Focalizando e Topicalizando na língua Karajá: brincando epilinguisticamente

Resumo: Neste pequeno artigo, propomos uma atividade de reflexão epilinguística microestrutural como ponto de partida para considerações metalinguísticas macroestruturais, utilizando dados sobre construções declarativas, de foco e de tópico na língua Karajá. Os dados são inicialmente apresentados de modo mais convencional, com linhas de glosas interlineares e de tradução não literal e, em um segundo…

Marcus Maia (UFRJ/CNPq)

Resumo: Neste pequeno artigo, propomos uma atividade de reflexão epilinguística microestrutural como ponto de partida para considerações metalinguísticas macroestruturais, utilizando dados sobre construções declarativas, de foco e de tópico na língua Karajá. Os dados são inicialmente apresentados de modo mais convencional, com linhas de glosas interlineares e de tradução não literal e, em um segundo momento, na forma de mapas de fixação em que se apreciam leituras dessas construções por professores Karajá. Essas atividades foram desenvolvidas e aplicadas com a participação ativa  dos professores Karajá, durante uma viagem a campo, e agora podem também ser compartilhadas como um exercício ativo de desenvolvimento do que a professora Yonne Leite costumava chamar de “cabeça de linguista”.


Em Maia (2010) e Maia et alii (2019), entre várias outras construções, analisam-se comparativamente frases de foco e de tópico na língua indígena Karajá. Esta língua é classificada como pertencente ao Tronco Macro-Jê, sendo falada por cerca de 4 mil pessoas na região da Ilha do Bananal (TO) e adjacências. Em fevereiro de 2019, visitei por três semanas a aldeia Karajá de Hawalò, localizada no Rio Araguaia, nas proximidades do município de São Félix do Araguaia (MT), tendo levado comigo o rastreador ocular portátil Tobii Pro 120[1]. Nesta viagem de pesquisa de campo, conferi dados anteriormente obtidos, com vistas à preparação do livro Línguas Indígenas e Gramática Universal, que seria lançado alguns meses depois, neste mesmo ano. Tendo estado envolvido há muitos anos não só com a pesquisa linguística, mas também com a formação de professores indígenas, participei também da revisão da Gramática Pedagógica Karajá, durante a estada em campo, quando tive a oportunidade de interagir diariamente com professores Karajá da escola da aldeia. Não cheguei a aplicar experimentos psicolinguísticos de leitura plenamente desenvolvidos, durante este período, mas coletei exploratoriamente dados de leitura de frases, utilizando o rastreador ocular e os apresentei para discussão a alguns professores indígenas.

Neste pequeno artigo, compartilho alguns desses dados, propondo aos leitores um exercício de “pensar linguisticamente”, em uma atividade dita epilinguística, como a que realizei na aldeia com os professores Karajá, isto é, uma atividade que se realiza inicialmente com aderência plena aos dados, brincando com eles e não apenas os analisando com base em categorias metalinguísticas mais abrangentes, o que seria feito em um segundo momento, na aldeia. O linguista Carlos Franchi, em artigo de 2002 e, principalmente, em seu livro de 2006, Mas o que é mesmo Gramática, propõe que essas atividades epilinguísticas mereceriam ser mais exploradas na educação linguística, em que costumam predominar as atividades metalinguísticas. Antes de brincarmos com os dados microscópicos de rastreamento ocular, vejamos alguns exemplos de frases – declarativa, de foco e de tópico, em Karajá. Mas o que é tópico e foco? Se eu fizer aqui uma digressão para procurar caracterizar tais construções, deixaríamos a dimensão epilinguística e entraríamos logo na metalinguística… Então, passemos diretamente aos dados, pode ser?

(1) Isè            kua ijadoma-my robira hawa-ki.

      mãe dela aquela moça-ACUS viu aldeia-em

      “A mãe dela viu aquela moça na aldeia”. 

(2) Kua ijadoma-my, isè  tuu robira hawa-ki.  

      aquela moça-ACUS, mãe dela clítico-3 viu aldeia-em

       “Aquela moça, a mãe dela a viu na aldeia”.

(3) Kua ijadoma-my  dori isè robira hawa-ki.

Aquela moça-ACUS FOC  mãe dela viu aldeia-em

  “Foi aquela moça que a mãe dela viu na aldeia.”

               O nosso primeiro exercício epilinguístico consiste em observar e comparar essas três frases, procurando aprender o máximo possível sobre elas. Sugiro algumas perguntas metalinguísticas que, muito provavelmente, após você se aplicar epilinguisticamente, poderiam ser, ao menos preliminarmente, respondidas: como se diz “aquela”, “moça”, “mãe dela”, “viu”, “aldeia”, na língua Karajá? O verbo é inicial, medial ou final nesta língua? Há preposições ou posposições? Tem caso na língua? Qual é a frase declarativa, a de tópico e a de foco, em Karajá? Que hipóteses e generalizações poderiam ser entretidas a partir desses dados sobre a topicalização e a focalização nesta língua?

