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A selva dos tempos verbais

Alessandro Boechat de Medeiros (FL/UFRJ) Resumo: Este texto faz uma apresentação resumida das investigações sobre os tempos verbais em várias línguas, procurando detalhar as interpretações que os tempos verbais podem carregar fazendo uso de algumas propostas formais ancoradas no tempo da fala (momento em que a frase é dita). Por fim, o texto também trata…

Alessandro Boechat de Medeiros (FL/UFRJ)


Resumo: Este texto faz uma apresentação resumida das investigações sobre os tempos verbais em várias línguas, procurando detalhar as interpretações que os tempos verbais podem carregar fazendo uso de algumas propostas formais ancoradas no tempo da fala (momento em que a frase é dita). Por fim, o texto também trata brevemente da expressão morfológica dos tempos, mostrando que as partes das palavras que os expressam costumam estar mais próximas das raízes dos verbos do que as partes que codificam as concordâncias desses verbos com sujeitos e objetos na frase.


No português e em muitas línguas, verbos expressam tempo. Por exemplo, na frase (1) abaixo, sabemos pela terminação do verbo comprar que a ação que ele designa ocorreu no passado, ou seja, antes do momento em que a frase foi dita:

(1) Mário comprou uma vara de pesca.

A terminação -ou, que exprime esse passado, é adicionada à raiz verbal compr-, raiz de um verbo regular de primeira conjugação da língua. Sabemos das nossas aulas de português na escola que essa terminação não codifica somente o tempo passado, mas também outras coisas importantes, como a concordância com o sujeito (a terminação indica que o verbo está conjugado na terceira pessoa do singular, e do mesmo modo o nome próprio Mário, sujeito da frase, exprime uma terceira pessoa e está no singular), o aspecto e o modo[1], pelo menos.

As línguas do mundo variam no que diz respeito ao que “colocam” no verbo. Por exemplo, além do tempo e do aspecto, os verbos podem carregar concordâncias de sujeito e objeto – como é o caso da língua georgiana, língua caucasiana meridional falada na Geórgia, uma nação que tem uma vasta fronteira com a Rússia e já esteve em guerra com este país. Podem expressar inúmeras coisas através de partículas ou morfemas acoplados: concordâncias, advérbios, objetos indiretos, etc. – como é o caso da língua terena, língua aruák falada principalmente no Mato Grosso do Sul. Podem simplesmente não expressar tempo algum nem concordâncias com afixos[2], recorrendo, para a veiculação do tempo dos acontecimentos descritos, a advérbios ou partículas, que podem estar em outras partes da frase – como acontece com o mandarim. Contudo, a maioria das línguas estudadas pelos linguistas e antropólogos expressa alguma dimensão temporal no verbo, e vou-me ater, neste texto, portanto, ao tempo verbal e ao aspecto, tratando um pouco de sua expressão morfológica e bastante do significado codificado nessa morfologia – que, em português, são as terminações como a que vimos acima, ou mudanças na própria raiz, como acontece com o verbo ir, por exemplo: vai, foi, ia, etc. Privilegiarei aqui a língua portuguesa, que é aquela em que o texto está escrito e, portanto, creio, fornecerá exemplos mais fáceis de compreender, mas também falarei um pouco da expressão de tempo em outras línguas.

Retomemos o exemplo (1) acima. Sabemos que o evento descrito pelo predicado da frase, de “comprar uma vara de pesca”, ocorreu antes do momento em que a frase foi dita. Ao que parece, a expressão de tempo depende crucialmente de um marco temporal importante: o momento em que a frase que inclui o verbo é pronunciada (ou talvez lida). Tomando esse momento como marco, podemos ter, a princípio, três relações com ele: o passado, expresso em (1); o presente, expresso em (2); e o futuro, expresso (3).

(2) Mário compra uma vara de pesca (neste momento)[3].

(3) Mário comprará uma vara de pesca.

