José Mauro Pinheiro1 (PPGLILP/UERJ)

Resumo: Nossa fala sobre a comunicação costuma estar impregnada de metáforas. O mesmo se observa quando nos referimos à comunicação digital. Assim, quando um meme fica muito conhecido, dizemos que ele “viralizou”, como se o usuário das plataformas digitais estivesse contaminado por ele. Esse artigo propõe uma reflexão sobre algumas dessas metáforas e sobre quais modelos de comunicação elas licenciam.
Imagine-se a seguinte situação: dois colegas de classe resolvem compartilhar suas primeiras impressões das aulas que estão tendo. Um dos alunos é iniciante no assunto, ao passo que o outro já tem alguma vivência teórica nesse campo. Se o colega menos experiente se vira para seu par e diz, intrigado, que não conseguiria colocar em palavras (1a) aquilo que aprendeu, tal sentença não deverá causar estranhamento para seu interlocutor. “Nesses casos, é recomendável digerir (2a) um pouco essas ideias, dar tempo ao tempo, até que o conteúdo se estabilize na sua cabeça.” – diria o estudante mais calejado nas sendas linguísticas. Também aqui temos exemplos de asserções bastante corriqueiras que utilizamos para falar sobre o processo de assimilação de ideias e sua consequente comunicação.
Um pouco de metáfora
Afirmar que essas frases são corriqueiras não é algo banal. Isso porque o entendimento que se teve sobre a metáfora no percurso da Linguística e da Filosofia nem sempre foi o mesmo. Na escola, por exemplo, ainda é possível que se ensine metáfora apenas como um recurso linguístico excepcional, ligado mais ao ornamento do que ao pensamento. É desse tema que se ocupam George Lakoff e Mark Johnson na obra Metáforas da vida cotidiana, publicada em 1980 e traduzida para o português em 2002. Para os autores, a metáfora não é um mero recurso retórico, uma opção estilística empregada por escritores oradores em busca de beleza e graça. A metáfora, segundo Lakoff e Johnson (2002[1980]), encontra-se no cotidiano dos falantes, estruturando a forma pela qual compreendemos a realidade e, especialmente, agimos diante dela.
Trocando em miúdos, o que significa isso de fato? Que uma boa parte do que falamos é estruturado de maneira metafórica, ou ainda, que a metáfora é antes um recurso cognitivo, posto que ela dá forma à maneira que pensamos, sendo num segundo momento materializada em metáforas linguísticas. Dito desse modo, pode parecer audacioso que dois autores tenham proposto novas percepções para um conceito tão clássico como a metáfora. No entanto, ao se deparar com a obra citada acima, o leitor neófito terá acesso a um vasto exemplário de expressões figuradas que demonstram com robustez essa “nova” visão da metáfora.
“Nova” porque os dois linguistas estadunidenses não foram os primeiros a revisar a teoria então vigente sobre a metáfora. Metáforas da vida cotidiana surge num caldo de discussões que, dentre outras coisas, pretendiam desafiar as bases do paradigma objetivista, tão característico do pensamento ocidental. Segundo ele, nós teríamos acesso linear e direto à realidade. Isso nos permitiria engendrar uma linguagem igualmente objetiva acerca dos fatos que nos circundam. O literal seria o grau zero da linguagem, o jeito normal de se comunicar, ou seja, uma cópia muito fiel da realidade. Sobre ele incidiria o metafórico, uma espécie de deformação linguística, restrita à arte e, no cotidiano, àqueles dados ao engodo, à enganação de outrem. Portanto, segundo essa visão objetivista, a metáfora seria um fato linguístico a ser evitado. Lakoff e Johnson (2002[1980]) demonstram que a linguagem figurada é fato cotidiano, tanto quanto a linguagem literal. E principalmente: uma estrutura do pensamento, por isso, uma metáfora conceptual. Sobre o paradigma objetivista e os precursores de Metáforas, falaremos mais ao abordar a metáfora do conduto e as contribuições de Reddy (1979) à teoria da metáfora.
