Clara Sousa da Silva (Graduação – Faculdade de Letras/UFRJ)
Orientador: Diogo Pinheiro
(Publicado originalmente em 21/12/2020)
Resumo: Durante a Iniciação Científica, fizemos um estudo sobre o item “bem” em um uso específico, pouco estudado e muito interessante. Nesse texto, vamos refletir um pouco sobre ele, tentando também compreender melhor o português, a língua e a Linguística.

– Poxa, o Diogo podia bem levar os copos pra ajudar a gente – disse eu para Brendha, minha parceira de pesquisa, enquanto a gente subia as escadas da Faculdade de Letras, carregando caixas lotadas de coisas que a gente levava pra festinha do nosso grupo de pesquisa.
Veja bem, Diogo, nosso orientador, é uma pessoa maravilhosa. Reclamar do Diogo? Longe de mim, longe de mim. Mas simplesmente eu e Brendha achávamos improvável que um professor universitário tão ocupado – a ponto de nunca conseguir sequer tempo pra responder nossas mensagens no WhatsApp logo depois de visualizar elas – fosse ter tempo de ajudar a gente a arrumar nossa festinha. Então ficamos nós, as duas sedentárias, sozinhas, lutando contra aquelas caixas pesadas e as infindas escadas da FL.
Mas você veio aqui pra saber das pesquisas (e não das festas) que nós, linguistas, fazemos, certo? Pois bem. Uma das pesquisas que nós, cientistas da linguagem (especificamente, eu, Brendha e Diogo) desenvolvemos é a respeito de uma construção que você viu na minha fala lá em cima. Percebe alguma coisa idiossincrática, quer dizer, peculiar, diferente, nessa frase?
Vou deixar o mistério de lado: nosso objeto de pesquisa é, sem muitas especificidades técnicas, esse “bem” que você viu. Te parece sem graça, trivial, até mesmo broxante? Bom, direito seu, mas pra gente não é. Isso porque a Linguística parte do princípio de que tudo o que falamos é manifestação de alguma regra, de algum sistema que a gente tem na nossa mente. Portanto, a principal função do linguista é, quando se deparar com algo “idiossincrático, peculiar, diferente”, falar “EPA, EPA!”, e tentar achar alguma razão pra aquilo acontecer daquele jeito, alguma regra pra aquele fenômeno, alguma sistematização pra aquele uso de uma determinada língua.
Mas, afinal, o que tem de tão “idiossincrático, peculiar, diferente” (Diogo diz que repetir as coisas faz a gente ser mais didático) nesse “bem”? Acho que, antes de mais nada, podemos lembrar dos valores menos diferentões e mais reconhecidos que essa palavra tem, em outros contextos, como os de modo e de intensidade. Se eu digo “Eu dormi bem”, quero dizer que dormi de uma maneira boa, agradável, prazerosa. Se digo que “Esse jogo é bem legal”, quero dizer que ele é muito legal, intensamente legal. Outro valor bastante comum a essa palavra é o de precisão: “Meu carro está bem ali” significa que seu carro está exatamente naquele lugar apontado.
Mas será mesmo que algum desses valores se aplica a frases como “O Diogo podia bem levar os copos”? Será que o sentido veiculado aqui é o de modo, e que eu quis dizer que o Diogo poderia levar os copos de uma maneira agradável, saltitando pelos corredores da universidade? Será que o valor é de intensidade e eu quis dizer que ele poderia levar os copos intensamente para a festa, correndo para a nossa sala como se sua vida dependesse disso? Muito forçado, não é? Mais absurdo ainda seria pensar nesse item como veiculando valor de precisão – tão absurdo que sequer consigo pensar em um exemplo criativo pra te ajudar a visualizar o que quero dizer.
Pois bem. É aí que entra o mistério que move (e que dá emprego a) os linguistas: nenhum desses valores se aplica ao “bem” dessa frase, nem ao de frases como “Meu nariz bem sangrou hoje”, “Eu bem vendi o colar que a Natália gostou”, “Eu bem queria dormir no ônibus”, “Ela bem viu seu ex ontem na rua”…
(Nesse momento, você provavelmente está testando se cada uma dessas frases comportaria os sentidos de modo, intensidade ou precisão. Se você fez isso, PARABÉNS! Você acaba de fazer uma análise linguística!!!)
Ainda assim, falantes de português – pelo menos do português falado aqui no Rio de Janeiro – usam essa construção o tempo inteiro. Logo, (EPA, EPA!) deve haver algum outro sentido veiculado por ela que seja aquilo que a gente quer passar quando a usa. Mais do que isso, deve haver um único sentido, uma semântica central (e não vários valores diferentes), já que se trata de uma mesma palavra, com uma mesma prosódia/entoação bem característica, usada geralmente nos mesmos lugares na frase (antes ou depois de um verbo). Então, qual é esse sentido? Algum palpite?
Nesse ponto, é importante ressaltar que a ciência não é algo por meio do qual temos acesso à verdade. Ela é apenas um método através de que criamos uma hipótese e podemos testar sua adequação ao mundo. Sendo assim, depois de muitas observações de dados e de inúmeros insights, a hipótese que eu, Brendha e Diogo levantamos é a de que essa palavra, nesse caso, veicula um valor de (rufem os tambores) contraexpectativa.