Em (2), o evento de “comprar uma vara de pescar”, realizado pelo Mário, está em andamento no momento em que (2) é dita; já em (3) é o momento em que a frase é proferida que vem antes do evento. Vamos chamar esse ‘momento em que a frase é dita’ de momento da fala, ou, para simplificar, chamemo-lo de MF. Se dizemos que o tempo do evento ocorreu antes ou depois do MF, então esse evento também tem um tempo, e vamos chamá-lo de momento do evento ou ME. Assim, na frase (1) o ME é anterior ao MF; na frase (2) o ME é simultâneo ao MF; e na frase (3) o MF é anterior ao ME. Suponhamos que os sinais < e = expressem, respectivamente, as relações ‘antes de’ e ‘ao mesmo tempo que’. Assim, aquilo que as terminações dos verbos nas frases acima codificam pode ser escrito da seguinte forma:

(4)

a. ME < MF (para o exemplo (1) acima)

b. ME = MF (para o exemplo (2) acima)

c. MF < ME (para o exemplo (3) acima)

Se as relações temporais expressas pela língua portuguesa se resumissem a isso, só teríamos três tempos verbais. Contudo, sabemos que as coisas não são assim. Existem o pretérito imperfeito, o futuro do pretérito, o pretérito mais-que-perfeito, diversas formas compostas, entre outras coisas. E sabemos também que um mesmo tempo pode exprimir mais de uma relação temporal. Por exemplo, em (5) abaixo o tempo é o presente do indicativo, mas o evento é futuro.

(5) Amanhã Mário compra uma vara de pesca.

O tempo presente, aliás, no português, quando o predicado veicula um evento, não um estado (como estar doente, amar ou odiar alguém, saber alguma coisa), dispara em quase todos os contextos uma interpretação habitual para esse evento, como vemos em (6) a seguir:

(6) Mário corre no calçadão da praia de manhã cedo.

Em (6), a relação temporal é complexa, com diversos eventos de “correr no calçadão da praia de manhã cedo” ocorrendo com certa regularidade temporal, o que indica um hábito. Portanto, a fórmula (4b) acima não dá conta do que de fato o tempo verbal morfologicamente marcado no verbo está veiculando em (5) ou em (6). Em (5), em vez de ME = MF, teríamos MF < ME, que é a fórmula do futuro; já a relação temporal de (6) não pode ser codificada adequadamente usando-se (somente) os símbolos e relações que propus acima.

Além disso, as diferenças entre os exemplos em (7) e (8) a seguir, por exemplo, não poderiam ser distinguidas somente com os símbolos MF e ME e as relações < ou =. Em ambas as frases, descreve-se um evento que ocorreu antes do momento em que a frase foi dita (ME < MF), mas há uma diferença importante entre as duas situações. Vejamos:

(7) Mário comprou uma vara de pesca.

(8) Mário comprava uma vara de pesca (naquele momento).

Em (7) o evento está totalmente encerrado no passado, concluído antes do MF, e há um resultado: no MF, a vara de pesca (já) está comprada e é posse de Mário. Em (8) o evento está em andamento em um ponto do passado, ainda não está concluído naquele momento, e pode ser que não tenha atingido seu estado resultante – não se pode afirmar, a partir dela somente, que de fato a vara de pesca foi comprada ou está comprada no MF. Isso pode ser visto nos exemplos a seguir. No primeiro caso, (9), a situação é contraditória (Mario comprou a vara, mas não comprou porque ficaria sem dinheiro?); no segundo, (10), não (ele estava comprando, mas, ao que ver que ficaria sem dinheiro, desistiu da compra, o que é plausível).

(9) Mário comprou uma vara de pesca; mas, quando percebeu que ficaria sem dinheiro, não realizou a compra.

(10) Mário comprava uma vara de pesca; mas, quando percebeu que ficaria sem dinheiro, não realizou a compra.

As diferenças entre (9) e (10) residem em o evento (ou ação aqui) já se ter concluído no passado ou não: respectivamente, ou a frase afirma que a duração da ação de comprar a vara de pesca está toda no passado ou a frase afirma que uma parte da duração desta ação está no passado, mas não necessariamente toda a sua duração, com, inclusive, a possibilidade de suspensão dessa ação antes de ela concluir-se. As gramáticas usam a palavra aspecto para designar essas diferenças. No exemplo (9) o verbo está no aspecto perfeito; no (10) está no aspecto imperfeito.

A língua portuguesa também expressa relações temporais mais complexas com formas verbais específicas. Por exemplo, na frase abaixo temos dois eventos no passado, e um deles é anterior ao outro:

(11) Mário (já) tinha comprado (ou comprara) uma vara de pesca quando Pedro entrou na loja.

Mais uma vez, não conseguiríamos expressar o que ocorre no predicado tinha comprado uma vara de pesca somente com MF, ME e as relações < ou =. Aqui, o evento de “comprar a vara de pesca” é anterior ao evento da entrada de Pedro na loja, e este evento é anterior ao momento em que a frase é dita. Ou seja, trata-se de um passado do passado: a duração do evento de “comprar a vara de pesca” está toda contida num passado anterior ao passado que inclui todo o evento de entrada (de Pedro) na loja. Essa forma verbal é chamada de pretérito mais-que-perfeito na tradição gramatical; no exemplo, a forma tinha comprado é a composta (ou perifrástica) deste tempo verbal, e a forma comprara é a simples (ou sintética).

