Evandro Bonfim (Museu Nacional-UFRJ)
Wellington Quintino (UNEMAT)
(Publicado originalmente em 22/04/2024)

Crédito da Imagem: Mahku Movimento dos Artistas Huni Kuin
Resumo: As cores do mundo são as mesmas cores das línguas? Apesar da universalidade de princípios ópticos, fisiológicos e cognitivos, os termos para as cores presentes nas diversas línguas apontam para outras formas de conceber e dividir o espaço cromático (a faixa visível da luz solar). O texto vai apresentar a hipótese dos universais semânticos para os termos de cores e os desafios à proposta trazidos por léxicos cromáticos particulares, com destaque para línguas indígenas existentes no Brasil.
Quando se debate a relação entre língua e cultura, os nomes para as cores (o léxico cromático) costumam ser usados como exemplo de como cada idioma em particular moldaria a percepção do mundo, como no emblemático caso das diferentes palavras para branco possuídas pelos Innuit (esquimós). A variedade de termos para expressar distinções sutis de tons de branco na neve é usada hoje em dia como anedota para criticar formulações como a Hipótese Sapir-Whorf, também conhecida como relativismo linguístico, que estabelece correlações entre língua, pensamento e as elaborações específicas de cada cultura sobre a realidade. Contudo, se faz necessário discutir com mais profundidade o que existe de universal e de relativo na passagem da percepção cromática para o vocabulário das cores. E isso não se limita apenas aos termos em si, mas diz respeito igualmente às estratégias desenvolvidas por cada língua para abordar o fenômeno do colorido, o que inclui questões morfossintáticas e a categorização em classe de palavras. Neste sentido, as línguas indígenas presentes no Brasil colocam desafios especiais às principais teorias linguísticas sobre o assunto, mostrando que o debate ainda não está encerrado, como iremos ver no texto.
As cores são intervalos discretos (comprimentos de ondas) do espectro cromático, faixa que corresponde a parte visível ao olho humano do feixe luminoso. O que está acima (os raios ultravioleta) e o que está abaixo (o infravermelho) são radiações invisíveis para nós (mas não para outros organismos). Assim, o que o está em jogo ao se discutir o léxico cromático das diversas línguas naturais não é a capacidade de enxergar a totalidade do espectro luminoso visível ou de discriminar trechos dentro dele, mas de estabelecer propostas de divisão do espaço cromático e as formas de conceber e expressar tais divisões através de termos de cores específicos e concepções culturais sobre a cor.
De acordo com Brent Berlin e Paul Kay em Basic Color Terms: Their Universality and Evolution (Termos básico para cores: sua universalidade e evolução), existiriam princípios semânticos universais presentes no léxico de cores. Ou seja, a divisão do espaço cromático pelas línguas em termos designativos de cores não é arbitrária, conforme os pressupostos do relativismo linguístico comentado anteriormente, segundo o qual cada idioma codifica a experiência em formas linguísticas de maneira única. Dentre as inúmeras contribuições da obra, tem-se a definição do que seriam os termos básicos para as cores, de forma a se poder estabelecer o escopo do léxico cromático de cada língua, bem como os parâmetros para empreendimentos comparativos como o realizado pelo estudo e para a própria existência de universais semânticos para as cores. Assim, segundo os autores, os termos básicos devem ser monolexêmicos (formados apenas por uma única palavras, o que exclui termos como verde-limão ou azul celeste); não podem ser refrações de outros termos de cores (como vinho, que pertence à categoria vermelho); não podem se restringir a uma classe limitada de referentes; são salientes para os consultores como designativos de realidades cromáticas. É importante destacar que a obra tem como objetivo conciliar os diversos arranjos possíveis de léxicos cromáticos encontrados nas línguas do mundo com os princípios da óptica e da fisiologia humana, mostrando a base inata comum entre os fenômenos linguísticos, físicos e perceptuais/cognitivos.