Vamos com calma. Podemos, nesse ponto, fazer alguns exercícios que os linguistas costumam fazer quando estão analisando um fenômeno: comparemos duas frases exatamente iguais, a não ser pela presença desse “bem”: por exemplo, “Eu vi um episódio de Game of Thrones” e “Eu bem vi um episódio de Game of Thrones”. Teoricamente, se você perceber alguma diferença semântica entre as duas frases, podemos atribuir essa diferença ao “bem”, já que ele é a única coisa diferente entre elas – assim, chegaríamos, teoricamente, ao valor que ele veicula aqui. Naturalmente, como não estamos trabalhando exatamente com uma ciência exata, deve haver algumas diferenças de interpretação de pessoa para pessoa. Mas veja se você concorda comigo: a frase com “bem” não parece ser mais bem sucedida se estivermos em um contexto em que a pessoa não via a série antes e agora está contando uma novidade para seu amigo? Do mesmo modo, pegue a seguinte frase: “Meu nariz bem sangrou hoje”. Você não acha que ela soaria muito estranha se fosse dita por uma pessoa que você conhece e que você sabe que tem uma condição médica extraordinária que a faz sangrar o nariz todos os dias, naturalmente? Ainda, uma frase como “Eu bem respiro”, em que atestamos uma coisa extremamente óbvia, não parece absolutamente péssima?
Ou seja, de maneira geral, esse item parece sempre ser usado para designar uma situação improvável, surpreendente, nova, diferente – em outras palavras, situações que vão contra alguma expectativa que construímos a respeito de como o mundo vai se apresentar pra gente. Portanto, lembra da historinha que eu contei no início desse texto? Eu disse que eu julgava improvável que algo que eu apreciaria bastante (a ajuda do Diogo) fosse acontecer – já que ele sempre estava muito ocupado. Assim, faz todo sentido que eu tenha usado esse “bem” pra veicular essa improbabilidade, essa falta de expectativa de que meu orientador fosse, de fato, poder levar os copos para a festa.
Como estou chegando no final do meu texto e como minha função aqui é fazer divulgação científica da área da linguística, quero justificar o porquê de nós estudarmos com tanto afinco e durante tanto tempo um fenômeno como esse (eu, por exemplo, estou encarando “bens” todos os dias da minha vida há quase três anos). Ocorre que aqui eu apresentei apenas as flores do nosso trabalho – na realidade, os obstáculos são inúmeros. Nem sempre os dados confirmam nossa hipótese: veja por exemplo a frase dita pelo meu noivo “Você bem podia fazer um carinho em mim”. Ela não vai contra tudo o que dissemos? Afinal, existe coisa mais óbvia de ser atestada do que a possibilidade que eu tenho de fazer um carinho em outro ser humano? Como eu posso dizer que ela veicula uma noção de quebra de expectativa?
São muitos outros os obstáculos e, como eu disse, essa é a nossa tarefa: quando a língua nos parece sem regra, sem sistematização, aleatória, maluca; a gente engole a vontade de jogar tudo pro alto e lembra que um século de pesquisas na área já mostrou que isso não é verdade. Não existe nada no sistema linguístico humano que possa ser considerado errado, um desvio, incorreto, porque isso é um paradoxo: a linguagem é, por excelência, um sistema de regras. Imagina se, quando alguém dissesse algo como “Ei, eu bem vi seu ex-namorado no shopping!”, essa pessoa estivesse “falando errado português” porque esse “bem” não veicula ideia de modo, intensidade ou precisão (ou por qualquer outro motivo)? Uma loucura, né? Mas esse tipo de avaliação negativa é feita por diversas pessoas a respeito de diversas outras formas linguísticas todos os dias – e, sim, é tão louco quanto.
Então, fica o convite para o leitor perceber que não tem nada mais divertido, misterioso e emocionante do que mergulhar (olha que metáfora maravilhosa!) na capacidade linguística humana e descobrir um mundo de sistemáticas idiossincrasias. Caso ele queira dar esse tchibum (olha ela de novo!), deixo alguns conteúdos abaixo que contemplam a linguagem como um objeto científico, como um sistema, como uma manifestação das mais fascinantes profundezas da nossa mente.
A gente bem queria que todo mundo pudesse enxergar a língua desse jeito. Pra hoje, improvável. Mas quem sabe logo logo.
Saiba mais
Nossa churrasqueira se chama Rose – e o que você tem a ver com isso. Por Diogo Pinheiro, disponível em: https://linguafranca.blog/2018/07/17/minha-churrasqueira-se-chama-rose-e-o-que-isso-tem-a-ver-com-linguagem/.
“Isso é um assalto”: as metáforas da vida cotidiana. Por André Souza, disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/cognando2/2011/05/05/isso-e-um-assalto-as-metaforas-da-vida-cotidiana/A marca da história no corpo das palavras. Por Vivian Paixão, disponível em: https://www.lingualivre.com/post/a-marca-da-historia-no-corpo-das-palavras.
FICHA CATALOGRÁFICA
S726 Silva, Clara Sousa da
Esse bem podia ser um texto legal sobre Linguística /
Clara Sousa da Silva – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2021, 1 p.
ISSN:
1.Linguística 2. Língua Portuguesa 3. Sintaxe e Semântica 4. Linguagem,
Inovação e Sociedade
I. Silva, Clara Sousa da II. Esse bem podia ser um texto legal sobre Linguística
CDD: 415
CDU: 81’367.625

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