Às vezes, uma forma verbal vincula o tempo do evento não ao MF, mas a qualquer tempo que esteja sendo expresso pelo verbo principal da sentença. Por exemplo, nas frases a seguir, o tempo do evento de “dançar uma valsa” é simultâneo ao tempo do evento de “comprar a vara de pesca”, esteja este no passado, no presente ou no futuro:

(12) Mário comprou a vara de pesca dançando uma valsa.

(13) Mário compra (neste momento) a vara de pesca dançando uma valsa.

(14) Mário comprará a vara de pesca dançando uma valsa.   

A terminação -ndo, que serve para formar o gerúndio do verbo na nomenclatura tradicional, não serve para expressar, portanto, uma relação entre um ME e um MF, mas uma relação de simultaneidade entre o tempo do evento expresso pelo verbo e o de outro evento ou momento relevante. O gerúndio do verbo serve para expressar essa simultaneidade também nas formas progressivas, como nos exemplos a seguir. Haverá aqui uma simultaneidade do tempo do evento veiculado pelo verbo principal e o tempo veiculado pelo verbo estar. Quando falo de simultaneidade aqui, o que quero dizer é que o evento denotado pelo verbo no gerúndio ainda está se desenrolando no tempo de outro evento indicado na frase ou expresso pelo verbo estar. Ou seja, o gerúndio é uma expressão de tempo ou aspecto no verbo que não expressa diretamente uma relação entre os dois tempos que introduzimos acima.

(15) Mário está comprando uma vara de pesca.

(16) Mário estava comprando uma vara de pesca.  

Como se vê, os verbos e os tempos dos verbos são assunto para lá de complexo – sobre o qual, por outro lado, todos nós, falantes, temos intuições muito bem consolidadas: sabemos exatamente como e quando usar os tempos verbais disponíveis e fazemos inferências corretas a partir deles.

Mas então como podemos entender esse emaranhado de relações entre tempos diversos que as formas morfológicas dos verbos exprimem? Como descrevê-las adequadamente? Como explicar com um sistema explícito o que nós, falantes, talvez, saibamos sobre essas formas quando as usamos (na sua compreensão ou na sua produção)?

Uma das mais famosas tentativas de sistematizar aquilo que os tempos verbais exprimem em diversas línguas foi apresentada num livro, cuja primeira publicação é de 1947, de um importante filósofo do positivismo lógico no século XX, o alemão naturalizado estadunidense Hans Reichenbach. O livro, que se chama Elements of Symbolic Logic (Elemento de lógica simbólica), é também uma tentativa de formalizar a descrição de línguas naturais usando o aparato da lógica simbólica desenvolvido na época.

Reichenbach usa três pontos na linha do tempo (e não dois como na nossa primeira tentativa acima) e as duas relações que usamos anteriormente: “antes de” e “coincidente com” (vamos usar os símbolos que usamos anteriormente, e não os símbolos usados por Reichenbach, para facilitar nossa discussão aqui). Os três tempos que ele usa são os dois que já propusemos antes, o MF e o ME, mais o que ele chama de tempo da referência, que vamos chamar aqui de MR. O tempo de referência pode ser um outro tempo expresso na frase ou suposto no contexto. Por exemplo, na sentença a seguir, a oração “quando Pedro entrou na loja” estabelece um tempo de referência para a oração principal. Esse tempo de referência será simultâneo ao tempo da ação descrita na oração principal, e ambos estarão no passado (antes do MF).

(17) Mário comprou uma vara de pesca quando Pedro entrou na loja.

O tempo da ação (do evento) de “comprar a vara de pesca”, realizado por Mário, é simultâneo ao tempo do evento de “entrar na loja”, que Pedro realiza – o tempo de referência. Ambos são anteriores ao tempo da fala. Assim, o significado do pretérito perfeito no evento de “comprar uma vara de pesca” em (17) pode ser expresso por algo como (18) a seguir:

(18) MR = ME < MF

O uso de um tempo de referência é bem interessante para expressar relações complexas como a que encontramos em tempos como o mais-que-perfeito. Retomemos a frase em (11) acima, repetida a seguir como (19). Nela, o tempo de referência será o tempo da entrada de Pedro na loja.

