos mostrar que, nesses casos, os múltiplos sentidos extraídos de uma frase são resultantes tanto da ligação que estabelecemos entre uma palavra e outra quanto da ligação que fazemos entre um pronome e o nome ou locução nominal ao qual ele se liga. Por fim, procuramos demonstrar que os casos de ambiguidade sintática podem até não ser percebidos na comunicação diária, mas todo usuário da língua pode perceber as ambiguidades sintáticas e brincar com elas, o que produz os memes que usamos para ilustrar este texto.
Aprendemos na escola que as frases, comumente chamadas de “sentenças” pelos linguistas, podem ser divididas em sujeito e predicado. Essa noção faz com que pareça que interpretamos orações de forma linear, ou seja, que, quando dizemos “Eu vou ler este texto sobre linguística”, interpretamos essa frase identificando primeiramente o sujeito “eu” e em seguida o predicado “vou ler este texto sobre linguística”. Simples assim, certo? Pois é, não é bem assim. O título deste texto já nos indica isso, como veremos a seguir.
Não sei se você percebeu (provavelmente, sim), mas o nosso título leva para dois caminhos, ou seja, pode ter duas interpretações. Pare agora a leitura por um momento e releia o título. Percebeu as duas leituras? Então, a esse tipo de fenômeno damos o nome de ambiguidade, já que podemos entender que o “departamento é maravilhoso”, mas também é possível interpretar que “o texto é maravilhoso”; você concorda?
Você já deve ter reparado em outros tipos de ambiguidade. É muito comum nos depararmos com ambiguidades geradas por palavras que têm a mesma forma, mas podem ter mais de um significado, palavras como manga, banco, vela, dama etc. Esse é um tipo de ambiguidade semântica ou lexical, porque as múltiplas interpretações advêm dos possíveis significados atribuídos a esses itens. Chamamos essas palavras de polissêmicas: do grego, polis, que significa “muitos”, e sema, que se refere a “significado”. Manga, inclusive, tem mais de dois sentidos: podemos pensar na fruta, na parte de uma vestimenta e no verbo mangar (“caçoar”) conjugado na terceira pessoa do singular, como em “João sempre manga das pessoas”.
Esse é o tipo de ambiguidade que notamos mais facilmente e sabemos que pode ser tranquilamente solucionada através do contexto em que a palavra é inserida. Por exemplo, se alguém, conversando no celular, fala a frase “Eu estou no banco“, essa ambiguidade se desfaz imediatamente com a continuidade da conversa, que poderia ser “Vou sacar dinheiro e passar no mercado para fazer as compras” ou “Vou levantar daqui e sentar na cadeira para apoiar as costas”.
A razão da ambiguidade presente no título deste texto é outra. O que está em jogo aqui é como as palavras se relacionam. O que temos no título é uma ambiguidade sintática, pois podemos relacionar o adjetivo “maravilhoso” tanto a “departamento” quanto a “texto”. É o que também acontece no exemplo a seguir. O tweet do @danilomaia já dá o spoiler da ambiguidade que, neste caso, causa humor porque a combinação gera uma interpretação inusitada.

No título da notícia da revista Ela compartilhada no tweet, a ambiguidade ocorre devido à relação entre as palavras. Acreditamos que a interpretação desejada pelo autor da notícia seria que a estilista Helô Rocha produziria um vestido que seria usado pela noiva de Lula. Logo, a locução “de Lula” não está diretamente ligada à palavra “vestido” e sim à palavra “noiva”. Em outras palavras, a locução “de Lula” está especificando de quem é a noiva e não indicando de quem é o vestido. O vestido, inclusive, poderia ser um vestido qualquer, não necessariamente um “vestido de noiva”. Porém, também é possível relacionar as locuções “de noiva” e “de Lula” à palavra “vestido”, de modo que a primeira é interpretada como o tipo de vestido e a segunda como o possuidor do vestido, e é esta interpretação que produz o humor que motiva o tweet acima.
