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Code-switching: alternando o código linguístico no cotidiano

Gean Damulakis (Publicado em 23/12/2018) Alguns nova-iorquinos se gabam de viverem na cidade de maior concentração de línguas do mundo. Os dados variam, de acordo com critérios e fontes, mas devem ser faladas cerca de 200 línguas na cidade (1), o que nos leva a ouvir muitas por aqui, mesmo que não sejam de turistas…

Gean Damulakis

(Publicado em 23/12/2018)

Alguns nova-iorquinos se gabam de viverem na cidade de maior concentração de línguas do mundo. Os dados variam, de acordo com critérios e fontes, mas devem ser faladas cerca de 200 línguas na cidade (1), o que nos leva a ouvir muitas por aqui, mesmo que não sejam de turistas (mandarim, russo, italiano, iídiche, hebraico etc.). A maior parte das vezes (tirando o inglês, claro!) é o espanhol (2). Cerca de 49% dos residentes nesta cidade falam uma outra língua além do inglês, sendo metade desses o espanhol, o que daria cerca de um quarto de falantes dessa língua românica vivendo na cidade. Numa situação como essa, é muito frequente o code-switchin)g, que é alternância de língua – ou, para alguns, de dialetos da mesma língua – nas conversas, fenômeno frequente em casos de bi- ou plurilinguismo. O uso desse recurso nessas circunstâncias não apenas deve ser inevitável, mas também deve revelar efeitos pragmáticos muito interessantes.

Há algumas semanas vi no metrô uma mulher com seu filho, de 4 ou 5 anos, conversando em inglês e pude perceber, pelo sotaque, que sua primeira língua era o espanhol. Numa decisão muito frequente e por várias razões, muitos pais imigrantes preferem falar com os filhos na língua oficial do país (3), mas muitos da nova geração acabam aprendendo um pouco da língua de herança, às vezes para manter os laços familiares (com os avós, por exemplo). O fato é que a mãe falava com a criança, no metrô, apenas em inglês: “Look there!” (com o menino no colo, olhando pela janela – o metrô tem trechos sobre viadutos, no Brooklyn). “It’s so beautiful!”, “Don’t open” (o casaco dela), “it’s cold” etc.

Não sei por que cargas d’água o ‘pirraia’ começou a chorar e espernear. A mãe, com certa tranquilidade de início, fingia não perceber; depois, falou algo como “what happened?”, mas a criança continuava a birra. Finalmente, com pouca ternura e estendendo a mão, mandou um “Quieres que te pegue?”. A surpresa do menino de ter visto a mão estendida não me pareceu ser tão impactante quanto o fato de ele ter percebido que sua mãe tinha acabado de evocar algo muito sério com aquela alternância de língua: era um ultimato. Talvez inconscientemente, a criança também deve ter se dado conta que tinha diminuído consideravelmente (na verdade, para um quarto) a possibilidade de pessoas ao redor entenderem a pergunta da mãe (e saírem, eventualmente, em sua ajuda). Pelo efeito imediato – a criança parou de chorar no mesmo instante -, acho que isso foi muito mais eficaz que falar, entre os dentes, um “José Fernando García Rodríguez!” ou um “Engole esse choro… agora!”.

(1) De fato, estatísticas generosas falam de 800 (https://www.worldatlas.com/articles/how-many-languages-are-spoken-in-nyc.html), embora, em censo escolar de 2000, 176 línguas eram faladas por alunos de escolas públicas da cidade; apenas no Queens, bairro de maior diversidade linguística de NYLeia mais:C, há cerca de 167 línguas (https://www.wnyc.org/story/land-167-languages/).

(2) Na maior parte dos casos, da América Latina.

(3) Algo muito parecido ocorre com alguns indígenas, no Brasil, mesmo sendo o português, nesse caso, a língua de “imigração” (mas a do Estado, oficial). Code-switching ocorre também no Brasil, claro. Veja, por exemplo, a referência abaixo sobre o fenômeno no Xerente (família Jê).

Foto: Atriz Paz Vega, no filme ‘Spanglish’ (2004), de James L. Brooks (fala inserida).


FICHA CATALOGRÁFICA

D164 ㅤㅤ DAMULAKIS, Gean
ㅤㅤㅤㅤ Code-switching: alternando o código linguístico no cotidiano / Gean Damulakis – Rio de Janeiro: NÓS DA LINGUÍSTICA, 2018. 1 p.
ISSN: 3086-2086
ㅤㅤㅤ ㅤ 1. Língua 2. Idioma 3. Dados

ㅤㅤㅤㅤ I. Damulakis, Gean II. Code-switching: alternando o código linguístico no cotidiano
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDD: 400
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤCDU: 81:811:311


Leia mais:

MESQUITA, R. & BRAGGIO, S. L. B. Obsolescência linguística em Akwén Xerente: diglossia, empréstimo e codeswitching. Revista Signótica, v. 24, n. 2, 2012

SHAY, Orit. To switch or not to switch: Code-switching in a multilingual country, 2015. (disponível em sciencedirect.com)

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