(19) Mário (já) tinha comprado (ou comprara) a vara de pesca quando Pedro entrou na loja.

Aqui, o evento de comprar a vara de pesca é anterior ao evento de entrar na loja (realizado pelo Pedro), que é anterior ao tempo em que a frase é dita. Assim:

(20) ME < MR < MF

Interessantemente, o tempo de referência pode ser o momento da fala, mas o evento estar no passado (antes do MF). É o caso da frase a seguir, em que o advérbio agora define o tempo de referência, que coincide com o MF.

(21) Mário comprou agora uma vara de pesca (ME < MR = MF).

O pretérito perfeito simples do português, portanto, expressa as relações que encontramos em (18) e (21). O inglês, por outro lado, possui uma forma para a expressão lógica que encontramos em (18) e outra para a que encontramos em (21): para a expressão de (18), os falantes de inglês usariam o simple past (o exemplo (22) a seguir); para a expressão das relações em (21), usariam o tempo composto present perfect, formado pelo auxiliar have no presente seguido do particípio passado do verbo principal (o exemplo (23) a seguir). As frases abaixo são traduções das frases em (17) e (21) para o inglês.

(22) Mario bought a fishing rod when Pedro entered the store (simple past).

(23) Mario has now bought a fishing rod (present perfect).

Ou seja, o sistema de Reichenbach tem o poder de descrever o significado de tempos complexos e simples, além de explicar diferenças sutis como a que vemos entre as expressões de tempo em (22) e (23), por um lado, e as que encontramos na expressão de tempo entre duas línguas, o português e o inglês, por outro[4].

Por conta de seu poder para descrever o significado dos tempos verbais em várias línguas, o sistema foi adotado por outros linguistas, inclusive por muitos que não fazem uso da lógica simbólica para descrever as línguas naturais. Apesar de ser uma excelente aproximação, ele não é perfeito. Por exemplo, vejamos mais uma vez o caso do pretérito imperfeito do português no seguinte diálogo:

(24)

A. Você sabe se o Mário gosta de pescar?

B. Bom, na época em que o conheci, ele gostava bastante de pescar. Eu apostaria que sim.

Qual é o problema? Com somente pontos na linha do tempo, não conseguiríamos distinguir o imperfeito do perfeito, pois ambos veiculariam as relações que vemos em (18). Para dar conta da diferença, o sistema de Reichenbach teria que apelar para “tempos com duração” – ou seja, intervalos. De fato, o próprio Reichenbach propõe isso para distinguir o imparfait do francês (o equivalente ao pretérito imperfeito no português) de seu passé defini (um tempo verbal que exprime uma das leituras do nosso pretérito perfeito, ME = MR < MF, e que só é usado hoje em dia no francês escrito): no imparfait ME e MR seriam intervalos coincidentes, enquanto no passé defini ME e MR são dois momentos coincidentes antes do MF. É preciso, assim, introduzir uma mistura de pontos na linha do tempo com intervalos para dar conta das diferenças entre formas verbais e seus significados numa língua. Mas o sistema, com intervalos e pontos na linha do tempo, acaba ganhando o poder de gerar uma enorme quantidade de distinções que não serão atestadas em língua nenhuma. Vale notar que, pensando somente nos três momentos na linha do tempo, sem distinguir pontos de intervalos, o sistema já é capaz de gerar distinções entre tempos que parecem não ser atestadas. Além disso, mesmo com duração, o estado descrito em (24) teria que estar todo no passado em relação ao MF na proposta de Reichenbach, mas a verdade é que o falante B no diálogo em (24) não está afirmando que Mário não gosta mais de pescar. Ou seja, o intervalo do ME (a duração do estado de gostar de pescar) poderia estar se estendendo até o MF…  

            Existem outros sistemas capazes de uma contribuição tão importante como a que vimos acima, evitando (alguns de) seus problemas? Sim. Há adaptações do sistema de Reichenbach, que surgiram nos anos noventa do século XX, que restringiam a capacidade de gerar tempos verbais não atestados estabelecendo que o tempo do evento (ME) e o tempo da fala (MF) não podem se relacionar diretamente, somente através do tempo de referência (MR). Ou assumem intervalos somente, não pontos na linha do tempo. Nenhum deles é perfeito, mas resolvem alguns problemas do sistema de Reichenbach. O semanticista alemão Wolfgang Klein em seu sistema que usa intervalos e impede a relação direta do tempo do evento com o tempo da fala expressaria a relação de tempos veiculada pela frase ele gostava bastante de pescar em (24) do seguinte modo:

(25) Pretérito imperfeito: (MR “contido em” ME) e (MR < MF)

Ou seja, o tempo de referência está dentro do tempo do evento (pois ambos são intervalos) e o tempo de referência vem antes do tempo da fala. Mas a relação entre o tempo do evento e o tempo da fala não está definida, porque, em (25), não se expressa diretamente continência ou precedência entre o ME e o MF. Assim, como (25) não garante que o ME está todo no passado, fica permitida a inferência de que a duração do estado descrito pelo predicado gostava de pescar, que é o ME do exemplo, pode ser tal que chegue ao presente, o MF, como acredita ser o caso o falante B em (24). Essa mesma inferência não é permitida pelos tempos perfeitos do português (com exceção do pretérito perfeito composto), que colocam as durações dos eventos, ME, inteiramente no passado: ou dentro do MR ou antes do MR, com MR vindo antes do MF.

Existem ainda outras maneiras e sistemas para abordar formalmente o significado e a expressão dos tempos nos verbos. Algumas envolvem uma complexa combinação de arranjo sintático com funções matemáticas codificadas nos morfemas verbais envolvidos. Nessas propostas não temos somente três tempos que se relacionam. Mas descrevê-las em poucas páginas de maneira compreensível seria um exercício infrutífero. De todo modo, as propostas que encontramos na literatura têm contribuído enormemente para o avanço do nosso entendimento sobre o significado dos tempos verbais.

Para fechar este texto, vou falar muito brevemente da expressão morfológica dos tempos verbais nas línguas. Quando falo de expressão morfológica dos tempos trato da sua expressão ou como afixos (prefixos, sufixos ou infixos) ou como partículas aglutinadas ao verbo ou como mudanças sistemáticas na raiz do verbo.

Desconsiderando tempos verbais compostos, em que temos verbos auxiliares combinados com formas nominais dos verbos principais, como particípios, gerúndios ou infinitivos, é interessante notar um padrão que se repete na imensa maioria das línguas estudadas pelos linguistas e antropólogos: os afixos (sufixos ou prefixos) que exprimem tempo estão sempre mais perto da raiz do verbo do que os afixos (sufixos ou prefixos) que expressam concordância, quando a língua tem concordância. Isso, claro, quando tempo e concordância não estão fundidos em um só afixo (como é o caso da terminação -ou do verbo comprou em (1) acima). Veja-se o caso do português a seguir. O pretérito imperfeito mostra isso com toda a clareza:

(26) Nós comprávamos uma vara de pesca.

Na forma do verbo em (26), temos o tema verbal (a raiz mais a sua vogal temática), compra-, o sufixo que indica o pretérito imperfeito (ou seja, o afixo que codifica o tempo verbal e o aspecto), -va-, e o sufixo que codifica a concordância de primeira pessoa do plural, -mos: compra-va-mos. Podemos dizer com confiança que -mos expressa somente a concordância de primeira pessoa do plural porque este afixo aparece em outros tempos verbais, como em canta-mos, cantá-ra-mos, canta-re-mos, cante-mos, canta-ría-mos

Esse ordenamento se repete em línguas aparentadas, como é o caso do italiano e do francês a seguir (27) e (28), e em línguas distantes, como é o caso do darai em (29), língua indo-ariana falada por uma pequena população no Nepal, que tem concordância com objeto também, a mais externa de todas as marcas, e do khanty em (30), língua urálica falada na Sibéria, que também tem concordância com o objeto e com o sujeito.

(27) Compra-va-mo una canna da pesca (italiano; nós comprávamos uma vara de pesca).

(28) Nous aim-i-ons ces filles (francês para nós gostávamos daquelas moças).

(29) de-ta-m-is (darai para eu dou isso para você; dados de PAUDYAL, 2008).

(30) xoj xo:llə-ptə-s-li (khanty para quem ele fez chorar?; dados de DALRYMPLE; NIKOLAEVA, 2011)

Em (29) temos a raiz verbal, de-, o tempo verbal não-passado, -ta-, a marca de concordância de primeira pessoa do singular com o sujeito, -m-, e a marca de concordância de segunda pessoa do singular com o objeto “indireto”, -is. Aqui, todas as concordâncias estão mais afastadas da raiz do que o tempo verbal (não-passado). Em (30) a raiz verbal é xo:llə (chorar), -ptə- é um morfema causativo, -s- é o morfema de tempo passado e -li é o morfema que codifica a concordância com o sujeito e com o objeto. Mais uma vez, temos o morfema de tempo mais próximo à raiz do que o(s) de concordância.