Esses exemplos de sentenças ambíguas em que a dupla interpretação decorre de diferentes possibilidades de combinação entre os itens que as compõem são uma forte evidência de que o significado de uma sentença não é constituído linearmente. Contrariamente ao que a noção sequencial de sujeito e predicado à qual somos apresentados na escola pode nos levar a imaginar, as relações entre as palavras não são estabelecidas necessariamente entre aquelas que estão diretamente ao seu lado, podendo ser estabelecidas também entre aquelas palavras ou locuções que estão mais distantes entre si, como ilustrado nos exemplos acima.
Como explicamos, então, essas relações?
Ao longo dos anos, os linguistas, através da análise das línguas, notaram que as sentenças são formadas através do que chamaram de “sintagma”, também do grego syntagma, que significa “composto”, “constituição”. Os sintagmas são as unidades de significado que usamos para criar nossas sentenças. Eles podem ser constituídos por uma palavra ou por um grupo de palavras e sempre possuem um núcleo, sobre o qual falaremos mais adiante. Os sintagmas sozinhos ou combinados formam o que os linguistas chamam de “constituintes”. Bora explicar esses conceitos para depois voltar para o nosso ponto inicial.
Então, apesar de as sentenças serem pronunciadas, gesticuladas ou escritas de maneira linear, a sua organização depende, na verdade, das combinações de constituintes que podem ser formados por elementos que não estão necessariamente um depois do outro quando produzidos. Para identificar esses constituintes, podemos fazer o que denominamos de “testes de constituinte”. Esses testes servem, justamente, para identificarmos essas combinações as quais estamos nos referindo, ou seja, para verificarmos a possibilidade de criar combinações de sintagmas que formem constituintes.
Um dos testes de constituinte é chamado de clivagem, no qual se faz uma sentença clivada da seguinte forma: (a) construímos uma nova sentença iniciada pelo verbo ser no mesmo tempo verbal da sentença que contém o possível constituinte que queremos testar, (b) colocamos os itens que formam esse suposto constituinte seguido de um que e, por fim, (c) reproduzimos todo o restante da sentença (não podemos esquecer de nenhum item; se não, não dá certo). Se, ao realizarmos essa palavra ou sequência de palavras nessa posição entre o verbo ser e o que, a frase resultante for uma frase bem formada, concluímos que aquela palavra ou sequência de palavras forma um constituinte. É importante ainda ter em mente que, nesse teste, estamos clivando (colocando entre o verbo ser e o que) sempre um possível constituinte centrado em um núcleo, o item ao qual se ligam outros, de modo que não vale colocar qualquer arranjo possível das palavras da sentença entre o verbo ser e o que; é preciso que se respeitem as ligações das palavras com o núcleo ao qual se ligam.
Para ilustrar a aplicação do teste de clivagem, voltemos ao título deste texto, em que “maravilhoso” pode estar relacionado a “departamento” ou a “texto de divulgação científica”. Vamos apenas incluir no nosso título um verbo para facilitar a aplicação do teste e, assim, avaliar os constituintes da seguinte sentença: É o texto de divulgação científica do departamento maravilhoso. Repare que as palavras que vêm depois de “texto” (como “de divulgação científica”) estão ligadas a ela e, por isso, dizemos que “texto” é o núcleo do grande sintagma que forma o título. Como a nossa dúvida é sobre a que palavra “maravilhoso” se refere, podemos usar o teste de clivagem para conferir a qual núcleo essa palavra está ligada.
Primeiro, vamos verificar a possibilidade de “do departamento maravilhoso” ser um constituinte:
(1) É do departamento maravilhoso que é o texto de divulgação científica.
(constituinte)
Agora, vamos testar a possibilidade de “o texto de divulgação científica maravilhoso” ser um constituinte:
(2) É o texto de divulgação científica maravilhoso que é do departamento.
(constituinte)
Note que ambas as sentenças clivadas em (1) e (2) são sentenças bem formadas, o que significa que “do departamento maravilhoso” e “o texto de divulgação científica maravilhoso” podem ser constituintes. Logo, há duas possibilidades de arranjos entre os elementos que constituem essa sentença e, por isso, ela é ambígua. Já “científica do departamento maravilhoso” não forma um constituinte, como podemos confirmar pela aplicação do mesmo teste:
(3) *É científica do departamento maravilhoso que é o texto de divulgação.