Todas as línguas possuem palavras para preto e branco, que representam a oposição básica do brilho, com os dois termos englobando distribucionalmente todos os outros matizes. Léxicos com mais termos seguem ordem determinada de produção de novos recortes no espaço cromático, com cada termo adicional correspondendo a diminuição do espectro de abrangência dos termos mais englobantes em sistemas mais simples. Se a língua possui três palavras para cores, o terceiro termo necessariamente será vermelho. O quarto termo vai implicar na distinção do amarelo ou do verde, conforme a língua. Para o quinto termo, necessariamente vai se destacar da síntese promovida pelos termos mais abrangentes o verde, se o quarto termo tiver sido o amarelo, e o amarelo, se o quarto termo tiver sido o verde. Como sexto termo aparece o azul, que passa a se distinguir perceptualmente muito provavelmente do verde. Muitas línguas indígenas possuem sistemas de cinco termos, encerrando com vocábulos que englobam o par verde-azul, como a palavra tukuein em Bakairi.

Assim, a ocorrência de certos elementos implica a presença dos termos de maior elementaridade (a>b). Isto quer dizer que se uma língua possui um termo para amarelo, necessariamente deve ter o termo para vermelho (vermelho>amarelo). Ou seja, pode-se pensar que determinados conjuntos cromáticos possam ser considerados “agramaticais”, como, por exemplo, *[preto, branco, amarelo]. O princípio da elementaridade também permite prever o surgimento de novos termos por implicação evolutiva. Por exemplo, se o léxico cromático de determinada língua conta com os termos [preto, branco, vermelho, amarelo, verde], necessariamente o próximo termo a aparecer será o azul (e não marrom ou roxo, por exemplo).
Contudo, sistemas designativos de cores de línguas indígenas faladas no Brasil desafiam os pressupostos estabelecidos por Berlin & Kay, como os autores já apontam na própria obra. Como exemplo notável se tem as línguas do Tronco Macro-Jê. Para ilustrar, dados linguísticos da língua xavante coletados com falantes monolíngues vão ser apresentados no texto. É importante destacar que na pesquisa com léxico cromático objetos variados e cartelas de cores com vários matizes são apresentados aos consultores que nomeiam a qual categoria cromática aquele elemento pertence. Os termos cromáticos em xavante são compostos pelo prefixo i- (marca de adjetivo prototípico de acordo com Quintino 2012, mas que pode ser também interpretado como morfema relacional, (presente em outras línguas Jê) e a raiz correspondente a cor. O xavante distingue, aparentemente, 4 cores básicas, a saber: i’a ‘branco’ (1), em oposição a i’u ‘preto’ (2); além de i’pré ‘vermelho’ (3), em oposição a i’udzé ‘verde, amarelo, azul’.
(1) i’a ‘branco’
(2) i’u ‘preto’
(3) i’pré ‘vermelho’
(4) i’udzé ‘verde/azul/amarelo
O dado (4) i’udzé contradiz a hipótese de Berlin & Kay em dois pontos. Em primeiro lugar, como quarto termo, deveria isolar ou o verde ou o amarelo como palavra designativa de cor, o que não ocorre. A folha verde na copa das árvores e a folha amarela no chão, seca e caduca, pertencem à mesma percepção cromática (inclusive esse foi o exemplo dado pelo falante para que o pesquisador entendesse a categoria i’udzé). Em segundo lugar, como contestação ainda mais decisiva, o termo i’udzé inclui ainda o azul, assimilação cromática que contradiz as previsões do espaço perceptual de cor apresentado por Regier, Kay & Katherpal (2009), por associar matizes que não são adjacentes no prisma cromático, e que exigiriam, portanto, distintividade. Berlin & Kay comentam que o Karajá realiza a divisão linguística do espaço cromático de maneira similar. O léxico de cores Xavante e de outros grupos Jê difere não por questões de ordem fisiológica ou cognitiva, mas porque o povo indígena possui teoria cromática própria, que não necessariamente deve coincidir com a desenvolvida no Ocidente a partir da óptica newtoniana. Considerar a importância das epistemologias indígenas para o conhecimento contemporâneo significa ampliar a reflexão a respeito das diferenças encontradas na pesquisa com as línguas e cosmologias dos povos ameríndios.