Por ora, voltemos aos diligentes alunos do início do texto. Segundo a teoria da metáfora, eles estão se valendo de um dado domínio experiencial para conceptualizar um outro, de natureza distinta. O estudante menos experiente não consegue comunicar devidamente o que aprendeu na aula, ou seja, não consegue empacotar essas ideias em palavras (1b), ao passo que seu colega mais experiente diz se tratar de uma questão de digestão (2b) das ideias. No primeiro caso, a experiência com a comunicação é traduzida metaforicamente por meio de um quadro experiencial que criamos a partir da manipulação de objetos. Um objeto pode ser colocado dentro de outro, seu recipiente. Uma ideia, por sua vez, não possui contornos físicos, logo não pode ser colocada em um recipiente. No segundo exemplo, nosso repertório experiencial ligado à alimentação é acionado para conceptualizar a noção de assimilação (lenta e gradual) de um assunto. Também uma ideia, diferente de um hambúrguer, não pode ser submetida aos diversos sucos gástricos de um dado sistema digestório.
Interessa notar que essas ocorrências citadas não ocorrem com exclusividade na língua portuguesa. Por exemplo, em inglês, quando uma ideia instiga alguém a refletir mais demoradamente, pode-se dizer que se trata de food for thought (2c) (= alimento para o pensamento), expressão metafórica que perspectiva ideias nos moldes de alimentos, o que é consistente com os outros exemplos elencados em (2). Em Master Metaphor List (Lakoff; Espenson; Schwartz, 1991), trabalho resultante de compilações realizadas na pesquisa sobre metáfora, exemplos como The teacher spoon-fed them the information (2d) (= O professor deu-lhes as informações de colher, ou seja, de modo gradual e paciente, semelhante ao nosso “deu tudo mastigado”) confirmam a ubiquidade das metáforas que fundamentam os exemplos em (2). O mesmo trabalho já foi feito para o grupo de metáforas consistentes com (1) (Reddy, 1979), tratando da noção de que a comunicação costuma ser percebida como o envio de objetos.
Falando de modo mais geral, que metáforas motivariam (1) e (2)? Segundo a notação proposta por Lakoff e Johnson (2002[1980]), poderíamos propor a seguinte esquematização:

Agora, considerando-se que ideias são parte fundamental da comunicação, cabe estabelecer o seguinte grupo de metáforas:

A comunicação, segundo achados da teoria da metáfora, é metaforicamente percebida como um processo de empacotamento e envio de objetos, o que implica dizer que, para que ela seja bem-sucedida, esses dois processos também precisam ser. Seu emissor-remetente precisa cuidar para que o processo de empacotamento das ideias em palavras seja eficiente, assim como sua apresentação, o que corresponde ao envio do objeto-mensagem. Caso contrário, o interlocutor-destinatário não conseguirá desempacotar o objeto, isto é, compreender as ideias com as quais trava contato.
A essa altura, o leitor deve estar se perguntando: e o que isso tem a ver com vídeos virais, memes, plataformas digitais etc? Bom, aparentemente muita coisa. Passemos, então, para os memes propriamente ditos.
Um pouco de meme
A maioria das pessoas tende a associar o conceito de meme às plataformas digitais. De fato, atualmente os memes estão em todo tipo de redes e apresentam-se em diversos formatos: fotos (geralmente com letreiros), vídeos, gifs animados, hashtags, áudios, figurinhas, etc. Observe o exemplo abaixo, que faz menção à dificuldade que algumas pessoas tinham de se orientar no horário de verão:

Nazaré Confusa ou Math Lady, como o meme é internacionalmente conhecido, vale-se de um trecho da novela Senhora do Destino (2004), em que a afamada vilã de Renata Sorrah fabula mais um de seus planos nefastos. Em geral, os memes que partem da cena da novela apresentam em sobreposição várias fórmulas matemáticas complexas, o que busca trazer o efeito cômico de confusão ou inaptidão para entender determinados assuntos. Como um bom meme, Nazaré Confusa consegue, de modo compacto e rápido, significar um bocado de ideias mais ou menos relacionadas, inclusive através de línguas e culturas distintas.