(não constituinte)
Repare que a sentença (3) é mal formada, também chamada pelos linguistas de “agramatical”, o que denota que “científica do departamento maravilhoso” não é um constituinte. Isso aconteceu porque, na frase (3), não respeitamos a relação entre o núcleo “divulgação” e a palavra “científica” que se liga a ele.
Assim, com a aplicação do nosso teste de constituinte, a gente percebe não só que as palavras se organizam em sintagmas que podem formar um constituinte na sentença, mas também que os sintagmas possuem um núcleo, como tínhamos dito anteriormente, e a esse núcleo podem estar ligados outros sintagmas. No caso em questão, o adjetivo “maravilhoso” pode estar tanto contido no constituinte “do departamento maravilhoso” e ligado ao núcleo “departamento” (como verificado em (1) acima), quanto contido no constituinte “o texto de divulgação científica maravilhoso” e ligado ao núcleo “texto” (como verificado em (2) acima). Em ambos os casos, o adjetivo “maravilhoso” estaria concordando em número (singular) e gênero (masculino) com o núcleo do sintagma nominal no qual ele estaria contido, seja o núcleo “departamento” ou “texto”.
Não vamos entrar em muitos detalhes aqui, mas repare também que os sintagmas podem ser formados pelo encaixamento de vários sintagmas, um dentro do outro. No constituinte clivado na frase (1), por exemplo, temos um sintagma preposicional cujo núcleo é a preposição “de” (“do departamento maravilhoso”); dentro dele, temos um sintagma determinante[1] cujo núcleo é o artigo “o” (“o departamento maravilhoso”); dentro dele, temos um sintagma nominal cujo núcleo é o nome (ou substantivo) “departamento” (“departamento maravilhoso”); e, finalmente, dentro deste último, temos um sintagma adjetival cujo núcleo é a única palavra do sintagma: o adjetivo “maravilhoso”. É por meio desse “encaixamento” que as relações entre as palavras vão se estabelecendo e, assim, quando ouvimos ou lemos um título como o deste texto, podemos “ligar” na nossa mente “maravilhoso” tanto ao núcleo de um sintagma nominal (“departamento”) quanto ao núcleo de outro sintagma nominal (“texto”).
E casos de ambiguidade sintática como as do título deste texto e da matéria que motivou o tweet do @danilomaia aqui em cima podem acontecer muitas vezes nas nossas interações. Em alguns casos, como temos um contexto e uma expectativa em relação ao que ouvimos ou lemos, não nos damos conta de que uma determinada frase contém uma ambiguidade sintática. Mas, se paramos para analisar com calma, vemos – como falantes da língua que somos e não necessariamente como linguistas – que existem diferentes combinações possíveis entre as palavras de uma frase e brincamos com isso. Veja mais um exemplo abaixo no tweet do @flaviocontar:

Com a expectativa que temos quando lemos a notícia da Veja São Paulo contida no tweet acima, interpretamos imediatamente que a Rita Lobo lançou um determinado livro para pessoas que moram sozinhas e esse lançamento aconteceu em uma livraria de São Paulo. Mas, por essa frase, ainda que nosso conhecimento de mundo nos diga que é improvável, também seria possível imaginar que a Rita Lobo lançou um livro destinado a pessoas que moram em livrarias paulistas…
Ora, por que isso acontece vocês já sabem: temos duas possibilidades de integrar os sintagmas que formam essa sentença. Na interpretação pretendida pelo autor da matéria na revista Veja São Paulo, “em livraria de São Paulo” é um constituinte que pode ser ligado ao núcleo “lança” (usando o teste de constituinte de clivagem explicado anteriormente: “É em livraria de São Paulo que Rita Lobo lança livro com receitas fáceis para quem mora sozinho”). Já na interpretação feita pelo autor do tweet, “para quem mora sozinho em livraria de São Paulo” é um constituinte ligado ao núcleo “lança” (usando o mesmo teste de constituinte: “É para quem mora sozinho em livraria de São Paulo que Rita Lobo lança livro com receitas fáceis”). Em outras palavras, “em livraria de São Paulo” pode ser um constituinte (primeiro caso) ou pode ser parte de um constituinte (segundo caso). Ou ainda, no primeiro caso, “em livraria de São Paulo” está ligado ao núcleo “lança” e, no segundo caso, está antes ligado ao núcleo “mora”.