Outro ponto divergente entre a Teoria Cromática Xavante e àquela em que se baseia o princípio dos universais semânticos está no conceito de branco. A noção de branco como [+ luminosidade] em oposição ao preto [- luminoside] é fundamental para a Teoria Cromática Ocidental, sobretudo nas aplicações comerciais. O sistema cor-luz (ou RGB de red/vermelho, green/verde, blue/azul) e o cor-pigmento (ou CMYK, de ciano, magenta, yellow/amarelo e black/preto) se baseiam, respectivamente, na adição de luz, que resulta no branco, e na subtração de luminosidade, que resulta quase no preto. O sistema aditivo é utilizando na televisão e na fotografia digital e o sistema subtrativo na impressão e na pintura. Para os Xavantes, aquilo que é colorido (i’wamnari) se opõe ao que não possui cor, noção expressa justamente pelo termo i’a. Assim, o que na concepção científica ocidental se considera com a convergência de todas as cores (conforme a famosa experiência do prisma), na concepção Xavante se tratá precisamente do oposto, da ausência de cor. É importante destacar que o branco e o preto são consideradas cores “acromáticas” ou neutras, que se referem mais aos parâmetros de luminosidade do que ao efetivamente colorido, elementos presentes na intuição linguística de falantes de línguas como português quando utilizam tais termos. A neutralidade cromática, contudo, não corresponde ao princípio opositivo encontrado no sistema xavante. O problema dos universais semânticos consiste em projetar noções particulares em sistemas conceituais diversos, sem examinar como determinadas categorias (e as cores expressam concepções que vão muito além da atribuiçao de características cromáticas aos referentes) são pensadas em culturas específicas. Termos de cores adicionais, coletados entre falantes bilíngues, mostram bem o funcionamento do termo i’a como não-cor ao interagir com os demais termos.
(5) i’pré’a ‘laranja’
(6) i’udze’a ‘amarelo’
Nos dados, o termo para ‘branco’ (i’a) incorpora as raizes dos dois termos que atuam como protótipos das cores em xavante, i’pré (vermelho) e i’udzé (verde-amarelo-azul). Na morfossintaxe xavante, os referentes que recebem atributos cromáticos são adjacentes aos termos para cores ou, em alguns casos, são incorporados dentro do próprio termo. As incorporações acima são palavras surgidas em situação de contato linguístico, e correspondem ao que em Português seriam as cores laranja e amarelo, respectivamente. Porém, mais do que novas cores, laranja (i’pré’a) e amarelo (i’udzé’a) são subtipos das cores de referência, tanto pelos critérios de Berlin & Kay, que admitem apenas termos monolexêmicos, quanto pela teoria cromática xavante. No caso da lógica indígena, as traduções não conseguem capturar a seguinte concepção cromática xavante: sendo a não cor, i’a não pode ser combinada com i’pré e com i’udzé, ao contrário do que seria esperado no processo ocidental de obtenção de cores, em que se combina tinta vermelha e branca para obter o rosa. Em ambos os exemplos, a modificação de i’a retira parte da potência dos elementos aos quais se afixa. Atua assim como agente “atenuador”, enquanto o preto funciona como intensificador, como na combinação com o vermelho na pintura de guerra xavante. No caso do primeiro, por degradá-lo em uma espécie de vermelho menos forte, o laranja; e, no do segundo, por eliminar a polivalência da categoria, restringindo i’udzé a apenas uma de suas possibilidades de realização, o amarelo.