Exemplos como esse ilustram como o meme se tornou uma forma consistente de comunicação no âmbito digital. No entanto, quando do aparecimento da palavra, em 1976, as modernas redes digitais não eram uma realidade. Nesse ano, o zoólogo Richard Dawkins lançava O gene egoísta, obra que partia de exemplos de populações animais para argumentar que a nossa sobrevivência como espécie se deve aos chamados replicadores, estruturas de multiplicação genética (quase cega) apenas interessadas em produzir cópias de si. É porque nossos genes egoístas esforçaram-se herculeamente para sobreviver e se multiplicar, em detrimento de outras espécies ou agrupamentos humanos, que hoje um Sapiens pode se sentar num café e rir bastante de um meme como Nazaré Confusa enquanto degusta seu frappuccino.
Ocorre que o que inicialmente se estrutura como um tratado sobre genética e comportamento acabou se tornando um celeiro para o conceito de meme ou memética, como propõem alguns. Nos capítulos finais do livro, Dawkins (1976) parte para uma discussão sobre multiplicação de ideias e de como, elas também, são comumente replicadas e repassadas de mente em mente, quase que de modo automático. Para o autor, adepto ao darwinismo, uma boa ideia, nos moldes de um gene, poderia ser repassada adiante, como por exemplo, trechos de músicas, vestimentas da moda, busca recorrente por determinadas profissões, hábitos e, pasmem, até a ideia de Deus. Segundo Dawkins (1976), uma ideia boa é uma ideia competitiva, que segue um grupo de critérios, que não cabe discutirmos aqui, e que, portanto, está pronta para ser viralizada.
Portanto, a palavra meme foi forjada a partir de uma série de metáforas que se valem de processos biológicos para conceptualizar processos da comunicação. Segundo seu criador, “tal como os genes se propagam no pool gênico saltando de corpo para corpo através dos espermatozoides ou dos óvulos, os memes também se propagam no pool de memes saltando de cérebro para cérebro” (Dawkins, 2007[1976]). É como se, ao repassar uma ideia, o emissor estivesse contaminando o cérebro do seu interlocutor, assim como um vírus replica seu conteúdo genético, contaminando novos organismos.
Ora, é fácil perceber como essa metáfora do contágio ainda é produtiva, mesmo no contexto de memes de internet, diverso do meme de Dawkins (1976), anterior às redes sociais. Quando um vídeo repercute múltiplas vezes numa dada plataforma, pode-se dizer que ele “viralizou”. Ou seja, o meme de internet, uma ideia repassada de forma digital, é comunicada nos moldes de um vírus. Sendo assim, é como se os usuários das redes estivessem metaforicamente contaminados pelo meme quando o replicam.
Dessa forma, no caso do meme, poderíamos formular algo nos padrões da teoria da metáfora como comunicar é contaminar. Então, convém verificar: o que poderia estar por trás das três metáforas aqui apresentadas para comunicação?
comunicar é enviar (=>ideias são objetos)
comunicar é alimentar (=>ideias são comida)
comunicar (digitalmente) é contaminar (=>ideias são vírus)
Uma pista pode estar nas considerações feitas por Kövecses (2010), linguista húngaro, sobre as semelhanças estruturais percebidas entre corpo e mente. Para o autor, essas semelhanças poderiam motivar a metáfora ideias são comida/comunicar é alimentar. Tanto corpo quanto mente são entendidos metaforicamente como contêineres, ou seja, a partir do conceito mais básico de objeto. Por exemplo, quando uma pessoa diz que está de “barriga cheia”, ou seja, que se sente alimentada, o alimento é percebido como um objeto que ocupa o contêiner barriga, por sua vez percebido como o recipiente desse objeto. Reflexões parecidas podem ser tecidas para a metáfora do contágio (ideias são vírus/comunicar é contaminar). Uma pessoa contaminada contém em si o objeto vírus. Assim, na base dessas metáforas ainda estaria a ideia de que comunicar é repassar um objeto (ideias são objetos/comunicar é enviar), podendo ele ser mais detalhado, como um alimento ou um vírus.