E os casos de ambiguidade sintática se multiplicam por aí e geram memes muito divertidos, o que prova que qualquer falante de uma língua é capaz de perceber essas ambiguidades e brincar com isso. Outro caso de ambiguidade sintática que virou um meme pode ser visto na imagem abaixo e está relacionado com o pronome “as” que aparece no texto. Leia a frase entre aspas na imagem e pense nas interpretações que podemos tirar dela antes de avançarmos nessa discussão.

Nesse caso, a ambiguidade é gerada pela ligação que estabelecemos entre pronomes e nomes. Os pronomes são elementos que, por si sós, não carregam uma referência própria e, por isso, sempre extraem o seu significado do constituinte ao qual se referem, seja ele um sintagma nominal que tenha aparecido ou venha a aparecer no texto ou um referente dado pelo contexto. São exemplos de pronomes aqueles que chamamos na tradição escolar de retos, como “eu”, “tu” e “ele”, e de oblíquos, como “me”, “te” e “o”[2]. Então, o que acontece acima é que o pronome “as” tem dois candidatos a antecedente: o nome “cartas” e o nome “pessoas”. O humor da imagem está justamente na quebra de expectativa: embora o candidato preferencial para antecedente do pronome “as” seja “cartas”, a continuação do texto da imagem nos faz reanalisar a frase dita pelo terapeuta e localizar outro antecedente possível para o pronome “as”, o nome “pessoas”.
Por fim, queremos reforçar que basta que a gente fale uma língua para conhecer a estrutura dessa língua (mesmo sem conhecer o termo “ambiguidade sintática”) e poder brincar com ela, gerando o humor que vemos em muitos desses memes que apresentamos neste texto. Ainda que seja o linguista o cientista que “explica a piada”, mostrando os mecanismos linguísticos envolvidos no fenômeno de ambiguidade sintática, é o usuário da língua, qualquer falante, que cria coisas para divertir as pessoas na Internet.
Pera. O usuário da língua cria na Internet ou as pessoas se divertem na Internet? Ah, deixa isso para quem tem mais talento para o humor com as ambiguidades sintáticas do que nós duas, as autoras deste texto! Então, para terminar, aprecie as imagens super divertidas que extraímos da Internet e compartilhamos aqui embaixo.




Saiba mais
FRANCHI, C.; NEGRÃO, E. V.; MÜLLER, A. Um exemplo de análise e de argumentação em sintaxe. Revista da ANPOLL, n.5, p.37-63, 1998.
NEGRÃO, E. V.; SCHER, A.; VIOTTI, E. Sintaxe: explorando a estrutura da sentença. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística II. São Paulo: Contexto, 2003.
TESCARI, A. Constituência sintática, ambiguidade estrutural e aula de português: o lugar da teoria gramatical no ensino e formação do professor. Working Papers em Linguística, v.18, n.2, p.129-152, Florianópolis, 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.5007/1984-8420.2017v18n2p129.
[1] Chamamos de “determinantes” elementos que acompanham os nomes, como os artigos, pronomes demonstrativos (“esse”, “aquele”), pronomes possessivos (“meu”, “seu”), quantificadores (“cada”, “todo”) etc.
[2] Para saber mais sobre pronomes e a maneira como eles se ligam aos antecedentes, leia o texto de divulgação científica do Prof. Alessandro Boechat de Medeiros também disponível no blog do Departamento de Linguística e Filologia da UFRJ, disponível neste link: https://lefufrj.wordpress.com/2023/12/11/ele-me-contou-que-o-claudio-vai-se-casar-com-a-carina-me-diz-ai-por-que-o-claudio-nao-pode-ter-me-contado-isso/.
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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