Alguns autores defendem que as flexões se dividem em inerentes e contextuais (BOOIJ, 1993). No caso do tempo, que não é forçado pelo contexto sintático (não tem relação com quem são o sujeito e o objeto, por exemplo), ele seria uma flexão inerente ao verbo, e, por conta disso, estaria mais próxima de sua raiz; a concordância, que depende de outros elementos da sentença, fora do verbo, seria tipicamente mais externa, mais distante da raiz – quando expressa por um morfema que pode ser separado do morfema de tempo ou da raiz.

Há muitas outras coisas interessantes sobre propriedades universais e diferenças que encontramos na expressão dos tempos verbais nas línguas do mundo; mas seria impossível tratar de todas elas em um breve texto de divulgação. Portanto, fico por aqui, esperando que isso tenha aguçado a sua curiosidade sobre esse grande tema dos estudos linguísticos.

Trabalhos citados e apresentados no texto:

BOOIJ, G. Against Split Morphology. In: BOOIJ, G.; van MARLE, J. (Orgs.) Yearbook of Morphology 1993. Kluwer Academic Publishers, 1993. p. 27-51.

DALRYMPLE, M.; NIKOLAEVA, I. Objects and Information Structure. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.

KLEIN, W. The Present Perfect Puzzle. Language, v. 68, n. 3, p. 525-552, 1992.

PAUDYAL, N. P. Agreement Patterns in Darai: typological Study. Nepalese Linguistics, Vol. 23, p. 186-207, 2008.

REINCHENBACH, H. Elements of Symbolic Logic. London: Dover Publications, 1947.


[1] Para quem não lembra das aulas de português, o aspecto diz, mais ou menos, se o evento ou ação está em andamento em determinado momento ou já se concluiu. O imperfeito é o aspecto da ação ainda não concluída, e o pretérito imperfeito na frase ele comia um peixe é um exemplo (a ação de comer um peixe acontece no passado, mas ainda não está terminada); já o perfeito é aspecto da ação concluída, e o pretérito perfeito em ele comeu um peixe é um exemplo (aqui, a ação de comer um peixe está concluída no passado). Os modos no português, segundo as gramáticas, são três: indicativo, subjuntivo e imperativo. É difícil definir semanticamente os modos, mas as gramáticas normativas afirmam que o indicativo codifica algo que realmente aconteceu, está acontecendo ou vai acontecer (por exemplo, ele comeu um peixe); o subjuntivo indica algo que pode acontecer ou talvez aconteça, mas não há muita certeza a respeito (por exemplo, talvez ele tenha comido um peixe); o imperativo trata de ordens e pedidos (por exemplo, come esse peixe agora!).

[2] Grosso modo, um afixo é um pedaço de uma palavra que pode contribuir com um significado específico. Exemplos de afixos são o sufixo -ou em (1), o prefixo des- em desmarcar, a forma -iz- em fertilizado, etc.

[3] Ainda que o presente do indicativo do português possa veicular essa ideia de um único evento ou ação em andamento em um dado momento (como agora), não é sua interpretação típica, como comentarei mais adiante. No contexto certamente os falantes prefeririam (ou mesmo produziriam) algo como Mário está comprando uma vara de pesca neste momento. No entanto, para não complicar por enquanto a conversa com uma forma composta, uso o presente simples neste exemplo.

[4] A existência de um tempo de referência no futuro pode explicar a frase em (5), na qual o presente expressa futuro. Lá, o MR está depois do MF, e o ME é simultâneo ao MR. Entretanto, teríamos assim uma superposição, parcial pelo menos, de dois tempos distintos, com uma certa interpretação do presente e o futuro sendo idênticos do ponto de vista de sua expressão lógica dentro do sistema de Reichenbach.


FICHA CATALOGRÁFICA

M486m    MEDEIROS, Alessandro Boechat de

                A selva dos tempos verbais / Alessandro Boechat de Medeiros

– Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2022. 1 p. 

ISSN: 

1. Língua  2. Morfologia  3. Linguística  4. Gramática.
I Medeiros, Alessandro Boechat de II. A selva dos tempos verbais  

                                                                                                              CDD: 415.9

                                                                                                              CDU: 81’366


Contato:

Alessandro Boechat de Medeiros (FL/UFRJ) – alboechat@letras.ufrj.br


(Baixe a versão em pdf do texto)

[Outros textos de divulgação: leia aqui].

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