Um pouco de reflexão
Quando Reddy (1979) divulga seu vasto estudo sobre expressões em língua inglesa, trabalho anterior e influenciador de Metáforas da vida cotidiana, ele conclui que a metáfora do conduto (= comunicar é enviar) é muito recorrente na nossa fala sobre comunicação. Dito de outra forma, a comunicação costuma ser percebida entre nós metaforicamente como a transferência de objetos. Como constata o autor, tal metáfora representa um modelo de comunicação demasiado simples, segundo o qual o mero envio do objeto “mensagem” garantiria a justa comunicação entre interlocutores. Estudos mais contemporâneos sobre linguagem e discurso vêm demonstrando que a comunicação depende de uma série de negociações de sentido bastante complexas realizadas durante a interação. Assim, o sucesso da comunicação não pode estar atrelado apenas ao momento da reprodução do seu objeto, do envio da mensagem, nem a comunicação deveria se resumir a essa fase de réplica da mensagem.
Também ao concebermos a comunicação digital metaforicamente como um contágio, ou como a replicação de um vírus, podemos nos perguntar sobre os motivos que nos levam a entender esse tipo de comunicação de forma, digamos, passiva. Afinal, será que alguém que se “contaminou” com a Nazaré Confusa estaria mesmo compelido a somente reproduzir esse meme nas redes? Não poderia interferir no meme, remodelando-o, ressignificando-o? Portanto, esse é um debate que passa por participatividade e responsabilidade sobre os conteúdos que postamos on-line.
FICHA CATALOGRÁFICA
P555 PINHEIRO, José Mauro
ㅤㅤ Nazaré Confusa me contaminou: Teoria da Metáfora, comunicação digital e o conceito de memes virais / José Mauro Pinheiro – Rio de Janeiro – NÓS DA LINGUÍSTICA, 2024. 1 p.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤ 1. Metáforas 2. Comunicação 3. Comunicação digital
ㅤㅤ I. Pinheiro, José Mauro II. Nazaré Confusa me contaminou: Teoria da Metáfora, comunicação digital e o conceito de memes virais
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 401.9
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 302.23:004.678:801.9
Saiba mais
Artigo The conduit metaphor: A case of frame conflict in our language about language – Escrito por Michael Reddy (1979), trata-se de uma obra instigante sobre a forma como nos referimos à comunicação. O trabalho do autor influenciou diretamente o desenvolvimento da Teoria da Metáfora Conceptual e da obra Metáforas da vida cotidiana. Ao falar sobre comunicação do posto de vista linguístico, o autor não se furta de comentar sobre as limitações inerentes à linguagem no processo de representação da realidade.
Artigo Entre agulhas e linhas: A metáfora de corte-e-costura em construções transitivas – Escrito por Lilian Ferrari e Caroline Soares (2021), o trabalho investiga a produtividade de metáforas como “alfinetar” ou “tecer” quando falamos sobre a comunicação verbal. Interessante notar como essa ideia está presente na própria noção de texto, muitas vezes compreendido metaforicamente como uma espécie de tecido. Texto disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/soletras/article/view/55475/36688.
Site Museu de Memes (https://museudememes.com.br/) – Viktor Chagas, pesquisador da área de comunicação da UFF, organizou junto com sua equipe esse rico levantamento de memes que repercutiram nas maiores plataformas digitais da memesfera brasileira. O rigor da compilação de cada artigo vale visita demorada na página. Cada entrada é tratada como efetivamente um artigo de museu. Lá, o visitante pode entender a trajetória de um meme, sua origem, assim como conferir seus elementos constituintes e sua tipologia.
Referências
DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007[1976].
KÖVECSES, Zoltán. Metaphor: a practical introduction. Nova Iorque: Oxford University Press, 2010.
LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Coordenação de tradução: Mara Sophia Zanotto. Campinas: Mercado das Letras; São Paulo: Educ, 2002[1980].
LAKOFF, George; ESPENSON, Jane; SCHWARTZ, Alan. Master Metaphor List. Cognitive Linguistics Group. Berkeley, Universidade da Califórnia, 1991.
MUSEU DE MEMES. Disponível em: https://museudememes.com.br/. Acesso em: 9 fev. 2024.
REDDY, Michael. The conduit metaphor: a case of frame conflict in our language about language. In: ORTONY, Andrew (Ed.). Metaphor and thought. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.
- Doutorando em Estudos de Língua/Linguística pela UERJ. ↩︎
- Disponível em <https://museudememes.com.br/collection/nazare-confusa>. Último acesso: 7 de fev. 2024. ↩︎
(Baixe a versão em pdf do texto)
[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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