Outro ponto a ser destacado sobre os termos cromáticos presentes na maior parte das línguas indígenas encontradas no Brasil é o caráter relacional deles, visto que não designam propriedades que existem sem referência a seres, objetos e outras manifestações que as materializem. Podem ser categorizados como nomes descritivos, ou seja, que servem para expressar qualidades, sensações e estados psicológicos e são dependentes dos referentes aos quais se associam. No caso, com relação de dependência morfossintática que se expressa pela flexão relacional (como os prefixos i- nas cores xavante e t- nos termos bakairi, conforme demonstram os exemplos). Ou seja, não podem ser pensadas como realidades abstratas, fora da conexão com os referentes que portam determinada cor, o que inclui as elaborações culturais sobre tais atribuições dos matizes, como veremos na conclusão sobre a noção de vermelho para os Xavante. Em determinadas línguas, o comportamento dos termos cromáticos excede as características estritas da classe nominal, como em Kamayurá, língua na qual são analisados como “verbos descritivos”, mas que sempre trazem, contudo, a marca relacional. Em Bakairi, as palavras designativas de cores contam com o prefixo t- que indica o referente, junto com a marca aspectual –ein, denotando processo. Assim, tapabilein, que corresponderia ao termo “vermelho” poderia ser melhor traduzido como “aquilo que está se avermelhando” para dar conta da dimensão processual da palavra. A ênfase na apreensão do fenômeno cromático a partir de superfícies e outros elementos portadores de cor não se restringe ao mundo indígena. Faz parte dos argumentos da “Doutrina das Cores” escrito por Goethe como contraponto à teoria óptica de Newton, destacando sobretudo a dimensão da experiência e do pensamento na percepção da cor. Tanto a ciência ocidental como as epistemologias indígenas expressas pela codificação linguística e por fatos etnográficos mostram a complexidade da questão cromática.
Portanto, indicar as cores não parece ser a única atribuição para tais termos. Trata-se de categorias do pensamento indígena, de conceitos que condensam questões classificatórias, de organização social e concepção de mundo de cada povo nas quais a definição da cor depende do modo de existência do referente. O vermelho (i’pré), por exemplo, é uma cor, mas é também uma propriedade que excede a nominação cromática, pois recobre tudo aquilo que é considerado belo e pleno (maduro) para o Xavante, sendo o representante prototípico desta condição o homem adulto que participa do conselho tribal (warã), classe etária (i’prédu) que representa o ápice da condição guerreira, com a cabeça pintada de vermelho e a participação na caçada de fogo. Dentro do dualismo característico das sociedades jê, i’pré (vermelho) é a cor do mundo social, enquanto i’udzé (todas as outras cores) diz respeito ao mundo circundante, da natureza. O azul (ovy) para os Guarani também possui estatuto diferenciado, associado a realidades místicas dos tempos originários, como no caso da onça imortal jaguarovy e da palmeira primordial pindovy. Assim, as línguas parecem possuir função complementar ao prisma de Newton, mostrando as refrações universais e particulares das cores para os diversos povos humanos.
Para saber mais:
Berlin, Brent & Kay, Paul. Basic 1969. Color Terms: Their Universality and Evolution. Berkeley and Los Angeles: University of California.
Goethe, Johann Wolfgang von. Doutrina das cores. 1996. São Paulo: Nova Alexandria. 2ª ed.
Quintino, Wellington. 2012. “Aspectos da Fonologia Xavante e Questões Relacionadas: Rinoglotofilia e Nasalidade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Linguística. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
REGIER, Terry; KAY, Paul e KHETARPAL, Naveen. 2009. “Color naming and the shape of color space”. Language, Volume 85, Number 4.
Sobre a Hipótese Sapir-Whorf
Pinheiro, Diogo. Nossa churrasqueira se chama Rose – e o que você tem a ver com isso. Disponível em: https://lefufrj.wordpress.com/2023/10/30/nossa-churrasqueira-se-chama-rose-e-o-que-voce-tem-a-ver-com-isso/
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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