            Para tornar a brincadeira ainda mais interessante, vamos acrescentar mais um dado:

(4) * Kua ijadoma-my, isè robira hawa-ki.

  Aquela menina-ACUS sua mãe viu aldeia-em

 “Aquela menina, sua mãe viu na aldeia.”

            Certamente, você conhece a metalinguagem do asterisco (*), na teoria gramatical, não é? Então, você sabe que o asterisco no dado (4) indica que essa frase não é bem formada na língua. Por que será? Continue sua brincadeira epilinguística e tente conjeturar porque ela seria malformada.

               Finalmente, podemos apreciar como alguns professores da etnia Karajá leram essas frases, enquanto seu olhar era capturado pelo rastreador ocular. Os dados de rastreamento ocular são muito intuitivos e, ao meu ver, você não precisaria nem ter feito cursos de Psicolinguística ou de Sintaxe Experimental, como os que oferecemos no Programa de Pós-graduação em Linguística da UFRJ, para, ao menos, formar hipóteses iniciais sobre o que está se passando nas frases seguintes.  Minha proposta epilinguística é que você dê play e replay nesses dados microscópicos e chegue a hipóteses e conclusões relevantes que dialoguem com as hipóteses preliminares entretidas da observação cuidadosa dos dados de (1) a (4). Observe comparativamente as leituras, com especial atenção para as fixações e refixações em certas áreas críticas das frases.

  • Tópico A
  • Tópico B
  • Foco A
  • Foco B

Eu não vou te “dar as respostas”, mas estou à disposição se você quiser me escrever para conversar. Naturalmente, você pode também desgrudar do epi e buscar o meta, seja nas referências abaixo, seja na literatura mais ampla. Aliás, acrescentei nas referências um texto que vai aparecer em breve na Revista Diacrítica, de Portugal, onde discorro sobre a utilização de dados qualitativos de rastreamento ocular em oficinas de leitura no ensino fundamental e em cursos de Sintaxe Gerativa e de Processamento de Frases na graduação e pós-graduação. Ambos os empreendimentos tomam o nível sentencial como o objeto apropriado a ser explorado metacognitivamente[2] no ensino de língua e de linguística, a fim de desenvolver a capacidade inata de formação científica e o conhecimento da linguagem. Nesses cursos, tenho utilizado metodologias ativas baseadas em resolução de problemas, com o objetivo de estimular a participação dos alunos. Nesse processo de educação pela inteligência, certamente você estará desenvolvendo o que a Yonne Leite[3], que foi minha orientadora, costumava chamar de “cabeça de linguista”.  

               Divirta-se!

Referências

DUCHOWSKI, A. T. (2007). Eye Tracking Methodology Theory and Practice. London: Springer

FRANCHI, C. (2002).  Linguagem – atividade constitutiva. Revista do GEL, número especial, 37-74.

FRANCHI, C. (2006). Criatividade e gramática. In: Franchi, C. Mas o que é mesmo ‘gramática’? São Paulo: Parábola.

MAIA, M. (2010). The structure of CP in Karaja. In: Camacho, José; Gutiérrez-Bravo, Rodrigo; Sánchez, Liliana. (Org.). Information Structure in Indigenous Languages of the Americas: Syntactic Approaches. : Mouton De Gruyter, 2010, v. , p. 185-208.

MAIA, M., FRANCHETTO, B., LEMLE, M., & VIEIRA, M.D. (2019). Línguas Indígenas e Gramática Universal. São Paulo: Contexto.

MAIA, M. A. R.; GARCIA, D. C. DE ; FONSECA, Mariana . Metacognição e Educação Linguística. In: Marcus Maia. (Org.). Psicolinguística e Metacognição na Escola. 1ed.Campinas, SP: Editora Mercado de Letras, 2019, v. 1, p. 19-42.

MAIA, M. (a aparecer) Eye tracking sentences in language education. Revista Diacrítica.


[1] O rastreador ocular – eye tracker –  é um equipamento que monitora o olhar em tarefas de inspeção visual de imagens ou de leitura (cf. Duchowski, A. T. (2007). Eye Tracking Methodology Theory and Practice. London: Springer).

[2] Metacognição costuma ser definida como “pensar sobre o pensar”. Em Maia, Garcia & Fonseca (2019) discutimos o conceito em relação à educação.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Yonne_de_Freitas_Leite


CONTATO:

Marcus Maia (UFRJ/CNPq) – maia@ufrj.br


(Baixe a versão em pdf).

[Outros textos de divulgação: leia aqui].

FICHA CATALOGRÁFICA

M248 Maia, Marcus

Topicalizando na língua Karajá: brincando epilinguisticamente / Marcus Maia – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2022, 1 p.

ISSN:

1.Sintaxe 2.Focalização 3.Topicalização 4.Gramática 5.Classificação

I. Marcus Maia II. Topicalizando na língua Karajá: brincando epilinguisticamente

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